Arcade Fire: Era uma vez um Campo Pequeno - Imagem do Som
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Arcade Fire: Era uma vez um Campo Pequeno

Na noite de 23 de abril de 2018 o Campo Pequeno demonstrou que musica é a arte de encaixar quadrados dentro de círculos. A geometria do espaço foi pensada ao milímetro: o declive acentuado do anfiteatro desliza até um ringue de boxe quadrado, erguido acima do nível do solo, e delimitado por quatro cordas elásticas.

Lá dentro, uma orgia de instrumentos e equipamento sonoro vira-se para as bancadas, de costas voltadas para um amplo prato giratório que alberga um piano e dois sets de bateria. Chão, monitores, amplificadores, e alguns teclados imaculadamente brancos, a contrastar com a estrutura simétrica de ecrans suspensos sobre os quatro lados da arena, alternando sequências luminosas e coloridas de imagens satíricas com projeção do espetáculo. A materialização cénica do álbum conceptual “Everything Now”.

Os Arcade Fire, emergem dos camarins por baixo da bancada numa ordenada fila indiana, atravessam a plateia ao som da versão de Walter Murphy da 5ª Sinfonia de Beethoven, assumem os seus postos, e compenetram-se no tema que dá o nome ao espetáculo. O público rapta-o ao primeiro verso, investe num coro que alimenta a dinâmica interativa e lança a banda numa escalada eufórica. Segue-se o clássico “Rebellion (Lies)”, entoado com toda a força de um hino, com os músicos a lançarem-se contra as cordas, e Richard Reed Parry a trepar a uma estrutura metálica para tocar tarola lá em cima. “Here Comes The Night Time” assume um frenesi quase inverosímil, com instrumentos e roupas a serem trocados durante a atuação. O entusiasmo da assistência dissolve fronteiras entre protagonistas e figurantes e as cordas do ringue são desmontadas, ilustrando essa fluidez mágica.

Régine Chassagne concede uns minutos de pausa à atmosfera, com um desempenho açucarado de “Haiti”. Na inspiração seguinte, “No Cars Go” projeta Win Butler para cima dos amplificadores e a multidão para a potencia máxima, tudo toca, tudo roda, até à capitulação de um comovido “obrigado”. Régine agarra o momento, e desfila o falsete de “Electric Blue” numa elegante teatralidade ao longo de todo o palanque. “Put Your Money On Me” rebenta como um dique: salta-se, canta-se e dança-se como se o mundo fosse acabar antes do ciclo respiratório seguinte.

“It’s Never Over (Hey Orpheus)” é um dueto enternecedor entre Win no prato rotativo, e Régine numa bancada oposta, embrulhada num longo casaco prateado, diante de uma espectadora grávida que sorri cúmplice a cada “it’s never over”.

Seguem-se três rodadas de “Neighbourhood” com “7 Kettles”, “Laika” e “Tunnels”. No primeiro pedem-se apenas luzes de telemóveis, e são desligados os restantes projetores, deixando pousar no palco uma onda de claridade branca proveniente do público. No último, Régine senta-se na bateria brandindo um par de baquetas vermelhas para aquecer a audiência.

Os écrans acendem-se como anúncios de cinema e advertem: “Arcade Fire present The Suburbs”. Win ao piano, duas baterias em diálogo, e a melodia de “sometimes i can’t belive it, i’m moving past the feeling” soa como nunca soou: nem antes, nem durante, nem depois do Grammy. Sem perder o fôlego, Win empunha a guitarra e canta “Ready to Start”. A mímica do percussionista entre duas congas e uma pandeireta enfeitada é imperdível, e milhares de pessoas berram o refrão com a determinação que ele exige. Régine opta novamente pelo prateado, mune-se de um cow bell e oferece a última pausa do serão num tranquilo “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”.

“Reflektor” e “Aterlife” revisitam o álbum com o nome do primeiro, num crescendo de empenho que se inicia com Win a tirar uma selfie projetada nos écrans, e culmina com ele a cantar em andamento pelo meio de uma plateia extasiada.

“Creature Comfort” regressa ao presente, com os sintetizadores a liderar as sucessões de imagens ilustrativas da impossibilidade de escolha entre o “make me famous” e o “just make it painless”. O final apoteótico é assegurado por “Neighbourhood” – Power Out”, e a banda sai do palco gerando uma apneia generalizada.

A espera é curta, o tempo de montar uma mesa com garrafas de litro desiguais, e os músicos regressam para um pungente “We Don’t Deserve Love”, em que Win se vai confessando à medida que se senta pelos quatro lados do palco, e Régine toca o refrão com colheres metálicas nas garrafas. O monumento neo-árabe empola-se de emoção. No anti climax da ressaca, a Preservation Hall Jazz Band assegura os reforços para um “Everything Now” em cores festivas e com um leque de metais avassalador. E, para terminar, o habitual “Wake Up”, com um total de 15 músicos em palco e cerca de 10.000 pessoas a cantarem até ensurdecerem o canto mais remoto da galáxia.

Os Arcade Fire descem do palco acompanhados pelos músicos de jazz, percorrendo o mesmo caminho que usaram para entrar, todos eles sorridentes e renitentes em sair, cantando e tocando até bem depois da musica terminar. Já à entrada dos camarins e dentro deles continuam, num improvisado “Rebel, Rebel”. Quando a vontade é mais forte que o horário, os génios perpetuam-se no talento dos que os seguem.

Talvez tenha sido apenas um concerto, ou talvez tenha sido a razão pela qual existem concertos.

 

Com o texto de Ana Cristina Carqueja, as fotografias são de João Pedro Padinha / @joaopadinha (instagram) // Sony Music Portugal / @sonymusicpt (instagram)