35 anos e uma longa fila depois… foi o melhor KISS dos últimos tempos

204

Chegaram a ter um segundo concerto marcado para 1997, na Praça de Touros de Cascais, que foi cancelado. O que sabemos hoje é que os KISS deram um concerto e tanto no Estádio Municipal de Oeiras, fazendo as delícias de miúdos e (muitos) graúdos.

Texto: Sara Delgado | Fotos: @KISSONLINE

Formados em 1973 (sim, mil novecentos e setenta e três – esse tempo todo), os norte-americanos KISS só tinham visitado Portugal uma única vez, corria o ano de 1983, no Dramático de Cascais. Ainda para mais, numa fase em que a banda havia optado por atuar de cara lavada, largando a maquilhagem que tanto a caracteriza. Como é que nunca mais regressaram ao nosso país? Não se sabe. Chegaram a ter um segundo concerto marcado para 1997, na Praça de Touros de Cascais, que foi cancelado. O que sabemos hoje é que os KISS deram um concerto e tanto no Estádio Municipal de Oeiras, fazendo as delícias de miúdos e (muitos) graúdos. Consigo, trouxeram os também norte-americanos Megadeth, que em lugar algum do mundo podem ser considerados apenas uma banda de abertura (sem retirar mérito às demais).

Infelizmente, não podemos dizer que o início desta noite tenha corrido bem, e qualquer pessoa que tenha estado no evento conseguiu aperceber-se do porquê. A culpada foi uma fila interminável que teimava em nunca mais escoar, pelo facto de existir apenas uma entrada para o Estádio. O resultado não foi o melhor – os Megadeth entraram pontualmente em palco, às 20h30, e grande parte do público só conseguiu entrar no recinto quando a atuação já ia a meio (havendo mesmo quem tivesse entrado no momento do encore). Apenas por volta das 21h00 é que foi aberta uma nova entrada, já o concerto dos norte-americanos ia a meio. Tendo em vista a dimensão da banda, não foi algo que tenha passado despercebido e havia muita insatisfação no ar, com promessa de reclamações.

Posto isto, é necessário falar de coisas positivas, e, apesar dos contratempos, a atuação de Megadeth foi claramente uma delas. Já sabemos que as atuações dos Megadeth não costumam pautar por grande comunicação com o público – pelo menos em palavras. Não foram raras as vezes que Mustaine comentou nos seus concertos “estamos aqui para tocar, não para falar; vamos aproveitar o tempo que temos disponível”. Não é que a atuação desta noite tenha sido muito diferente nesse campo, embora Mustaine tivesse parecido especialmente afetuoso com o público, mesmo sem falar muito. Culpa da idade? Alguma melancolia à mistura? A verdade é que foi uma hora pequenina – ficamos sempre a pensar que música é que gostaríamos de ter ouvido. Foi a primeira vez que a banda atuou em Portugal com a composição atual (o guitarrista Kiko Loureiro entrou em 2015; no ano seguinte, foi a vez do baterista Dirk Verbeuren) e, também, desde o lançamento de “Dystopia”, ocorrido há dois anos. Não lhes correu nada mal. Do mais recente, ouviram-se apenas o tema-título do álbum e “The Threat Is Real”. A voz de Mustaine tem sido altamente comentada por já não ser o que era. Sobre isso, o que importa salientar é que, não estando exatamente como nos recordávamos (o tempo passa, pessoal!), todo o instrumental compensa. Para além disso, os restantes colegas sempre iam dando uma mãozinha neste e naquele refrão, e tudo se compôs, como era de esperar. O álbum “Rust In Peace”, um dos mais acarinhados pelos fãs, foi o que teve mais destaque: ouviram-se “Hangar 18”, logo a abrir a atuação, “Take No Prisoners”, “Tornado Of Souls” e, a última da noite, “Holy Wars…The Punishment Due”. Do álbum “Peace Sells…But Who’s Buying?” ouviu-se a obrigatória “Peace Sells” (que teve direito à presença do “mascarado” Vic Rattlehead, a mascote da banda) e “The Conjuring”. As restantes contempladas foram as emblemáticas “Sweating Bullets” e “Symphony of Destruction”, do “Countdown to Extinction”, e “Trust”, de “Cryptic Writings”. Quantas ficaram por tocar? Infelizmente, muitas. Já quase no fim, Mustaine diz que é muito bom estar de volta a Portugal, agradecendo aos fãs por se manterem fiéis aos Megadeth e faz uma vénia ao público. Novamente, já sabemos que Mustaine é de poucas palavras, mas o seu corpo e olhar diziam que estava muito satisfeito por estar de volta. Se isto não for verdade, para além de um grande músico, então Mustaine também será um grande ator. Que regressem em breve e toquem o dobro, por favor.

Chegamos à segunda parte da noite, já com a plateia mais composta. Que comece o fogo de artifício! Literalmente, sim.

Ouve-se um entusiasmado “Lisbon!” vindo do palco, seguindo-se os primeiros acordes de “Deuce”. Alguns fãs gritaram “não estás em Lisboa!”, mas seria razão para tanto alarido? Paço de Arcos, Lisboa, Estremadura, o que seja. Querem mesmo afugentar os moços que estiveram 35 anos ausentes?

Paul Stanley, Gene Simmons e Tommy Thayer procedem a tocar com as guitarras e baixo bem coordenados – ora se viravam para a esquerda, ora para a direita. E se todo aquele aparato visual não é uma novidade, até para o comum mortal que não ouve rock, a verdade é que o nosso país nunca tinha tido a oportunidade de presenciá-lo desta maneira. Maquilhagem, fatos brilhantes, sapatos plataforma, um rabo de pêlo (usado por Stanley), picos…bem, que o espetáculo comece!

“I want you to sing!”, diz Stanley em “Shout It Out Loud”. “Boa noite…are you ready to rock n roll?”, questiona o público. Claro que estamos, há quem se esteja a preparar há décadas! “War Machine” traz-nos as primeiras labaredas da noite e “Firehouse” traduziu-se numa verdadeira competição entre o público: Stanley diz “I wanna make sure you’re still crazy!” e divide o público em dois, para ver quem gritava mais alto. Neste tema, que teve direito a Simmons a cuspir labaredas, a voz nem sempre esteve no seu melhor. Porém, de forma alguma afetou a performance da banda. O que falhava na voz de Stanley, o próprio compensava triplamente em simpatia e motivação. “Shock Me” deixa Stanley a tocar de joelhos e segue-se um solo de Thayer, que culmina com fogo de artifício a sair das guitarras.

“Ok Lisbon, por favor, I want you to sing with us. Say yeah! We’re so happy to be here, you are awesome, you are the crew #1”. Somos o quê? Agora é que colocou a pressão bem alta. O público cantou bem alto em “Say Yeah” e “I Love It Loud”. E se até agora tinha sido Stanley a comunicar mais com o público, Simmons não quis ficar atrás e começou a mostrar que a sua língua ainda mexe. E que ainda se baba. Muito. Em “Calling Dr. Love”, Stanley faz um coração com as suas mãos e “Lick It Up” apresentou-se com luzes sincronizadas na perfeição com a bateria.

Momento mais teatral da noite (e um pouco gore também): Simmons aparece com uma luz bem verde por cima de si, como que a transformar-se no poderoso Hulk; cospe “sangue” até mais não e fica suspenso no ar, vindo aterrar numa plataforma bem acima do palco; culmina limpando-se e cuspindo para uma toalha, que procedeu a mandar para o público. “Que nojo” e “que fixe” – é tão bom quando podemos dizer ambos na mesma frase.  Seguiu-se “God of Thunder” e a emblemática “I Was Made for Lovin’ You”, que colocou o público em êxtase. Quantas vezes não ouvimos este tema numa qualquer noite dedicada aos anos 80? (apesar de ter sido lançado ainda em 79). Agora estava ali, ao vivo e a cores. As melhores cores: preto e branco!

Em “Love Gun”, Stanley diz que temos de fazer por merecer o estatuto de “crew #1” e lança uma carta poderosa: começa a falar do público que visitou recentemente em Barcelona, Madrid…Pronto, já não precisava de dizer mais nada. Se é para gritar, gritemos. Stanley sai do palco a deslizar até ao meio do estádio, no qual se encontrava uma espécie de “mini-palco nas alturas”. Depois de um solo, regressa ao palco original, no qual se toca “Black Diamond”, cantado essencialmente pelo baterista Eric Singer. Na realidade, não havia ali ninguém que não desse um toque nos vocais, aqui e ali.

E assim, como quem não quer a coisa, chegamos ao encore. “Cold Gin” coloca Simmons a oferecer a sua língua a Thayer. Nas últimas da noite, “Detroit Rock City” e “Rock and Roll All Nite”, queimaram-se os últimos cartuchos. O público canta como se nunca mais tivesse a oportunidade de fazê-lo para os seus “mascarados” preferidos (e, infelizmente, talvez não tenha mesmo). Simmons e Thayer terminam elevados no ar, Stanley beija a guitarra. Foi este o final de um dos concertos mais emocionantes e divertidos do ano. Quem disse que o glam está fora de moda? Not on their shift.