A concha desfiou pérolas acústicas que encheram duas noites de encanto

Pelo terceiro ano consecutivo, os blues aconchegam-se na concha acustica do palácio de cristal e ecoaram pelos jardins, fazendo cintilar a vista sobre o rio.
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Os blues estão na génese de quase todo o espectro de musica moderna e contemporânea. Nasceram no seculo XIX, nas plantações do sul dos estados unidos, a partir dos cânticos de trabalho escravo e odes religiosas, e evoluíram em linha reta para o rock & roll, jazz, rhythm and blues e funk. Identificam-se pela estrutura de chamada e resposta, pelas progressões de acordes de doze compassos, pela nota com timbre ligeiramente mais baixo do que o da escala maior, pela a linha de baixo repetitiva, e pelo padrão AAB. Originariamente, os temas eram de narrativa livre, relacionados com o sofrimento da população afroamericana. Atualmente os estereótipos foram-se diluindo e o género está presente em todo os continentes e formas de arte sonora.

© António Cochofel

A instabilidade do clima dirimiu a fronteira entre apreciadores e curiosos, operando uma seleção natural da audiência. No sábado 18/05/2019, a final do campeonato nacional de futebol manteve ao largo quem persiste em confundir um espetáculo musical com uma mostra cervejeira. Numa noite imprevisivelmente amena, com a multidão a quilómetro e meio de distancia, o recinto do Porto Blues Fest 2019 era um oásis entre as tílias. Do lado esquerdo do recinto, algumas roulottes de comida e bebidas selecionadas desenhavam uma simpática praça de alimentação. O público espalhava-se pelo relvado, os mais dianteiros sentados, os mais retardatários em pé. Imperava a meia idade e uma atmosfera de tranquilidade.

© António Cochofel

Gwyn Ashton veio da Austrália, e a sua técnica emparelhou-o com os melhores guitarristas mundiais, ao ponto da Fender lhe personalizar uma stratocaster. Não a trouxe ao Porto, porque um imprevisto rodoviário reteve-lhe os instrumentos na Polónia, obrigando-o a tocar com material alheio. Mas dedos e ouvidos fazem mais diferença do que madeira, afinações e cordas, e o one-man show apresentou-se em todo o seu esplendor. Conversador e comunicativo, foi alimentando a interação com o púbico enquanto baralhava blues com indie rock, alternando entre guitarras, sem esquecer a laboriosa lap side steel. Conduziu o público ao longo de uma jornada em que arrancou as etiquetas a todos os estilos, reinventando um blues-rock progressivo, salpicado por condimentos de garage, psicadelismo, acústico, dança, chill-out e rock ‘n’ rol clássico.

© António Cochofel

Soava a meia noite quando a Minnemann Blues Band iniciou as celebrações dos seus 40 anos. Wolfram Minnemann é natural de Hamburgo, de onde trouxe na segunda metade dos anos 70 o dixieland e o jazzrock progressivo underground alemão, misturou-o com o que então de melhor se fazia em Portugal, e constituiu a reputada Minnemann Blues Band. Ao longo do tempo tocou com os mais reputados músicos nacionais, de Rui Veloso a António Mão de Ferro, sem esquecer Leandro Leonet e Manuzé Carvalho. Minnemann imprime ao piano os ritmos do boogie e honky tonk, que combina com a sua voz expressiva, e remata com uma atitude de palco bem humorada e cativante. A primeira banda de blues nascida no Porto está a gravar o álbum Minnemann Blues Band 40 years, e partilhou-o com uma audiência entusiasta. Minnemann apostou numa via de dois sentidos: levar o espírito do blues até todos e cada um, e trazer ao blues os que nele se integram. Para isso, foi chamando ao palco diferentes músicos que se encontravam no relvado, conferindo ao espetáculo uma plasticidade irresistível, recriando o improviso e partilha que estão na génese histórica do género.

Esperemos que para o próximo ano haja mais, e que se mantenha a aposta na diversidade e qualidade que conferem ao Porto Blues Fest um cunho especial.

Porto Blues Fest – galeria completa

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