A Imagem do Som entrevista IAN

A Imagem do Som entrevista IAN

"A partir do momento em que os dedos seguem a mente, e deixam de interpretar apenas o que está escrito, nasce uma liberdade fascinante. Aí começa realmente o conhecimento do teu EU como músico."

IAN é a expressão mais irreverente de Ianina Khmelik, primeira violinista da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música.

Nascida em Moscovo, Ianina iniciou os estudos musicais aos cinco anos de idade na Escola de Música nº 49 daquela cidade, e mais tarde ingressou na Escola Profissional de Música Gnessin na classe de L. Shevrekuko. Em 1995 ganhou o 2º Prémio no Concurso para Jovens Músicos de Moscovo. No ano seguinte foi estudar para a Holdstadt Schulle em Schlewig-Holstein na Alemanha. Desde 1999 reside em Portugal. Em 2002 terminou o curso da Escola Profissional de Música de Espinho, e em 2006 terminou a Licenciatura em Violino na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do IPP na classe de Zofia Wóycicka. Posteriormente, integrou a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, onde é primeira violinista.

Em agosto de 2020, Ianina editou Raivera, o disco de estreia do seu projeto a solo enquanto IAN, com produção de Nuno Gonçalves (The Gift). O nome do álbum é um neologismo composto pelos dois termos russos “rai” (paraiso) e “vera” (fé). O título esperançoso transparece nas nove canções do disco, que é apresentado como um exercício de liberdade, quer pela forma magnífica como funde a electrónica com melodias cativantes, quer pela atitude em palco.

Ianina compôs ainda o tema genérico da série da SIC, “O Clube”, e foi convidada a participar no Festival da Canção 2021, onde interpretou o tema original “Mundo”.

A Imagem do Som esteve à conversa com Ianina, numa entrevista exclusiva, que aqui se publica na íntegra.

IdS – Como foi a transição de Moscovo para Espinho, e a aculturação no nosso país?

IAN – A transição foi bastante drástica, mas querida. A aculturação foi passo a passo… Saí de uma cidade com 15 milhões de habitantes, onde as caras que vês na rua são maior parte desconhecidas. Viver em Espinho foi completamente o oposto, é uma cultura diferente, os costumes, as maneiras. Hoje, passado anos, olho para trás com alegria, os anos de estudo em Espinho foram muito divertidos, aprendi muito, ensinaram-me muito, hoje, olho para trás e sei que graças a esses anos hoje sinto-me em casa aqui em Portugal.

IdS – Dirias que a música clássica entrou na tua vida como uma imposição ou como uma escolha? 

IAN – Foi uma escolha involuntária no início. Comecei a “tocar” piano desde muito, muito cedo. Desde os 3 anos de idade passava horas ao piano a “compor” e a obrigar as minhas avós a fingirem que são o público. E elas diziam- “és o nosso Mozart!“ E continuavam lá sentadas a ouvir um conjunto de notas bastante inaudíveis! Eu gostava muito de brincar ao piano, por isso aos 5 anos de idade o meu avô levou-me a uma escola de música. Foi uma escolha que me ajudaram a fazer e ainda bem. Sou uma pessoa feliz a viver com a música. 

IdS – Que experiências fizeste fora da música clássica, anteriores a “RAIVERA”? 

IAN – Foram muitas, cheguei a experimentar muitos estilos musicais diferentes. Tudo com violino. Cheguei a fazer um curso de violino barroco, cheguei aprender a improvisação, partilhei palcos com bandas e artistas muito diversificados, desde fado ao heavy-metal. O interessante é conseguir ser versátil, conseguir mudar a maneira de tocar conforme o estilo, mas sem perder a identidade.

IdS – Qual é o contributo que trazes da tua formação clássica para o registo pop de RAIVERA? 

IAN – Saber completar o que vai no coração com a sabedoria que vem da cabeça.

IdS – E qual é o contributo que a pop dá ao teu o violino na Casa da Música?

IAN – Autenticidade e a libertação de alguns parâmetros um pouco castradores que existem no entender “ o que é ser músico”. 

IdS – Algumas músicas de RAIVERA foram criadas há muito tempo: o que te levou a repescá-las e dar-lhes uma nova projeção?

IAN – Essas músicas na altura ainda não eram acabadas, esperaram o seu tempo para serem aperfeiçoadas. Finalmente passaram de um simples esboço para um quadro completo.

IdS – Que música ouves no dia a dia?

IAN – Muita, conforme o meu estado de espírito. Oiço Modeselektor, Catnapp, Heiner Goebbels -“Surrogate cities”, Tricky, Prokofiev, Dj Vitalic, Sevdaliza, Zemfira (uma cantora russa), Arca, Ryuichi Sakamoto, Kendrick Lamar, Depeche Mode, às vezes recuo mais no tempo e volto aos clássicos como Dj Shadow, Laurie Anderson, Kraftwerk…há tanta música e há muita música boa.

IdS – Compões com violino, ou com outro (s) instrumento (s)?

IAN – Há bem pouco tempo começava a compor sempre com violino, mas agora também componho com piano, ou com as programações. Creio que é uma certa evolução, o descobrir.

IdS – Como compatibilizas o rigor da pauta com a liberdade da improvisação?

IAN – Uma boa pergunta essa. Para os músicos que sempre estiveram “agarrados” à pauta é muito difícil conseguir transportar o que imaginas para os dedos, é uma barreira bastante difícil de superar. Eu lembro-me que esse processo foi complicado, no início, mas a partir do momento em que os dedos seguem a mente, e deixam de interpretar apenas o que está escrito, nasce uma liberdade fascinante. Aí começa realmente o conhecimento do teu EU como músico.

IdS – Disciplina e irreverência: em que medida cada uma destas características é importante a criação e na execução?

IAN – Disciplina é sempre importante. Eu acredito que em tudo tem de haver disciplina, especialmente na execução. Na criação creio que a irreverência já prevalece mais, no início, mas depois há que ceder à disciplina.

IdS – Qual é a linguagem em que te exprimes com mais autenticidade: a da orquestra ou a de uma banda ?

IAN– Creio que as duas linguagens caminham lado a lado.

IdS – Como vês o sector da música, e o mercado da música, em Portugal?

IAN – Falando de hoje, ano de pandemia, o sector da música em Portugal está muito enfraquecido, como no resto da Europa. Tento ter fé…

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