A música de Kurt Vile espreguiçou-se pelo Hard Club do Porto

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© Teresa Mesquita

O lazy rock de Kurt Vile obscureceu a vida, fechou os olhos à lua e embalou a noite com a cadência de um roçagar.

A 26 de outubro de 2018, a música de Kurt Vile espraiou-se pela sala 1 do Hard Club do Porto. O compositor, guitarrista e interprete de 38 anos, originário da Pensilvânia, destacou-se como um dos fundadores do coletivo “The War on Drugs”, mas descartou a sua continuidade no projeto para trabalhar individualmente. Tem semeado em terra fértil: numa década colheu oito álbuns, o penúltimo dos quais em colaboração com a australiana Courtney Barnett, quase ultrapassado pelo recém estreado “Bottle it In”. Portugal foi incluído na rota europeia da sua divulgação. À hora marcada foram servidos os aperitivos: Meg Baird & Marry Lattimore, num enlace de guitarra e harpa baixaram os níveis de adrenalina e desaceleraram a frequência cardíaca.

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Cumprida a função, o recinto encontrava-se repleto e recetivo para receber Kurt & The Violators: Jesse Trbovich e Rob Laasko em alternâncias de guitarra, baixo e teclados, e Kyle Spence sentado na percussão. Sobre a lateral esquerda do palco, oito guitarras esperavam a sua vez, e encaixadas no tripé do microfone, outras tantas palhetas faziam o mesmo.

Kurt apresenta-se com os longos cabelos em desmazelo a deixarem entrever uma sweat-shirt cinza alusiva ao Alaska, e converse bordeaux de inverno a rematarem os jeans escurecidos. O restante espectro cromático fica confiado à dinâmica das luzes de palco. Aposta em força no último álbum, ocasionalmente entrecortado com temas dos antecedentes ”B’lieve I’m Going Down…” (2015), “Walkin’ on a Pretty Daze” (2013) e “Smoke Ring From My Halo” (2011).

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Abre com “Loading Zones”, a voz nasalada e o acentuado sotaque aberto, assumidamente Dylanescos, a coreografar sketches quotidianos intuitivos, assentes sobre acordes simples de guitarra elétrica. Troca para acústica, descarta o baixo, e desliza pelos devaneios erráticos de “Bassbackwards”: dez minutos circulares, de métrica simétrica que encarnam a essência do seu lazy rock. Nova troca de instrumento, e “Hysteria” desenrola-se com a solenidade de um salmo, acentuada pelos teclados, em torno do manta “Don’t you know I never knew you? But I, but I think I love you girl. And what’s your name, boy?”. Mais uma mudança de guitarra, e a sala é acometida pela indolência de “Goldtone”, hibernando para dentro de um casulo de paz, de onde apenas é expulsa pelo frenesim instrumental final. “Cold Was The Wind” é uma lenda saída da bruma, a banda sonora de um film noir de grandes planos e imagens estáticas, milimetricamente salpicados por um ou outro acorde preguiçoso.

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Segue-se uma luta com o suporte da harmónica, e Kurt fica sozinho no palco, em formato acústico, para um instrumental em que se detém a acarinhar os sons, e se entretém a modelá-lo com pedais de efeitos. Não é um atleta da guitarra – é um enólogo do tom, que inala cada nota antes de passar à seguinte. Apresenta “Walkin’ On a Pretty Day” como uma canção sobre os despertares, e o trio regressa em seu auxilio. Sente-se a falta da estética peculiar de Steve Gunn, mas Kurt desvia-se com habilidade e um remate de cordas intenso, que o público aplaude com entusiasmo. “Girl Called Alex” é um dos raros momentos em que eleva a voz, catapultando “all the time” do plano da reminiscência para o aqui e agora. “Check Baby” e “CV Crimes” retomam o lustro assertoado, e “Skinni Mini” é um exercício de spoken word hipnótico, que cria um limbo de entorpecimento, do qual se emerge, a custo, pelo poder acústico da ultima sequência. Fecha com “Wild Imagination”, um loop introspetivo em torno de si mesmo. Regressa com a promessa de que vai mudar-se para o Porto, e o ritmo bem disposto de “Pretty Pimpin”. Os restantes músicos desertam, e Kurt despede-se com uma doce interpretação acústica de “Peeping Tomboy”.

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Kurt Vile é sinónimo de submersão na modorra, e o público merecia lugares sentados onde pudesse largar todo o peso, e mergulhar sem pé naquela solidão sonora. Foi um espetáculo para aliviar a tensão, e vaguear por entre os compassos certeiros de um músico incontornável.

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