A paixão de Clementine contrastou com o desastre de Casablancas: o derradeiro dia de SBSR – Dia 3

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Sempre que Benjamin Clementine atua em Portugal, há segurança nos seus olhos… e nas suas teclas do piano. Sevdaliza foi o nome que mais surpreendeu no palco secundário.

O terceiro (e derradeiro) dia de Super Bock Super Rock era o mais eclético, ou seja, sem nenhum género musical definido como nos restantes dias (quinta mais rock e sexta dedicado ao rap). Neste sábado poderíamos nos rever nas guitarradas de Julian Casablancas e os The Voidz, no teclado perfeccionista de Benjamin Clementine, no rap ritmado de Stormzy ou nos novos sucessos musicais de Sevdaliza e Baxter Dury. Apesar de mais eclético como já referimos, isto trouxe consequentemente menos pessoas ao festival. Segundo a organização estiveram no recinto do Parque das Nações cerca de 17 mil pessoas, um número muito mais baixo em relação ao dia anterior.

Benjamin Clementine era provavelmente o nome mais esperado, e viu-se na assistência ao seu concerto. O britânico fazia ali a sua quarta aparição em Portugal este ano, depois de concertos em Viana do Castelo, Figueira da Foz e Lisboa no início de 2018. E Clementine, caso sério de sucesso em Portugal, notou-se confiante e seguro desde o início do seu concerto. Descalço como lhe é hábito e casaco vestido sobre o tronco nu, o artista britânico começou por se mostrar visivelmente sorridente e tocou “Ave Dreamer”, a última música do seu mais recente álbum, que foi excelentemente interpretada juntamente com o seu baterista, baixista e toda uma secção de cordas super importantes para dar harmonia e eletrónica ao concerto. Ali já se notava que não iria ser um simples concerto de festival e que mais surpresas estariam preparadas.

© Melissa Vieira

Pouco tempo depois, Benjamin Clementine chamava ao microfone a artista “com a voz mais graciosa”. A belíssima fadista Ana Moura, que já tinha sido anunciada previamente pelo cantor britânico. Ali cantaram em coro o tema “I Won’t Complain”, um dos maiores sucessos do primeiro EP. Claro que também o público ajudou a criar a tal harmonia e cumplicidade que se pedia num momento como aquele. No fim uma enchente de aplausos fizeram-se ouvir, num Altice Arena a meio gás. Benjamin ainda chamou a palco Seu Jorge mas disse em jeito de brincadeira que essa possibilidade “só em sonhos”.

© Melissa Vieira

Continuou então o seu alinhamento, sem timidez e até surgiu a cantar acapella o tema “Jupiter”, pedindo ao público para fazer silêncio e deixar-se levar pela sua nobre melodia. Fez sentido pois a partir daqui todos os festivaleiros entraram no mood para entoar todas as músicas, como foi o caso de “Condolence”, música que Clementine dedicou a uma jovem que perdeu a vida recentemente com um cancro. Para a despedida restou “Adios”. Uma melodia forte com os versos “the decision is mine, the lesson be mine” a serem entoados dezenas de vezes. Tantas que houve tempo para algumas pessoas da primeira fila cantarem em dueto com o músico britânico. Dando tudo naquele momento final, Benjamin terminou o seu concerto de joelhos no chão e braços no ar. Estava ali consumada a atuação da noite, sem deixar de agradecer ao país a forma como o acolhe sempre: podia-se ver no grande plasma atrás uma bandeira portuguesa com a frase “Vou-me lembrar de Portugal para sempre”. E nós de ti, Sir Benjamin!

© Melissa Vieira

Benjamin Clementine – galeria completa AQUI

O outro grande concerto da noite estava em nome de Julian Casablancas, ex-vocalista dos The Stokes que aqui jogava com a sua nova banda, os rockeiros The Voidz. Falamos em “grande concerto” mas em termos de expetativa, porque a atuação roçou o desastre. O último álbum editado “Virtue” é considerado pela crítica um sucesso mas o mesmo não se pode dizer desta atuação cansativa e inaudível. A banda até começou da melhor forma com o êxito “QYURRYUS”, deixando as primeiras filas a antever um concerto forte. Enganaram-se. A partir daqui foi sempre a descer, com um som desastroso (como deixam aquilo acontecer?) e alguns instrumentos a superarem-se a outros, não existindo qualquer ligação entre todos aqueles membros. Os discursos de Casablancas entre músicas só o deixaram a cavar a sua própria sepultura. “Eu engulo no primeiro encontro”, “Bem-vindos à Arca de Noé” foram algumas declarações no mínimo random que o ex-Strokes trouxe à Altice Arena. Enquanto isto acontecia, a plateia ia-se esvaziando, restando apenas os verdadeiros fãs e que estavam, possivelmente, ali de propósito para os verem.

© Melissa Vieira

Julian Casablancas & The Voidz – galeria completa AQUI

No resto do dia, acompanhamos algumas bandas no palco secundário. Isaura foi a artista que deu as hostes ao sábado musical, interpretando músicas do seu disco de estreia “Human”, com desenvolturas pop-electrónicas, bastante apreciadas pelas poucas pessoas ainda presentes no festival às 18 horas. Isaura ainda tinha como convidado especial Diogo Piçarra, cantando em dueto um par de canções.

© Melissa Vieira

Isaura – galeria completa AQUI

A seguir, estava o “beijoqueiro” Baxter Dury. Trouxe com ele uma banda bem interligada com um ritmo mais pausado e com músicas indefinidas com o objetivo de aquecer corações. Não faltou uma dança robótica nem uma boa garrafa de vinho branco! O bizarrismo de Dury conquistou o pouco público presente.

Por último, acompanhamos no mesmo palco Sevdaliza. A artista multifacetada nascida no Irão e de raízes holandesas, aproveitou para se apoderar de cada espaço do palco secundário. Ali era tudo dela. Ficou espelhado o seu gosto por Portugal com um fluente “Boa noite, Lisboa!”. Meses depois de ter atuado no Vodafone Mexefest, a cantora tinha ali uma hipótese de se mostrar a um público mais “mainstream“. Não falhou e com a sua voz potente, danças sensuais que deixam qualquer um pregado e uma entrega no palco capaz de fazer mexer os mais tímidos, Sevdaliza fez-se diva. Cantou mais temas do seu último disco e curiosamente fez delirar os portugueses cantando o tema “Human” na nossa língua: “Eu sou humana, nada mais que humana”, convidando todos ali a saborear do mesmo prato. Verdade seja dita, esta é talvez a diva mais humilde de sempre.

© Melissa Vieira

Sevdaliza – galeria completa AQUI

La Fura dels Baus – galeria completa AQUI

© Melissa Vieira

Foi assim a edição de 2018 do Super Bock Super Rock, um festival que quis agradar a todos mas não conseguiu mais do que agarrar-nos em alguns concertos. Curiosamente, o que costuma acontecer em palcos como o Altice Arena. Para o ano o SBSR tem uma boa oportunidade para voltar à zona premium dos festivais de verão, como já nos habituou em anos anteriores. Em 2019, o festival acontece a 18, 19 e 20 de julho.