Aline Frazão: a intérprete do silêncio da chuva

"Dentro da Chuva”, 4º álbum de originais editado em setembro, trouxe Aline de volta ao São Luiz, em Lisboa, quatro anos depois de pisar o palco do teatro municipal.

O temporal que se fazia sentir em Lisboa ao longo do dia comprou bilhete e silenciou-se para escutar Aline Frazão. Guitarra e voz foram os protagonistas da noite, que começou com a angolana ainda nervosa e com a voz a aquecer a pouco e pouco nos primeiros compassos. Peit Ta Segura, tema que marca a sua estreia no crioulo de Cabo Verde, deu início ao serão em tom intimista e doce. O compositor que fez questão de estar presente mereceu grandes aplausos. Depois do francês em Ces Petits Riens chega ao português em Chamado por Morfeu e Um corpo sobre o mapa. As raízes angolanas presentes na sala, que se fizeram ouvir ao pedido de Aline, reforçam-se com Sol de Novembro e com a versão de Fausto de Namoro. Confessa tratar-se de “um dos poemas angolanos mais lindos”, com autoria de Viriato da Cruz. A interpretação de Aline eleva-o acima das nuvens. Pondo a guitarra em pausa, une-se a uma kalimba para um Poema em Sol Poente.

Novo capítulo no concerto com Aline a figurar junto de projeções que fazem lembrar a capa do novo disco, com janelas simétricas e uma cadeira à esquerda do público. A guitarra mais elétrica acompanha a voz mais rasgada em Zénite e na agressiva e interventiva Prosa da Situação. Com Kalemba joga em pedais que permitem gravar e repetir em loop a sua voz, um momento com a delicadeza e inocência de uma criança que brinca no recreio. Em conversa com o público questiona em tom romântico “de onde vem esse amor… esse amor a um lugar”. Continua a deliciar a plateia com o tema que dá título ao álbum de 2015, Insular, e que traz ao fundo de sombras uma porta azul, mais uma vez a relembrar a cor do visual de um álbum.

© Beatriz Mouro

Mudando novamente o rumo do concerto, dirige-se para mais perto da plateia ao mesmo tempo que se ouve um poema numa voz masculina (muito provavelmente o músico Carlão) que dá a conhecer o som e o silêncio de Adriano Kapiapia, personagem do livro “Como Se o mundo não Tivesse Leste”. Os últimos dois parágrafos desta obra do angolano Ruy Duarte de Carvalho, explica Aline, inspiraram-na de tal forma que musicou algumas das palavras e chegou a Kapiapia. No tema ouve-se que “é o silêncio que governa tudo. Está dentro da chuva.”. Iniciada a reta final do concerto, pisa o Areal de Cabo Ledo, o tema perfeito para um despertar solarengo no paraíso. Antes de interpretar talvez o tema mais reconhecido do seu percurso, lança uma jura: “prometo dar um beijo a quem souber a letra inteira da Tanto. As vozes foram várias durante o refrão. Depois da animada Manazinha que pôs, mais uma vez, o público no lugar de coro, Aline Frazão desabafa que a vida é injusta porque só agora não está nervosa. Antes de Sumauma agradece aos presentes, aos parceiros que a ajudaram no novo disco e à irmã, presente na primeira fila. Para o encore e depois dos fortes aplausos da sala, aceita sugestões de temas para encerrar o espetáculo, optando por O que ela quer, A Última Bossa e o clássico O que eu quero.

© Beatriz Mouro

Num espetáculo que caracteriza como “um exemplo de vulnerabilidade mas de lugares precisos”, Aline Frazão despe-se de ruídos e distrações para limpar a alma de quem a escuta. Viajando por todos os álbuns da sua carreira e por países como Angola, Brasil, França e Portugal, o íntimo da cantora corre como rio cristalino certo da sua direção. O menos é mais e o minimalismo que espelha no concerto e no álbum “Dentro da Chuva” prova isso mesmo. Aline é mais. O amor, sempre presente a cada respiração, aconchega quem ouve e encanta quem observa uma das maiores intérpretes angolanas e de língua portuguesa da atualidade.

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