“An Evening with Pat Metheny” no Coliseu do Porto

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O Coliseu do Porto inaugurou o segundo semestre 2018 com “An Evening with Pat Metheny”, o compositor guitarrista e lenda do jazz que acumula 20 Grammys em 10 categorias diferentes.

O músico de 63 anos, originário do Missouri, fez-se acompanhar pela contrabaixista Linda May Han, pelo pianista Gwilym Simcock e pelo baterista António Sanchez, com os quais se encontra em digressão mundial desde 2016. Numa casa cheia vedada a fotógrafos espraiavam-se, em meia lua, um piano de cauda de sorriso voltado para a frente, ladeado por um teclado, um contrabaixo, e um impressionante set de bateria acústica.

Pat Metheny entrou sozinho, a descontração de uns jeans, sapatilhas e t-shirt listada a contrastar com a apocalíptica cabeleira branca. Sentou-se com a Pikasso Guitar no colo, e a respiração susteve-se em todo o recinto. O estranho instrumento de 4 braços, 2 caixas, 42 cordas, e 6,7 kg de peso foi criado expressamente para ele em 1984. Todos os tentáculos e ventosas se renderam a “Into The Dream”, revelando que a acústica do Coliseu foi concebida para momentos assim. A atmosfera era de tal forma sacramental que quase inibiu os aplausos.

Pat levantou-se para receber os restantes artistas, trocou de guitarra e colocou-se no centro do semi-circulo instrumental. A partir daí foi desfilando “old tunes in a new way”, num diálogo de sons e perícias com a bateria, o contrabaixo e o piano. Pat Metheny mostrou a um público ávido a essência que lhe confere identidade: a guitarra que soa a piano, a saxofone, a harpa, em que cada nota ecoa até ao final e o silencio faz parte da musica, porque quem toca também ouve, toca como ouve, e toca como quer que cada um ouça. Música que não é executada, nem sequer interpretada – é recriada e recortada em cada pulsar, incorporando a vibração dos dedos, das mãos, do corpo, da alma e do universo.

Com a generosidade dos grandes, em cada tema abriu um espaço próprio para os restantes instrumentistas cintilarem. Metheny tocou uma dúzia de ritmos agitados e de baladas melancólicas, visitando as escalas vibrantes e dedilhados complexos reconhecíveis em qualquer melodia sua. Depois pausou para desfrutar de um impressionante solo de piano do britânico Gwinlym Simcock.

Retomou com “Travels”, deixou a plateia respirar, e ofereceu-lhe três obras primas. Na primeira, saíram Gwilym Simcock e António Sanchez, e “Change of Heart foi tocada em dueto com Linda May Han Oh. Um namoro de cordas de conotação folk, ambos a passearem lado a lado, sem nunca se pisarem, sem nunca tropeçarem, a trocarem carinhos, declarações arrebatadas, atrevimentos e rubores. Na segunda, Oh deu o lugar a Gwinlym Simcock para “Phase Dance”. A guitarra vestiu teclas e dançou abraçada ao piano, impossível distinguir um do outro, emparelhados numa alegria rodopiante. Na terceira e última, Simcock foi substituído por António Sanchez, para dar as honras de encerramento a “Question & Answer”. A conversa começou em ritmo jazz acalorado, que foi subindo até se tornar frenético, uma altercação gritada, batida, sentida, sofrida, esticada até ao experimentalismo alucinado do riscar dos pratos e beliscar das cordas.

Não havia fôlego para mais, nem de quem dá nem de quem recebe, e os músicos retiraram-se diante de um público atordoado pelo impacto da genialidade. Regressam para três encores: Pat Metheny, sozinho, num medley de guitarra acústica, e “Song for Bilbao” e “Going Out With Me?” tocados pelo coletivo.

Um serão que nunca mais deixará de ecoar em quem teve o privilégio de estar presente.

Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.