Arcade Fire partilharam a felicidade que Coura ansiava – Vodafone Paredes de Coura – Dia 4

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Não podia existir melhor nome para fechar a edição de 2018. Os Arcade Fire vieram com o propósito de nos empolgar, emocionar e sonhar. E conseguiram-no. Destaque também para a elasticidade artística dos portugueses Dead Combo e o samba leve do “irmão” Silva.

Texto: Rui de Sousa | Fotografia: Joana Pereira

27 mil. Foi este o número de pessoas que esteve ontem, dia 18 de agosto, no Festival Paredes de Coura. O bilhete diário há muito que estava esgotado, porque todos (mas mesmo todos) queriam ver ou rever Arcade Fire. Sim, a banda canadiana esteve ali mesmo ao lado, no Taboão há 13 anos.

Em 2005, e acabado de lançar o álbum “Funeral”, os Arcade Fire constavam num cartaz recheado de grandes nomes, onde estavam nomes como era o caso dos Foi Fighters, Pixies, Nick Cave (talvez o primeiro ano com uma aposta concreta com aquilo que hoje o público já conhece de antemão). Quem esteve lá, fala de um grande concerto. Quem não esteve, foi guardando essa lenda para si. Até ontem. Em 15 anos, os Arcade Fire editaram mais três álbuns e fizeram sucesso por todo o mundo, constando nesta edição do festival como o nome mais a bold do cartaz.

Com a casa completamente lotada, Paredes de Coura abraçou-se (bem apertadinho, dada a falta de lugares) e presenciou àquele que foi um dos grandes concertos deste festival. O calibre das bandas também está nos pequenos detalhes e aí os Arcade Fire inovaram, com uma super bola de espelhos por cima do palco, outra no meio da plateia onde acabou Régine a dançar em cima dela e uma panóplia de instrumentos balanceados pelos outros músicos americanos, aqueles que nos fizeram dançar, mexer e sorrir a cada música. Win Butler foi mais uma vez o mestre de cerimónias. Iniciaram o concerto com o hit “Everything Now” do último álbum, lançado o ano passado. A sonoridade agarrou de imediato os fãs o que antevia, desde logo, um concerto de nível elevado. De realçar um ecrã gigante por cima do palco onde se podia ler em português o título da música na língua de Camões: “Tudo Agora”. Butler atirou no momento a seguir que era um “prazer” estar ali e relembrou que foi no nosso país, naquele verão de 2005, que os Arcade Fire começaram as suas tours na Europa e nunca mais esqueceram Coura. Seguiu-se “Neighborhood #3”, “Rebellion” e “No Cars Go”. Nesta última, as onomatopeias entoaram-se pelo recinto e os “ohhhhhh ohhhhhh” voltaram para outros sucessos da banda. Dos sons do último álbum, “Put your money on me” foi a música que criou mais consenso. O público estava feliz mas queria o êxtase dos grandes temas. E esses não tardaram a aparecer: “Funeral”, “Suburbs” e a mítica “Reflektor”. A banda ia trocando de papéis (neste caso instrumentos) como quem conhece bem os cantos à casa e está e sente-se em família. Houve tempo para uma homenagem à talentosa e recém-falecida Aretha Franklin e um ataque indireto a Donald Trump na música “Intervention”. O melhor estava guardado para o fim: os fãs estavam bem acordados mas entraram noutra dimensão mal ouviram os primeiros acordes de “Wake Up”. No final, e accapella, todos entoaram o famoso “ohhh ohhhhhh ohhhhhh”! Em incursões festivas pelos ritmos funk, rock e dance, os Arcade Fire deram o concerto que todos queriam assistir. Paredes de Coura saiu outra vez sorridente, 13 anos depois.

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Infelizmente não conseguimos acompanhar todos os concertos do princípio ao fim mas recordamos Curtis Harding. O artista do tema “Need your love”, música muitas vezes a passar nas primos do festival, atingiu um certo carinho entre os já muitos que assistiam ao seu talento às 19h30. O concerto foi bem conseguido, com o entusiasmo repentino de alguns fãs.

O sol começava a cair por entre as árvores e o concerto de Silva já estava completamente preenchido, no palco secundário. O brasileiro já tem uma frota de fãs em Portugal e este concerto em Paredes de Coura, um dia depois de atuar no Sol da Caparica, foi a prova disso mesmo. Os seus temas mais conhecidos como “Fica tudo bem” ou o single do álbum editado este ano, “A cor é rosa”, deram ritmos ao som de aplausos com aquela vertente de samba leve tão característica de Silva. O simples também é bonito.

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Assistimos, no palco principal, ao concerto dos Big Thief. A banda estreava-se em Portugal e com uma bancada já repleta e posicionada para guardar lugar para Arcade Fire. A vocalista Adrianne Lenker assumiu que possivelmente “nunca tinha atuado para tanta gente” e entendemos o porquê daquela frase. Os Big Thief aproveitaram a oportunidade e deram música dos seus dois álbuns de estúdio, entrando sempre em sonoridades mais melancólicas que contrastavam com a dança que os fãs de Arcade Fire queriam dali a umas horas. Mesmo assim, o público embalou-se na ternura de Adrianne e os seus dois companheiros de banda (por norma três mas o guitarrista não pôde aparecer por motivos de saúde). Acabou por ser uma passagem boa para os blues dos Dead Combo.

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Antes do duo português, no palco secundário ouvia-se um rock progressivo dos tempos modernos com a banda de Yasmine Hamdan ao barulho. A artista libanesa é das poucas artistas a ter sucesso fora do seu país e foi curioso assistir à evolução e aceitação do seu espectáculo. Hamdan canta todas as músicas na sua língua materna o que poderia ser um teste para receber um feedback positivo da plateia presente no palco Vodafone FM. Felizmente foi uma hora bem passada, a mostrar que Coura é também um festival multicultural e do mundo.

Antes do duo português, no palco secundário ouvia-se um rock progressivo dos tempos modernos com a banda de Yasmine Hamdan ao barulho. A artista libanesa é das poucas artistas a ter sucesso fora do seu país e foi curioso assistir à evolução e aceitação do seu espectáculo. Hamdan canta todas as músicas na sua língua materna o que poderia ser um teste para receber um feedback positivo da plateia presente no palco Vodafone FM. Felizmente foi uma hora bem passada, a mostrar que Coura é também um festival multicultural e do mundo.

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Os Dead Combo tinham uma missão interessante. Eram eles, portugueses (quantas vezes isto já aconteceu em festivais?) a anteceder aos grandiosos e aguardados Arcade Fire. Com “Odeon Hotel”, o disco editado este ano, na bagagem a banda liderada por Tó Trips e Pedro Gonçalves. Antes eram apenas dois, com os blues a fazerem parte do quotidiano. Agora o registo traz outras sonoridades, com saxofones e baterias à mistura, tornando está banda digna de festival grande. Eles que haviam estado em Paredes de Coura, em 2012, quando fizeram também a primeira parte daquele concerto icónico de Ornatos Violeta. Aqui estavam mais fortes, destemidos, com as roupas excêntricas de Tó Trips e os óculos de Pedro Gonçalves, juntando a isso a vibe do rock, garantida pela vertente banda. Os Dead Combo voaram por vários temas do novo álbum, outros mais antigos e “Lisboa Mulata” para acabar com uma grande ovação. Pelo meio, o baterista Alexandre Frazão completava 50 anos naquela meia noite e também ele recebeu os parabéns de mais 27 mil pessoas a aplaudir e Tó Trips a pedir-lhe “mais 50 anos de boa música”. Por ali também passou outro ícone da música que fez questão de ir àquele palco cantar juntamente com as guitarradas e restantes sons dos Dead Combo. Falamos de Mark Lanegan, que aproveitou a oportunidade para cantar três canções: “Fire of love”, “Wedding Dress” e “I know, I Alone”. A música portuguesa merecia esta oportunidade e os Dead Combo cumpriram-no na perfeição.

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O Vodafone Paredes de Coura tem regresso confirmado para o próximo ano, de 14 a 17 de agosto.