Imagem do Som Bill Ryder-Jones

Bill Ryder-Jones num serão de convívio

Bill Ryder-Jones num serão de convívio

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
O britânico tocou, cantou, conversou e brincou, num paradoxo entre a melancolia atormentada e o riso fácil.

Bill Ryder-Jones é um compositor, instrumentista e produtor musical inglês do universo folk rock alternativo britânico com 35 anos e 5 álbuns no curriculum. Neste intervalo de tempo criou uma linguagem musical própria, partindo da folk pastoral de Nick Drake e enxertando-lhe uma instrumentalização mais encorpada. A vocalização sussurrada sobre uma sonoridade densa constitui um veículo de libertação fluido para letras carregadas de tristeza. Veio a Portugal para dois concertos acústicos, o último dos quais a 12 de junho de 2019 na sala 2 do Hard Club.

A sala pequena do antigo mercado Ferreira Borges tem uma configuração que convida à proximidade, com um palco pouco elevado e sem barreira de separação com o público. É um espaço que dilui os limites dos pronomes, unindo artistas e assistência numa interação de igual para igual. A sala está meia cheia de gente tranquila, que sabe ao que vem.

 

© Hélio Carvalho

Sobre o palco há um teclado, dois microfones, três pedais de guitarra, e a caixa aveludada de uma Fender, aberta, e ainda com a etiqueta da companhia aérea. Bill Rider-Jones entra acompanhado por Liam Power, compositor e interprete do grupo “By The Sea”. Vestes casuais escuras que destacam as peúgas laranja, cabelo irreverente e alguma tensão nos maneirismos e olhar. Senta-se ao piano e Liam à guitarra. Aquecem com “Mither”, uma escolha arrojada, porque a interpretação nua acusa a falta da musculatura quase épica da versão original. Conversa com o público destrocando cumplicidade, e parte para “Wild Roses”. É um tema mais exequível neste formato, e a atmosfera vai deslizando para uma zona de conforto.

Levanta-se para substituir o guitarrista e fica sozinho no palco, exprimindo admiração por quem veio ouvi-lo. A belíssima “Don’t Be Scared, I Love You” é um embalo reconfortante, coreografado em subidas e descidas suaves das addidas a meia ponta, ao ritmo do tempo. Engata em “And Then There’s You”, a voz dengosa a recolher as emoções para dentro dos seus casulos, numa busca pelo baixo que não veio. Cria um interlúdio de descompressão para anunciar que aceita sugestões, desde que não sejam demasiado ambiciosas, e repesca a homenagem devastadora à morte prematura do irmão, “Daniel”. Atento aos pedidos, improvisa um bem conseguido medley entre os clássicos “Wild Swans” e “Christina That’s The Saddest Thing”.

 

© Hélio Carvalho

Liam regressa à guitarra, Bill ao piano, e dão forma a “The Lemon Trees #3”, alastrando pela sala um envolvente convite para valsar. Distribui bebidas pela audiência, ao mesmo tempo que esclarece o conceito tríptico de “He Took You in His Arms”: inspirada em duas crianças (ele próprio e Claire Danes), composto para aparentar a encenação de um rapto, mas com a verdadeira temática subjacente de guardar segredos. “Should I keep talking? Nahhhhh” e projeta a musica ao encontro de todos e cada um, num abraço coletivo. Acolhe duas propostas, dedicando “Let’s Get Away From Here” a todos os quantos vivem em Inglaterra, e advertindo que “Two to Birkenhead” pode correr terrivelmente mal. Mas o efeito catalisador de ambos é conseguido pela transferência da angustia do corpo instrumental ausente para a voz bem presente.

Requisita um silencio respeitoso, e entoa a intimista John salpicando toda a mágoa do universo ao seu redor. Mais uma troca de conversa fiada, e avisa que só vai tocar mais duas. Apresenta “Seabirds” com um orgulhoso “this is my best song”. O roçagar das palavras nas cordas cria uma esperança esvoaçante, um auto de fé no amor que preenche o vazio. Senta-se ao piano, e termina com o magnifico “Satellites” a girar em torno da dissociação, dos lapsos de consciência e da forma errática como funciona a mente.

 

© Hélio Carvalho

Um espetáculo intimista de quem confia na suficiência da autenticidade. Interage com uma simplicidade desarmante, num registo de humor contido e britânico, que ajuda a manter a dinâmica. Mas a musicalidade de Bill Rider-Jones alimenta-se de um corpo sonoro que é essencial à sua identidade, do qual se sente a falta. A rever em formato completo.

Bill Rider-Jones Galeria Completa

 

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.