Brit Floyd: Por fãs, para fãs.

No universo da Música, com todos os seus cometas e estrelas ardentes, há um planeta, bem maior que aquilo que muitos pensam, chamado Planeta das Bandas Covers. Muitos, felizmente, penso, pelo aumentar da oferta ao longo dos anos, começaram a aperceber-se do puro prazer e êxtase que este género de bandas pode trazer ao serão de um verdadeiro fã.

Outra parte, cada vez menor, espero, ainda pensa que os habitantes desse planeta se resumem a seres capazes de pegarem em instrumentos, tocar com a necessário precisão certos clássicos mas que não são “músicos a sério”. Perdoai esta pequena facção, Deus da Música, pois eles não sabem o que dizem.

Esqueceram-se que o que importa não é o padre mas a mensagem, que o que importa é a música que se toca e não quem a toca. Obviamente, ver Ozzy ao vivo não é o mesmo que ver o Osório, que tem menos vinte anos, em cima do palco a cantar o Crazy Train. Mas, se o Ozzy não está cá, nada nos impede de ouvir as suas canções. E de vivê-las, como um fã, ouvindo-as serem cantadas por outro fã. Cada concerto de covers é horizontal, sempre: é um concerto de fãs para outros fãs. É feio e ignorância reduzir esse laço de amor e respeito a um simples “concerto de cópias”, como já ouvi chamar. E, quero acrescentar, que muitas banda pretensamente “originais” muito pouca originalidade trazem ao mundo e, talvez, mais não façam que empobrecê-lo (se me posso permitir um à-parte, talvez uma mudança de direcção fosse boa: uma banda de covers, quiçá?)

© Jorge Pereira

Mas deixemos o ruído do lado de fora e falemos do que está dentro e importa: Música. De quem falamos? Dos Pink Floyd. Bom, tecnicamente, não são na realidade. Não o são de todo. Mas sê-lo-iam se não soubéssemos a identidade de quem flutuava no palco. Falamos de Brit Floyd, possivelmente a mais fiel representação da banda que atravessou não só a dimensão do tempo e do espaço mas também da alma. Um Altice Arena cheio com todo o tipo de idades e de pessoas. 20:30, abrem-se as portas para o Infinito. Foi a brilhar que se começou com Shine On Your Crazy Diamond que fez depois ponte com Arnold Lane (que foi o primeiro single que Pink Floyd lançou). Seguiu-se um dos momentos mais metafísicos da noite: High Hopes e esteve lá tudo: a atmosfera sonhadora, os sinos, tão distantes quanto próximos, a voz que parece cantar da outra margem da eternidade, os calafrios. Uma canção que prova o porquê de The Divison Bell ser um álbum tão belo.

© Jorge Pereira

O rosário continuou a girar as suas contas: Another Brick On The Wall, Money e um divertido Pigs. Após um intervalo de vinte minutos (uma hora de paraíso já tinha passado!), reentraram com Breath e Time para nos levar a outro dos grandes picos da noite: The Great Gig In The Sky. Todos conhecem a notória dificuldade vocal da canção – a maravilhosa Angela Cervantes fê-la parecer fácil, e penso que esse é um dos melhores elogios que pudemos fazer a qualquer artista. A canção terminou com uma ovação de pé, com o público tão vibrante com a prestação como as paredes da Arena pelos aplausos.

Tempo de mais clássicos: The Dogs of War, o obrigatório Wish You Were Here, (isqueiros no ar lágrimas nos olhos, já se sabe), um arrepiante Southampton Dock para culminar no grandioso Comfortably Numb. Mas não se vão já embora: o encore trouxe-nos ainda Brain Damage, Eclipse e o imparável Run Like Hell. Mais um tremor de terra em forma de aplausos e juro que ouvi as paredes do Altice Arena rangerem, Parabéns a toda a banda e ao Director de Média, Bryan Kolupski, por terem conseguido ressuscitar toda a magia visual, auditiva e essencial dos originais. Duvido que tenha havido um único fã a sair decepcionado do concerto – que mais se pode pedir?

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