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Cock Robin: Quando a idade (não) perdoa

Texto + Fotografias: Nuno Machado

Os Cock Robin foram até ao Coliseu do Porto esta sexta-feira e a Invicta estava pronta para reviver os êxitos dos anos 80. Estaria o espetáculo ao nível das expectativas?

A sala estava cheia. O público tinha entrado de forma ordeira, atempada e sem qualquer tipo de apertos ou filas, típico de uma faixa etária mais velha e civilizada. À hora programada o espetáculo começa. Com Down to You, o público recebe calorosamente Peter Kingsbury e Coralie Vuillemin.

Com When Your Heart Is Weak, começava a esperar-se um concerto revivalista, cheio de hits e outros temas dos tempos áureos da banda. Para os mais distraídos, o longo percurso que os Cock Robin percorreram na década de 80 teve apenas a duração de 6 anos. Desde que se formaram, em 1985 até 1990, altura em que deram por terminada a relação profissional, muitos foram os temas tocados na rádio e nas discotecas da altura.

Os fotógrafos tinham autorização para fotografar apenas 3 músicas e foi no inicio do fim, quando começaram os primeiros acordes de Janice, que um casal já com idade (desculpem a sinceridade) para ter juízo, resolveu intrometer-se com o nosso trabalho. Posicionaram-se à nossa frente, impedindo-nos de trabalhar, empurrando e insultando tudo e todos. Lamentavelmente, o incidente teve de ter a presença dos seguranças, para que não tivesse um outro fim. Nunca tinha presenciado uma cena tão triste, mas nada que afetasse o resto do público ou até mesmo a prestação do trio que estava em palco.

Desabafos à parte, e já com a imprensa nas galerias a assistir o resto do concerto, Coralie Vuillemin revela as 3 únicas palavras que sabe dizer em português: “Porto, dois, zero”. O público acede à provocação, aplaudindo e assobiando de acordo com as preferência clubísticas. É que, na altura, o F.C. Porto vencia o Arouca por 2-0 (resultado que se veio a dilatar e a fixar-se nos 4-0).

O concerto seguia em tom nostálgico, calmo e pouco condizente com o que se esperava até que, depois de Bells of Freedom, Peter Kingsbury revela que o filho tem uma adoração especial pelo Porto (cidade). Como tal, e por ter ficado de lhe levar uma lembrança, enalteceu o turismo da cidade por não ter sido difícil encontrar o objeto ideal. Foi mesmo ali, pertinho do Coliseu, “Just Around the Corner”… O gelo estava quebrado e o público voltava a participar. São notórias as marcas deixadas pelas músicas mais antigas. Durante todo o espetáculo, foi com estas que … bem, já lá vamos!

É então que passamos a conhecer a filha de Peter Kingsbury. Com Chinese Driver, e à semelhança do que aconteceu durante todo o concerto, era projectado um vídeo em segundo plano. A particularidade do video desta música é que a miúda que dava cara e protagonismo ao tema era, segundo o vocalista, a sua filha!

A esta altura já não se esperava um concerto memorável. Não havia euforia, apenas um misto de temas e sonoridades antigas, que nos fizeram lembrar que o tempo passa … e depressa!

Caught in Your Stream veio salvar a honra do convento. Deu início a um novo concerto dentro do próprio concerto. O ritmo aumentou, o rock saltou dos poucos instrumentos que se apresentavam em palco e a coisa compôs-se. Surge um novo Cock Robin, mais agressivo e mais voltado para as exigências musicais da atualidade. É que, com a facilidade de acesso a novas músicas e outros géneros musicais, aprendemos a refinar os gostos e a ser mais exigentes com o que consumimos. Quando começou Thought You Were On My Side, havia ali alguma coisa de familiar. Sem saber muito bem o quê, foi com o início da letra que foi revelada a identidade sonora de mais uma memória de sucesso. A nova formação não se limitou a viver na sombra de sucessos anteriores. Trabalhou e alterou, conseguindo transpor grande parte de uma sonoridade pop para um registo mais atual, com uma forte componente rítmica. Uma evolução de louvar.

O espetáculo termina com uma promessa Uma promessa de 1985 que Peter Kingsbury fez questão de cumprir, obrigando finalmente o público a levantar-se das cadeiras e saltar, cantar e dançar, tal e qual deveria ter sido durante todo o concerto. Remember the Premisse You Made conseguiu fazer esquecer os momentos menos conseguidos, as músicas pouco (ou nada) conhecidas que aqui foram apresentadas e algum episódio menos feliz vivido entre o público.

Tivesse ficado por aqui e acredito que a sensação de satisfação teria sido outra. O concerto não ficava na memória pelas melhores razões. O valor pago tinha sido elevado para a qualidade do espetáculo, mas pelo menos a última memória, a última música, tinha sido o maior hit de todos os tempos de Cock Robin e, por conseguinte, abafava todo o negativismo. Mas não; para o encore, Peter Kingsbury fica sozinho em palco. Em frente ao órgão toca e canta Ligne de Chance. A morte foi imediata! Já ninguém se lembrou que, momentos antes, tinha vivido um momento daqueles pelos quais tinham pago 27€ por bilhete (preço do bilhete mais barato). E quando se julgava que tudo tinha terminado, que apenas queríamos esquecer aquela noite, procurando justificações para salvar o investimento feito, se ouve da plateia “És mau demais. Bai à tua bida…”. Vergonhoso! Felizmente, e quero acreditar que sim, Peter Kingsbury não percebe português. Por outro lado, parece que nem todos fizeram o trabalho de casa ou o Coliseu não tinha enchido…

Afinal, nem todas as memórias são boas, ou os Cock Robin não viveram de todo uma noite feliz! Algo se passou. O certo é que, o que ali se passou, hoje, não pode ter uma avaliação positiva. Pelo menos, e para o adeptos das cores do maior clube da cidade, o seu clube tinha ganho por 4-0; nem tudo estava perdido.