COLISEU DE LISBOA RENDE-SE À SIMPATIA DOS VAMPIRE WEEKEND

"I think I take myself too serious / It’s not that serious.” (Sympathy, by Vampire Weekend, 2019)
Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

A amálgama nova iorquina de aromas e sabores de 2006 juntou num caldeirão o vocalista e guitarrista Ezra Koening, o multi-instrumentalista Rostam Batmanglij, o baterista Chris Tomson e o baixista Chris Baio, marinou-os ao relento de várias luas, e gerou os Vampire Weekend. Em 2008 estrearam o álbum homónimo, ao qual se seguiu “Contra” em 2010, e o premiado “Moderm Vampires of The City” em 2013. A saída de Rostam criou rumores de instabilidade, dissipados quando Ezra conquistou o mundo em 2019 com “Father of The Bride”. A 12 de julho de 2019 os Vampire Weekend encheram o recinto principal do Nos Alive’19, e a 26 de novembro cumpriram a promessa de regressar, escolhendo o Coliseu de Lisboa para encerrar a digressão anunciada por um galo barcelence em recortes de filigrana.

O recinto transborda de público, e sobre o palco amontoa-se o festim de instrumentos de Koenig, Baio, Tomson e companheiros de estrado – Brian Robert Jones, Greta Morgan, Garrett Ray e Will Canzoneri. Sobre eles suspende-se o mundo que ilustra o último álbum, a rimar com a esfera que as obras de 1994 cravaram no teto do Coliseu. As indumentárias são um festim cromático.

© Laura Lopes

Abrem com a delicodoce “Flower Moon”, voz sobre cordas a servir de aperitivo aos restantes instrumentos. Resgatam os ritmos caribenhos de “Holiday” e usam-nos com trampolim para o ska assumido de “Bambina”. “Unbelievers” é elevado a um nível épico pelo uníssono do público ferveroso: “I know I love you, and you love the sea, but what holy water contains a little drop, little drop for me”. A percussão estabilizadora de “Everlasting Arms” permite uma curta recuperação do fôlego, interrompida por Ezra a apelar à interatividade da pergunta-resposta para viajar no tempo pelos teclados endiabrados de “One (Blake’s Got a New Face)”. Baio troca o baixo pelo ukulele, as guitarras elétricas são substituídas por acústicas, e as congas lutam pela vida no pára-arranca contagiante de “Now we’ve got that Sympathy, what I’m to you, you are to me, let’s go”.

Tomson tricota o tapete rítmico de “Oxorf Comma”, Baio estende-lhe a linha de suporte, e a melodia desliza fluida. Koening dedica “Jonathan Low” aos aficionados da saga Twilight, vampiros a musicarem vampiros encenados. “Unbearably White” oferece um momento de calmia, e antecede o balancear ondulante de “Step”, entoado e mimetizado pela plateia. Koening e Robert Jones tocam as escalas de “Sunflower” em despique, esticando a extended version até aos limites da plasticidade, e acentuando as mudanças de tempo com distorções eletrizantes que cauterizam inibições e desencadeiam acessos desenfreados de palmas. O otimismo ensolarado da Califórnia instala-se com “This Life”, num hino à alegria e boa disposição de guitarras saltitantes e refrões orelhudos que percorrem o palco e a plateia como uma via de dois sentidos.

© Laura Lopes

Os músicos alinham-se na borda do palco para cantarem uma musica country como deve ser, e entregam-se a uma encantadora versão acústica de “Married in a Goldrush”, interpretada de forma notável por Greta Morgan. Regressam à formação original e mergulham no registo indie pop de “Harmony Hall”. “I don’t wanna live like this, but I don’t wanna die” faz um trocadinho fonético com “Diane Young”, retumbante nas explosões de energia que fazem girar o mundo pendurado, e impelem Baio e Robert Jones correrem pelo palco entre efeitos de voz e de luz. Os solos desenfreados de guitarra de “Cousins” são shots de adrenalina resgatados a uns Artick Monkeys ancestrais, capitalizados por “A-Punk” numa histeria coletiva de crowdsurfing.

O anticlímax fica a cargo de “2021”, sussurrado entre uma torneira a pingar e uma porta aberta para deixar entrar a brisa. A bateria de “Giving Up The Gun” tinge a claridade de vermelho, mas é num azul intimista que Ezra despe a guitarra e homenageia a declaração de Balfour de reconhecimento de Israel com a comovente “Jerusalem, New York, Berlim”, que evolui para um instrumental de bateria e piano a roçar o free jazz, e fecha a primeira parte do concerto.

© Laura Lopes

A banda regressa em modo vintage com “Mansard Roof”. Numa sessão tripla de discos pedidos recupera “Ladies of Cambridge”, “The Kids Don’t Stand a Chance” e permite a um efusivo elemento do público que os acompanhe ao piano em “My Mistake”. Fecham com os incontornáveis “Worship You”, “Ya Hey” e “Walcott” e globos terrestres gigantes insufláveis a levitarem pela plateia.

Os Vampire Weekend criaram uma linguagem musical própria, de uma leveza que nunca resvala para o facilitismo, veiculada por ritmos dançáveis e letras cantaroláveis entrelaçados em instrumentalizações surpreendentes. São uma lufada de ar fresco com aroma a maresia que irrompe pelo quotidiano claustrofóbico e transforma tensões em sorrisos.

@ Laura Lopes

OUTRAS NOTÍCIAS

NOVAiDS White-01