Coura não está preparado para o rap e só quis viver em Slowdive – Vodafone Paredes de Coura – Dia 3

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O terceiro dia de festival foi o mais concorrido até agora mas isso não se verificou no feedback aos artistas e o palco secundário até ganhou preponderância.

Texto: Rui de Sousa | Fotografia: Joana Pereira

Terceiro dia, dia agitado na questão das pessoas (não estivesse o fim de semana a aproximar-se) e Paredes de Coura teve finalmente, em 2018, a moldura que merece.

Começamos a todo o gás com um concerto do apaixonado Kevin Morby. Um dos momentos mais esperado até era visual e não tanto musical. O músico tirou férias em Portugal antes do concerto em Coura e, nas redes sociais, esteve equipado apresentar-se com a camisola do Futebol Clube do Porto. Talvez por aconselhamento, Kevin Morby apresentou-se daquilo que se pode chamar de “fato de macaco de verão”. Já a sua música também teve a sua própria mecânica, levando e contagiando mais público a cada som. A tarde começava a cair mas o instrumentais de Morby e a restante banda (com o trompetista e o baterista também a terem os seus momentos de destaque) a entrarem em solos desconcertantes. Sentia-se uma energia do grupo à distância e essa energia transcendeu para as primeiras filas da plateia, com os temas “Harley River” ou “Destroyer” a não faltarem ao alinhamento. Se este festival vai de encontro aos sons melancólicos de Lou Reed, Morby acompanhou-o na perfeição para um concerto vencedor.

No palco secundário começava o concerto da banda Frankie Cosmos, englobados na vertente do indie pop. Sem rodeios e com um alinhamento fiel à sua música, também foi agarrando muitos festivaleiros ao palco Vodafone FM.

A miudagem passou e os mestres do rock …And You Will Know Us By The Trail Of Dead deram um dos concertos mais energéticos desta edição de Paredes de Coura. O público também mudou um pouco, com uma moldura mais veterana a assumir as primeiras filas. A cada “malha” mais forte, os festivaleiros mais genuínos juntaram-se para minutos de moches intensos, sem se importarem com o resto. E como é bom sentir assim o rock.

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Já no palco principal, os Diiv já iam com o concerto bastante adiantado, com o som e os instrumentos musicais a merecerem destaque mas desta vez não pelas melhores razões, com a desafinação a fazer parte da troca de palavras do público. O próprio vocalista Zachary Cole Smith a juntar o humor e um bocadinho de falta de senso naquelas paragens entre-músicas.

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Foram eles os antecessores da mítica banda Slowdive, aquela que provavelmente era a banda mais requisitada da noite. Muito fiéis foram-se juntando e encaminharam-se na peregrinação musical que Rachel Goswell e Neil Halstead tinham ali para oferecer. Os britânicos não fugiram àquilo que habituaram os fãs desde sempre nos seus álbuns: ritmos suaves que quase nos levam para uma outra dimensão, onde sonhar não tem limites. “Slomo” ou “Star Roving” foram só dois dos muitos exemplos em mais de uma hora de concerto.

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O que se seguia foi inovador, pelo menos para o festival em questão. Ali, em pleno prime time, era hora de se ouvir rap em Paredes de Coura. Skepta, o rapper britânico, assumiu um público dividido: um mais contido, atrás, por estar a assistir a hip-hop num festival claramente dedicado ao rock e outro (nomeadamente mais jovem) a carregar-se nas primeiras filas e a repetir as letras sinuosamente. O rap está na moda e até Coura percebeu isso. Sobre o concerto em si, ficou manchado pelo arremesso de muitos objetos para o palco, desde copos de cerveja aos muitos brindes oferecidos neste festival. Skepta elucidou os fãs para pararem com a “brincadeira”. Apesar das ameaças, os fãs da linha da frente continuaram agressivos, obrigando o britânico a sair do palco e a ser um orador do festival a pedir calma e a criar o ultimato que caso não parassem, não haveria mais concerto para ninguém. Joseph Júnior Adenuga lá voltou ao palco, os objetos pararam de ser arremessados mas as primeiras filas continuavam na loucura intensa de saltos ao som das batidas potentes do seu DJ. O britânico continuava a pedir por mais do público e fechou o concerto com “Shutdown”, envolvendo ali o seu gang de cada uma dezena de pessoas. O concerto terminou em festa mas Coura, no geral, ainda parece desdenhar o rap.

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Para terminar o dia tínhamos no “After hours” as Pussy Riot. Sem bem saber o que esperar musicalmente, e conhecendo o passado trágico das mulheres (não da banda), certo é todos queriam ver o que elas tinham ali para oferecer. Além da música, o que a plateia mais ansiava eram mensagens políticas que não faltaram no início do espetáculo, onde num projetos foram ali espetadas 25 mensagens onde Putin, Trump, capitalismo, desigualdades de género, raça e monetária foram os principais pontos de destaque. Claro que o público ia ao rubro e ovacionava aquela tremenda luta contra o atual estado do mundo. O mesmo não se pode dizer do concerto em si, que em termos musicais não preenche nada mais que um vazio entre o techno e músicas sem grande sentido. Se bem que em praticamente todas essas músicas tiveram uma história por trás, que têm tanto de verdade como de triste de casos na Rússia onde nem as greves de fome fazem abrandar o esquema nacional. Portugal parece ter gostado e, acima de tudo, viu-se que é fã da verdade e da luta por um mundo melhor. E foi essa a aula que as Pussy Riot deram a fechar o terceiro dia de festival.

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