Da ilha para o coliseu, uma maré de poesia por Yann Tiersen

Os sons da natureza acompanham em permanência a performance ouvindo-se pássaros, vento, mar, sons de crianças, gatos bebés, que se misturam com o som dos intrumentos em palco, cítara, harpa, efeitos electrónicos, cordas, sinos.
Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

por Cristina Guerreiro

Após o concerto no Campo Pequeno, em Lisboa, Yann Tiersen apresentou-se a um Coliseu do Porto espectante no passado 30 de Setembro.

Deu-nos a conhecer o seu mais recente trabalho, All – que significa Outros, em bretão, onde, na linha dos albúns anteriores Infinity (2014) e EUSA (2016), nos transporta para uma realidade de respeito à natureza e a tudo aquilo que o contacto com a mesma nos transmite, sem deixar de lado as preocupações ambientais para as quais ficou mais alerta após uma viagem de bicicleta através da Califórnia onde se viu, com sua mulher, frente a frente com um leão da montanha. O leão não quer contacto com os humanos, só os procura como presas, aquele é o território dele. 

Transportando-nos de imediato para esse ambiente abre o espetáculo com um poema/história que nos fala sobre a forma como o caçador persegue a sua presa, um lobo por exemplo, num atentado contra a natureza e que destrói o seu equilíbrio.

Aqui entra Yann, senta-se ao piano, apenas um foco de luz sobre ele inside, e toca Porz Goret do seu albúm anterior. 

Segue com toda a sua mestria onde deambula por diversos instrumentos, pegando numa escaleta, intercalando com o piano onde volta com frequência.

Dirige-se ao público pela primeira vez, em inglês, e aproveita para apresentar Alex, um leitor de fita antigo de onde sairão os sons da natureza gravados por Yann. Com o som da beira-mar, acompanhado ao piano, as luzes parecem dançar e projectar um céu inquieto.

A Tiersen juntam-se 3 músicos, uma mulher e dois homens, que vão compor todo o universo especial desdobrando-se pelos diversos instrumentos em palco, desde teclas, mesas de mistura,  metais, e emprestando maravilhosas vocalizações às melodias apresentadas.

Diversas são as línguas cantadas, sueco, feroês, bretão. Para Yann a língua é também dos maiores patrimónios a conservar.

Os sons da natureza acompanham em permanência a performance ouvindo-se pássaros, vento, mar, sons de crianças, gatos bebés, que se misturam com o som dos intrumentos em palco, cítara, harpa, efeitos electrónicos, cordas, sinos.

© Teresa Mesquita

Tempelhof, o antigo aeroporto associado ao regime nazi e que é agora uma área para se desfrutar da natureza, além de ser o único local onde foram gravados os som mais urbanos, dá também nome a faixas do albúm. Em Pell mistura com mestria o piano e o radio de ondacurta.

Toda a performance nos transporta para um mundo etéreo onde a música em palco se deixa envolver pela natureza e onde os sons de passos na areia nos fazem acreditar que estamos numa praia na Bretanha ou Cornualha, quem sabe na ilha de Ouessant, na eminência de uma tempestade.

Um espetáculo recheado de momentos de pura poesia. As  vozes maravilhosas e profundas dos músicos que acompanham Yann elevam-nos a uma experiência quase religiosa.

Após desligar Alex, Yann ainda nos brinda no cravo com uma amostra de uma das suas músicas utilizada no sucesso O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Ao som de sinos Yann volta ao piano de cauda e acompanha a rapariga que divinamente interpreta um tema.

Várias vezes nos brinda com solos de violino e ainda temos, mais para o final, o prazer de o ouvir tocar o famoso acordeão. Saímos desta experiência emersiva para uma ovação de pé por um público efusivo e entusiasta a Tiersen e seus acompanhantes.

© Teresa Mesquita

Para o encore a luz muda dos tons azulados e frios que tinha até à data para um vermelho intenso e Yann aproveita para tocar uma música nova.

Despedem-se deixando um coliseu, praticamente cheio, sereno e com o coração repleto de um espetáculo que também foi, todo ele, uma mensagem em prol da natureza.

Yann Tiersen Galeria Completa

Coube à banda alemã de rock progressivo Geysir, formada em 2009, fazer a primeira parte do concerto. Revezando-se entre instrumentos, os dois elementos da banda mostraram que dominavam a sonoridade electrónica e industrial, raiada de toques leves e melodiosos de guitarra, navegando para tons mais soturnos onde parecem tocar um para o outro numa sinergia que agradavelmente nos preparou para a apoteose que seria o concerto de Yann Tiersen.

© Teresa Mesquita

Geysir Galeria Completa

OUTRAS REPORTAGENS

NOVAiDS White-01