Dear Telephone vieram à Casa da Música para conquistar o público

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© Teresa Mesquita

Os Dear Telephone são coletivo de inspiração cinéfila proveniente de Barcelos, e encontram-se a promover o álbum “Cut” editado em outubro de 2017. Este cruzamento de diferentes pedigrees musicais constitui um dos interessantes projetos nacionais da atualidade.

Integraram a programação estival da esplanada da “Casa da Musica” do Porto na noite de 06 de julho de 2018 com a missão de divulgar os trabalhos mais recentes, e reproduzindo, quase na totalidade, o alinhamento do novo disco.

Apostaram unanimemente no vestuário preto monocromático, cortada apenas pelo amarelo suave do casaco de Graciela, cujo formato anguloso sugeria um prolongamento da estrutura corporal da cantora. O publico inicial não era frondoso, mas foi-se acumulando no desenrolar do concerto, ainda que pincelado por uma imerecida patine de apatia.

André Simão (voz, baixo e guitarra), Graciela Coelho (voz), Paulo Araújo (teclados, saxofone) e Pedro Oliveira (bateria) abriram com a suavidade de “Fur”, e prosseguiram para “Slit”, território privilegiado para a voz feminina ondulante e quase jazzística que os caracteriza. Em “Cut” contaram uma estória em que “rain is pouring, wind is blowing, lights are fading one by one, now”. Para “Automatic” André trocou o baixo pelas teclas e a vocalista assumiu a dianteira.

© Teresa Mesquita

Em seguida, André e Paulo emparelharam duas guitarras para segurarem o encantamento etéreo de “Nighthawks”. Mantiveram a formação para desfolhar “From this place where I am standing”, uma espécie de janela indiscreta sobre o quotidiano. André recuperou o baixo e Pedro atacou os teclados para um mergulho no passado, com uma potentíssima interpretação de “Revelator” seguida da tranquilidade indolente das cordas de Let Me rest On Your Couch cantada a duas vozes. A bateria foi a protagonista de “Everything We Know”, rematada com uma desaceleração até um slow motion mimicado pelos movimentos dos artistas. Não podia faltar a cover de Arthur Russel impressa na genética do grupo, e Close My Eyes foi parcialmente cantado acapella com uma mestria adorável, ciando um dos momentos mais bonitos do espetáculo. As honras de encerramento foram delegadas no tema que fecha o novo álbum, antecedido da explicação de que The First Person Ever parte de um refrão cantado apenas uma vez, e que desencadeia um turbilhão instrumental injetado por uma dose generosa de liberdade.

© Teresa Mesquita

Os Dear Telephone criaram um conceito, deixaram-no cimentar e, serenos e firmes, caminham sobre ele numa direção mais arrojada. Um percurso a seguir com atenção, e que passa pelo cartaz de Paredes de Coura 2018.

Dear Telephone – galeria completa AQUI

Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.