Bury Tomorrow

“Detonar” em comunidade

“Detonar” em comunidade

Bruno Pereira
Bruno Pereira
Bruno Pereira nasceu em 1987 em Lisboa. Estudou cinema durante alguns anos e encontra-se actualmente a finalizar uma licenciatura em Filosofia. Não sabe ainda a data da morte.
Quem se deslocou ao RCA no domingo, talvez tivesse confundido o local com a Loja do Cidadão.

Já fui várias vezes ao RCA e não me lembro de alguma vez ter visto uma fila tão extensa (para quem não compreendeu a piada da Loja do Cidadão, nunca deve ter ouvido falar das filas míticas que lá se veem todas as manhãs. Também não aconselho a experiência).

Qual o motivo para tanta expectativa? Bury Tomorrow, um dos grandes nomes do Metalcore e, depois de ver a prestação, entende-se bem o porquê.

Mas vamos por partes, amigos, porque, antes deles, duas bandas portuguesas souberam estar à mesma altura. Os primeiros holofotes da noite apontaram para Ary. Nunca ouviram falar? Fazem mal (parem de ler esta crítica, se for necessário, e vão ouvi-los.) “Liderados” pela talentosa Erika Martyns mostraram como se pode ter o público na mão.

Tendo sido a primeira vez que os vi ao vivo, fiquei tão encantado quanto o resto do público (e, acreditem, o público estava encantado). Erika não está para brincadeiras. Simpática, com uma voz de meter inveja a muito nome grande e uma maravilhosa presença de palco, fez um concerto de 40 minutos parecer ter a duração de cinco minutos, apoiada por uma banda ao mesmo nível. If You Don’t Try You’ll Never Know e Dead To Me ficaram na memória. Uma banda a seguir, sem dúvida, e que é injusto não ser mais conhecida em Portugal.

© Jorge Pereira

ARY – galeria completa

 

Seguiram-se os The Year (para quem não conhece, é favor ir ouvir também). Johnny Disorder, carismático e imparável (sem dúvida, foi uma noite cheia de grandes vocalistas) soube como pôr o público a ferver. Com um metal poderoso, cheio de atitude e “músculo, os The Year demonstraram ser uma banda que tem no ADN um groove irresistível (até se tocassem uma canção deles num lar de terceira-idade haveria headbanging generoso, não duvido).

© Jorge Pereira

THE YEAR – galeria completa

 

Evade e Death By Media marcaram e toda a banda (desde a máquina-de-guerra baixo/bateria até às linhas melódicas furiosas das guitarras) está de parabéns por um concerto que foi a entrada perfeita para a banda que lhes seguia. Falo de Bury Tomorrow, banda britânica nascida em 2006 e que é seguida por uma legião respeitável, ainda para mais devido ao sucesso do álbum mais recente Black Flame (2018) Daniel Winter-Bates é, com todo o respeito, uma besta em palco.

© Jorge Pereira

BURY TOMORROW – galeria completa

 

Dono dum carisma maior que qualquer palco, soube lembrar ao público que não este não se encontrava a ver um “concerto” como é considerado na sua visão mais típica: isto era uma reunião de amigos. Banda e público fundiram-se inegavelmente num só (e foi certamente uma das melhores prestações que o RCA testemunhou). O mosh foi furioso, a adesão foi total e crowdsurfings e moshes a cada três segundos numa hora memorável, regado com a fúria de Royal Blood, The Age, Last Light até chegar ao tão esperado Black Flame, terminando com Daniel em cima do balcão do bar a cantar para uma plateia rendida.

Existe muito preconceito, ou pelo menos uma ideia generalizada, de que os concertos de metal são povoados de raiva e de gente cabisbaixa-com-cara-de-má alcoolizada. É absolutamente falso no que se refere à raiva e a pessoas cabisbaixas (no que se refere ao consumo de álcool, contudo, não posso negar. Festa é festa.), como esta noite bem provou; é antes uma comunidade onde a qualidade da música é abundante e a comunhão permanente.

Bruno Pereira
Bruno Pereira
Bruno Pereira nasceu em 1987 em Lisboa. Estudou cinema durante alguns anos e encontra-se actualmente a finalizar uma licenciatura em Filosofia. Não sabe ainda a data da morte.