dEUS

dEUS não é uma banda: é um culto

dEUS não é uma banda: é um culto

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
“The Ideal Crash”foi há 20 anos, e Portugal foi escolhido para abrir a digressão do aniversário.

Os dEUS são filhos da cena musical de Antuérpia dos anos 90, e depois dos primeiros trabalhos algo herméticos, ao terceiro álbum fincaram os pés na terra e criaram uma identidade própria. Um índie rock com declinações progressivas, que combina guitarras em distorção com violinos acetinados, embrulha uma percussão enérgica em teclados etéreos, e cobre sintetizadores agressivos com uma voz doce. Uma lírica expressionista e rendilhada fez o resto. “The Ideal Crash” ganhou o estatuto de disco de referência e inspirou uma legião de seguidores. Seguiu-se um hiato criativo, e mais quatro álbuns sólidos e férteis. Duas décadas depois, os dEUS remasterizam e devolvem “The Ideal Crash” aos palcos europeus, numa tournée que se inicia em Portugal e terminará na Grécia.

© Teresa Mesquita

É neste contexto que a 25 de abril de 2019 a sala 1 do Hard Club do Porto parece encolhida para acolher a geração que se amontoa lá dentro. À hora marcada os músicos sobem ao palco, com o ar desmazelado que lhes é característico, em roupas escuras entre a ganga o algodão e o tactel. Da formação original mantêm-se Tom Barman na voz e guitarra, e Klaas Janzoons no violino e teclados. Foram acrescentados Bruno DeGroote na guitarra, Stéphane Misseghers na bateria e Alan Gevaert no baixo.

Abrem com a descarrega de energia de “Put The Freaks Up Front”: guitarras e violino entrelaçados numa narrativa sobre as complexidades do amor e da luxúria. ‘‘So you’re suffering. I know it hurts a lot, if it’s the first time’’: um conjunto de bailarinos contorce-se ao ritmo dos riffs e versos que todos reconhecem, e que continuam tão presentes, tão atuais.

© Teresa Mesquita

Os figurantes saem, Tom troca para uma Taylor acústica, e introduz a suplicante “Sister Dew”. ‘‘Oh my sweet sister Dew, what have I done?’’ O teclado desenha a melodia, e a percussão eletrónica acentua os desacertos que fazem o tema cambalear, ébrio de mágoa e arrependimento. Muito bonito. Prosseguem com “One Advice, Space”. A entrada instrumental ondulante dos teclados de Janzoons poliniza os paradoxos da letra, e o publico oscila com o balancear da brisa. O contributo da voz Stéphane Misseghers é surpreendente. Barman desafia a audiência a participar num documentário da autoria de DeGroote, e avança para “The Magic Hour”. É uma slow music vintage, com acordes de guitarra new wave e murmúrios de sedução que deslizam por entre recordações românticas.

A levitação coletiva é interrompida pela bateria fenética de “The Ideal Crash”, a rivalizar com as teclas agressivas e com o efeito de distorção vocal. A musica sobe até ao psicadelismo, com as guitarras a atacarem um solo eletrizante, sem dó nem piedade, até ao ultimo suspiro.

Carl Maria Von Weber sabia o que fazia quando compôs o “Convite à Dança”, inspirando a família Strauss, e propagando-se pelos séculos seguintes a todos os géneros musicais. A valsinha de dEUS é “Instant Street”, esta noite em extended play, e com Stéphane Misseghers estupendo na segunda voz… Os bailarinos volteiam e o publico mimetiza, enquanto vai cantando, e sorrindo, e cantando, e sorrindo… “You’re probably right, as for tonight, you’re making me nervous”. É uma composição em dois atos, começa com ingenuidade beetleana, e progride para um assombroso delírio de guitarra, martelada pelo violino em distorção e sapateada pelos pratos, que deixa Barman de joelhos, e a sala sem fôlego, sem ritmo cardíaco, e sem fluxo sanguíneo.

© Teresa Mesquita

Tom acerta a afinação e entrega-se ao intimismo de “Magdalena”, em dueto com DeGroote, construindo um nevoeiro de melancolia. Por uma fração de segundo, os Arcade Fire batem à porta da biblioteca auditiva.

A languidez instalada escorre para os primeiros versos de “Everybody’s Weird”, interpretados apenas pela voz e um sampler. Mas quando entra a bateria, e à medida que os restantes instrumentos se lhe juntam, a energia amotina-se, e não há um átomo inerte entre a terra e o céu. A combatividade psicótica dos sintetizadores assume a liderança enquanto a percussão se entrega a uma crise de esquizofrenia, mas por uma qualquer razão transcendental toda essa paranoia faz sentido, e cria uma clareira de libertação.

Barman desafia o público: quase a terminar, quem sabe o que falta? Em 1999 não havia shuffle, por isso todos sabem o que falta. Para “Let’s See Who Goes Down First” Tom mune-se da Taylor acústica, e lança-se na peculiar sequência lo-fi de abertura. Troca de guitarra, e estabelece um duelo hipnótico com DeGroote, a cadência sincopada da musica a roçar a desafinação, e a suscitar movimentos robóticos dos dançarinos. O tema vai ganhando corpo sem perder a estranheza, desenhando pontos de interrogação sensoriais. O regresso à sanidade fica a cargo da atmosférica “Dream Sequence”, que atravessa um universo onírico sem sobressaltos, e se espraia num areal de serenidade.

A banda agradece e liberta o palco, regressando com o intervencionismo francófono de “Quatre Mains”, o apocalipse sonoro de “Fell Off The Flor, Man” e o resgate de “HotellLouge (Be The Death Of Me)”. Mas nada termina sem o clássico “Nothing Really Ends”, com os seus tiques de bossa nova a apelarem ao síndrome de separação do publico: “Do you still love me? Do you feel the same? Do I have a chance of doing that old dance with someone I’ve been pushing away?”.

“The Ideal Crash” não foi uma pedrada num charco, destinada a estagnar no revivalismo bacoco – foi uma fase criativa extraordinária, que antecipou muito do que viria a ser feito nos anos que já passaram, e continuará a influenciar os que ainda estão para vir. A musica de “dEUS” é omnipresente.

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Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.