Devendra Banhart no Porto a aprender português

Devendra Banhart pertence à linhagem dos cantautores americanos da atualidade que congregam uma presença de palco uterina com um controle da voz e do instrumento irrepreensíveis.
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Devendra Obi Banhart deve o nome próprio à devoção Hindu e o nome do meio ao personagem de culto de Star Wars. Filho de mãe venezuelana e de pai americano, Devendra é natural do Texas, teve uma passagem marcante pela américa do sul materna, mas grande parte dos seus 38 anos têm sido passados na américa do norte de São Francisco e Los Angeles. O álbum de 2019, “Ma”, reflete essa mistura sem embaraços e com coesão.

A 15 de fevereiro de 2020 Devendra Banhart subiu ao palco da sala 1 do Hard Club para um concerto há muito esgotado, e com forte afluência castelhana. A primeira parte foi delegada em Andi Cabic, aka Vetiver, a seguir reciclado em backing vocals.

@ Igor de Aboim

O fundo do palco ostenta um fundo branco com desenhos naïfs em cores primárias que reproduzem os da capa de “Ma”. Devendra é pontual, e vem acompanhado pela bateria de Josh Adams, pela guitarra de Nicole Lawrence, pelo baixo de Noah Georgeson, pelas teclas de Jeremy Harris e pelo conforto da voz adicional de Andi Cabic. A sua figura esguia e os maneirismos transmitem a mais absoluta tranquilidade. Calças beijes clássicas um palmo acima da linha de água, camisa preta abotoada, cabelo forte em desalinho, barba hirsuta a criar nuances. Senta-se numa cadeira vintage, abraça uma guitarra acústica antiga e artesanal, e começa com o pizzicato de “Is This Nice?”. A interpretação é acompanhada por uma mímica vincada, no limiar da linguagem gestual, que ocasionalmente o faz largar o instrumento e vai despertando sorrisos entre o público. Prossegue para “Theme for a Taiwanese Woman in Lime Green” onde a elegância do dedilhar das cordas imprime uma delicadeza peculiar ao balanço de bossa nova. Levanta-se, descarta a cadeira, e troca para a guitarra elétrica de Kantori Ongaku, um folk marcado pela tradição country que lhe dá o nome.

@ Igor de Aboim

Faz uma pausa para exercitar o português, elogiar o Porto, sublimar o museu de Serralves, e chamar ao palco o respetivo director, a propósito do anuncio de uma exposição de Yoko Ono. Repesca “Mi Negrita”, cujo divertido cha-cha-cha de é recebido com entusiasmo pela audiência. Livra-se da guitarra, pega no microfone e canaliza toda a linguagem corporal para “Taking a Page” aproveitando a extensão da linha de palco para teatralizar e investir em equilíbrios periclitantes sobre cada uma das pernas. A descontração é capitalizada para a dançável “Fancy Man”, que pisca um olho à sensualidade. Regressa à guitarra elétrica, dois segundos para ajustar afinações e pedais, e o caldeirão étnico de “Love Song” toma conta do recinto, com a sua instrumentalização cuidada. Desacelera para a delicodoce “Daniel”, que se espraia como um exercício de easy listening, e onde a voz é usada como instrumento com uma mestria surpreendente. A afinação muda, “Shabop Shalom” e “Golden Girls” seguem atreladas uma à outra. A audiência fica suspensa no baixo enquanto Devedra troca para a guitarra acústica, volta a sentar-se, e inicia a homenagem a Chico Buarque e Caetano Veloso de “Carolina”, com o recinto a cantarolar em uníssono “eu deveria aprender português algum dia”.

A banda sai do palco e Devendra fica sozinho com a sua guitarra acústica, entregue a uma sessão de discos pedidos. “You think i’m not prepared? I’m not prepared…” confessa com humildade e boa disposição. Troca o protagonismo com Josh, que oferece um solo de bateria notável nas subidas e descidas, e mudanças de ritmo, mas principalmente na simplicidade com que as mãos se transformam em baquetas, recordando que a hipotenusa entre a musica e a alma está mais próxima do low fi e do que do alto rendimento.

@ Igor de Aboim

Um a um, os músicos entram e adicionam o seu instrumento à percussão, criando a banda sonora de um monólogo que parte de um refugio nos jardins de Serralves, termina na essência da vida, e serve de trampolim para o old school disco sound de “Fig in Leather”. A sala e pulsa, contagiada. A desaceleração fica a cargo de “Für Hildegard von Bingen” e “Never Seen Such Good Things”. A entoação de paródia de “Baby” serve de ponte para uma viagem no tempo até ao magistral “Seahorse”. Uma obra prima de folk psicadélico, com os jogos de vozes a conquistarem profundidades e ressonâncias épicas, e as cordas a tecerem uma teia de som entre a terra e o céu. O circulo está completo, e os músicos retiram-se. Regressam com dois bónus: “Celebration” e “Carmecita”.

Devendra Banhart pertence à linhagem dos cantautores americanos da atualidade que congregam uma presença de palco uterina com um controle da voz e do instrumento irrepreensíveis. Rodeado de músicos exímios, e com uma delicadeza omnipresente, passeia com igual à vontade entre as raízes caribenhas e a sofisticação vanguardista. Um banho de boa onda, de boa atitude, de bom som, e de boa musica.

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