Entrevista a Boogarins: “São 5 anos praticamente sem parar de pensar em próximos passos”

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Desde 2014 que os Boogarins têm pisado os palcos portugueses. Depois do Milhões de festa, a banda de Goiânia tem percorrido inúmeras saltas por todo o país, este verão regressam ao Festival Vodafone Paredes de Coura apresentar o seu mais recente trabalho de estúdio Sombou Dúvida.

A Imagem do Som teve a oportunidade de saber mais sobre o processo criativo, as diversas passagens por Portugal e a essência da banda.

IdS A composição criativa dos Boogarins é bastante peculiar, a inspiração vai surgindo entre o passado e o presente a pensar num futuro. Como foi pensar o futuro de Sombrou Dúvida?

Boogarins – O futuro se tornou passado durante a totalidade do processo. O Lá Vem a Morte era pra ter sido Sombrou Dúvida, felizmente tivemos êxito ao lançar 2 discos do que seria apenas um. Estamos sempre a produzir e a fazer turnês, então nossa perceção de tempo e espaço não é muito linear, todos trabalhos fazem parte da mesma linha de raciocínio… Talvez pensar isso de maneira diferente nos leve a um próximo lançamento mais ambicioso. Mas até agora o Sombrou Dúvida é o mais ambicioso, simplesmente por ser o último.

IdS – Como foi gravar no Textas, em conjunto com Gordon Zacharias?

Boogarins – Na realidade estivemos em estúdio com Tim Gerron, engenheiro do Space, que nos auxiliou na busca de sons mais potentes e cristalinos – mas seguindo a nossa busca por sons, métricas e performances únicas. O papel de Gordon enquanto produtor primário, pra além das canções que ele ajudou a mixar, foi nesse outro lado de nos puxar a conseguir um disco mais coeso – definindo o ponto de partida e o ponto de chegada. Não fosse por ele, o Sombrou seria o Lá Vem a Morte e talvez não teríamos gravado canções como “As Chances” ou “Dislexia”.

IdS O que este álbum traz de novo à banda? De que modo exploram as novas sonoridades mais brasileiras e mais indie que estão vincadas nestas novas músicas?

Boogarins – Acho que pela primeira vez captamos baterias com o peso que sempre passamos ao vivo. A experimentação sonora ficou em segundo plano e as canções foram guiadas pelo que a banda faz ao vivo de fato. Quanto a sonoridades brasileiras, apareceu uma viola caipira em “Dislexia”, ritmos dançantes-quase-sertanejos em “Tardança” e “Desandar”, mas nada disso foi intencional, só seguimos o fluxo das composições mesmo.

IdS Em quatro álbuns, são quatro espíritos diferentes, ora mais intenso e festivo, ora mais frenético e ansioso. Qual foi o espírito para a composição de Sombrou Dúvida?

Boogarins – Mesmo nas músicas mais melancólicas, damos um gosto de otimismo a quem procura nos ouvir e interpretar o que está sendo dito. Isso flui naturalmente de Dinho e de suas ideias.

IdS As letras estão mais claras, mais nuas e cruas. Um pouco de flores do mal. De que recanto é que elas surgem?

Boogarins – As letras estarem mais claras é parte de como produzimos o disco mesmo, tudo está melhor colocado nas canções, cada elemento, Dinho cantando cada vez melhor também – com mais potência. Os temas e como eles são abordados seguem sendo o mesmo, pelo menos para a gente, que está dentro do processo. Seguimos falando pouco, mas dizendo muito.

IdS Como é que é sair de Goiânia e explorar o mundo com a música?

Boogarins – É uma das sensações mais incríveis, com certeza. Pena que com a velocidade das coisas, não temos muito tempo para aproveitar e saborear as pequenas conquistas. São 5 anos praticamente sem parar de pensar em próximos passos. Isso atrapalha a noção de que nosso sucesso é infinitamente maior que qualquer expectativa que poderíamos ter lá no início.

IdS Das primeiras vezes que tocaram em Portugal foi no Milhões de Festa de 2014. Desde então a vossa presença no país tem sido frequente. Qual é o sentimento de regressar ao país irmão para tocar num dos principais festivais de verão, o Vodafone Paredes de Coura?

Boogarins – O Paredes parece ser o festival favorito de todos tugas. Público, produtores, artistas, todo mundo repetia isso: “Vocês têm que ir ao Paredes”. Finalmente cá estamos, sendo o último ato a cantar em Português na noite de abertura do festival. É muita moral pra quem nem havia pisado fora do país antes de ter a banda.

IdS Já lá vão alguns anos desde o início. Estão mais crescidos e adultos, ou continuam permanecem crianças do psicadélico?Boogarins – Sabendo viver em comunhão tudo o que vivemos, acho que sempre conseguiremos manter o espírito jovem. Temos muita energia e cumplicidade ao fazer música e isso dá uma sensação de frescor para nós e pra quem nos assiste de peito aberto. Mas essa jovialidade se limita a nossa convivência entre si e a música que fazemos, sem muito espaço para irresponsabilidades e devaneios infantis, hehe.