Era uma vez… Júlio Resende, o homem-máquina

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© Teresa Lopes da Silva

Um mês depois de lançar o disco “Cinderella Cyborg”, o pianista Júlio Resende estreia o novo trabalho no palco do Tivoli BBVA com um espetáculo poético e tecnológico.

A delicadeza inocente do Tema bonito para o Salvador arrancou aquela que seria a noite de uma magia inesperada. Surge o tique-taque de Cinderella Cyborg, tema que intitula o disco e que reúne na perfeição a temática da obra mais recente de Júlio Resende: a fusão entre a música acústica e a música eletrónica.

Uma união inusitada que não é deixada ao acaso na disposição em palco. À esquerda, a vocal eletricidade mecânica de Sam Azura, rapper inglês que tem em Portugal nova casa já há 5 anos e André Nascimento, o pintor que dá tela para a eletrónica do espetáculo. À direita, o contrabaixo âncora de André Rosinha e a irrequieta perfeição da bateria e percussões de Pedro Segundo. Ao centro, o príncipe da história, Júlio, que atrai as sonoridades destes dois mundos para o seu piano, a caixinha de música encantada.

© Teresa Lopes da Silva

Viagem marcada à Lua com Lets go to the moon, onde o jogo de luzes reconfigura para quatro raízes néon, em fundo, quase como se simbolizassem ramos/cabos de ligação entre sonoridades. Cyborg Wants a Friend, dedicado a todos os amigos presentes em sala que “preferiram ficar e vir ao concerto quando poderiam ter ido para o Alentejo, por exemplo”, confessa um Júlio nervoso e estreante nas lides de conversa com a plateia. Neste alinhamento remisturado a cada tema que passava – Júlio não gosta de estar preso nem na música nem a uma setlist pré-acordada – é escolhido Louder! And Don’t Forget to Dance para mexer com o ritmo da sala. Impossível ficar quieto (e nem foi preciso dizer para não nos esquecermos de dançar). Outro dos capítulos marcantes do conto de fadas seria o improviso entre músicos, quase de 5 minutos, a partir do pocket – aparelho mais que irrequieto de Pedro Segundo – que guiou a carruagem rítmica de Júlio e seus companheiros.

© Teresa Lopes da Silva

O trabalho cyborguiano não seria a primeira aventura de Júlio no cruzamento do tradicional com a tecnologia. No encore, a solo, é com o tema Medo – um dueto com a voz de Amália Rodrigues do disco “Amália por Júlio Resende”, de 2013 – que o pianista confessa a admiração pela figura maior do fado e que “sem a tecnologia nunca poderia ter atuado com Amália” que nunca chegou a conhecer. Para fechar o manual de fadas conta-nos a história de LisbonHood, tema que começou pela linha melódica simples mas que cedo se transformou na vivência urbana do rapper Sam.

© Teresa Lopes da Silva

“Cinderella Cyborg” é a combinação clássica de um piano com a irreverência de uma batida eletrónica gritante: digno de uma história como as que se contam nos livros, não para adormecer mas para voar até um novo universo. Neste feitiço, Júlio Resende é o músico curvado que olha para o seu interior enquanto se une ao piano e partilha com o público a sua arte singular e biónica.

© Teresa Lopes da Silva

Júlio Resendegaleria completa

Banda:
Júlio Resende – piano
André Rosinha - contrabaixo
Pedro Segundo – bateria e percussões
André Nascimento - eletrónica
Sam Azura - voz