Espinho rendeu-se aos Circuit des Yeux

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A 28 de abril de 2018, todas as luzes do Auditório de Espinho se apagaram para ouvir cada oitava da voz de Haley Fohr. Traz o projeto “CIRCUIT DEX YEUX”, nascido em Chicago, em 2007 e evoluindo ao longo de quatro álbuns até se consagrar no “Reaching For Indigo” de 2017 como uma das sonoridades mais interessantes do indie folk concepual da atualidade.

Acompanhada pela sua guitarra de 12 cordas, pelo contrabaixo de Andrew Scott Young, pela bateria de Tyler Damon, e pelo violino e sampler de Whitney Johnson, o quarteto dispôs-se no palco formando um losango encimado por Haley, com Tyler imediatamente atrás dela, e Andrew e Whitney a ladearem-nos. Ao fundo, uma tela branca onde formas e cores iam colorindo as cambiantes harmónicas, e ocasionalmente se ampliavam as silhuetas dos protagonistas. Ao longo de todo o espetáculo, Haley permaneceu numa penumbra mística: nunca mostrou o rosto, nunca delineou os contornos, nunca projetou a sua sombra na tela. Uma atuação quase oracular, num sacramento entre a comunhão e a profissão de fé.

Com uma serenidade desarmante, os ”CIRCUIT DES YEUX” percorreram todos os temas de “Reaching For Indigo”. A abertura coube a “Brainshift” com a voz de barítono de Haley a desfilar como instrumento principal, à qual vão sendo adicionados, um a um, os restantes sons, como uma receita anciã em que os tempos de levedura são para ser respeitados. Em “Back Fry” ela pega na guitarra e preenche as notas de “nobody said it was easy” com a sonoridade inconfundível de uma dúzia de cordas acústicas. Os restantes músicos vão entrando na pauta, cada um na sua vez, aumentando a intensidade e a dinâmica, e com um desempenho notável do baixo de Andrew. “Philo” é uma aposta na serenidade, a amplitude da voz a saltitar sobre os dedilhados, e a tarola a aconchegar a alma até desaguar numa dinâmica tribal com um “surrender, surrender, surrrender” em que o bombo e a cantora entregam a alma ao criador.

Faz-se uma pequena pausa para os protocolares elogios à cidade e apresentação da banda.

Seguem-se os inconfundíveis “uh-uh-uh-uh- uh-uh-uh-uh” de “Paper Bag”, em que as cordas vocais são teclados, órgãos, sintetizadores, são ao mesmo tempo um dom e uma maldição, que rodopiam abraçados pela envolvência da percussão, até vencerem Haley e a projetarem para o chão na ponta do palco. A transição para “A Story of This World” é redentora, e o ritmo sincopado do tema dá alento à respiração. “Call Sign E8” introduz a esperança refrescante de “Geyser”, e Haley avisa que apesar de “Falling Blonde” ser o tema de encerramento, se a audiência bater palmas seguir-se-ão mais três. A balada é interpretada sem pressas, numa incontornável reminiscência entre Nico e Anohni, e o público implora o encore.

Os interpretes abandonam o palco para regressarem um ciclo respiratório depois, cada um segurando um sorriso e um copo com vinho tinto, sob os laivos parcimoniosos da única luz que o auditório viu nessa noite. Recapitulam dois temas do álbum anterior: “Ride Blind”, com as suas magnificas linhas de contrabaixo, e “Do The Dishes”, cantada de joelhos, com a solenidade de um hino. Os restantes músicos saem do palco, e Haley, aconchegada na intimidade da sua guitarra, presta um tributo a “Fruits of My Labour” de Lucinda Williams.

Os “CIRCUIT DEX YEUX” estão naquele registo emocional em que a musica deixou de ser tocada e passou a ser sentida e a dar novos sentidos a quem a ouve.

Fotografia: COLLEEN DURKIN