Estas Tonne: a eternidade como criação musical

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© Jorge Pereira

Nem todos conhecem Estas Tonne (afinal, o mundo não é perfeito), mas algo é garantido – quem o conhece não o esquece e são varias as razões, tantas quantos os caminhos que a sua música nos faz percorrer

Ucraniano, nascido em 1975, levou a peito, como poucos, a célebre frase socrática: “Sou um cidadão do mundo” e isso sente-se na sua criação. Tendo virado cedo costas ao mundo da música (começou a tocar aos 8 anos de idade mas “desertou” durante 11 anos), a ele regressou com uma nova visão filosófica. Viajou pelo mundo, tocando em ruas, conhecendo pessoas, muitas pessoas, que encantou tanto pela sua técnica musical como pela mensagem que tenta transmitir através dela. E não é fácil ser-se um “trovador dos tempos modernos” (como ele próprio se apelida) numa época que tem tão pouco de romântico.

Desengane-se, contudo, quem pensa que Estas é um artista do passado – é, acima de tudo, um artista sem tempo. As suas melodias procuram alimento numa ideia de eternidade. Ei-lo, então, de novo em Lisboa, às 21:00 horas do dia 9 de outubro, o elegante Salão Preto e Prata do Casino do Estoril estava de portas abertas para o receber. Se alguém esperava uma noite de dança e rodopio (como se vê em muitos dos vídeos de Estas no Youtube), senhoras e senhores, é favor dirigirem-se para a saída mais próxima. O concerto do ucraniano, desta vez, não foi para danças, mas para uma viagem instrospetiva  e, ainda assim, uma viagem em comunidade.

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Não vale também a pena apresentar setlists – o concerto fluiu como uma só música, composta, em conjunto, pelas notas de Estas e pelo silêncio comovido do público. O cardápio do guitarrista é composto por todas as influências que consumiu nas cidades por onde caminhou – aqui, cria uma melodia cigana, seguindo para um planalto folk meditativo para depois desabar num flamenco fogoso e furioso chegando, no fim, a uma calmaria aquática de influências electro (com recurso a um pedal de reverb). Os acompanhamentos para a guitarra eram gotas de água caindo, a batida do seu pé no palco marcando o ritmo e uma atmosfera quase mística a envolver todos os presentes. Espiritual, humilde, sábio e encantador – Estas Tonne chegou, tocou e venceu. Poucos podem ter ficado indiferentes ao que assistiram.

Num pequeno aparte, é natural que os fãs portugueses tivessem ficado chocados por o famoso músico de rua ter dado um concerto numa sala de espetáculos tão elegante. Ele próprio o afirmou em palco: “Um casino, estamos num casino. Mas a questão não é onde estamos mas a nossa atitude em relação a isso.”. E, sem dúvida, a música entra em qualquer ouvido, em qualquer lugar. Obrigado, Estas Tonne, por uma noite única – e obrigado, Working with Satya, por a terem tornado possível.

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