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CRITICADISCOS

James Blake: “The Colour In Anything” é para se sentir

James Blake
“The Colour in Anything”

🎹 🎹 🎹 🎹

(4/5)

por Mónica Ferreira

Antes de nos lançarmos na sonoridade do disco, há que focar na capa: tons cinza, uma mulher nua quase que incorporada numa árvore. Só aqui já nos dá a entender que vamos estar perante o fim de um relacionamento ou um amor não correspondido.

Ainda há quem não conheça James Blake mas a verdade é que em cinco anos foram lançados três discos e isso foi o suficiente para elevarem o músico inglês a poeta. Ele tem o dom de conseguir transmitir, através do piano, sentimentos e emoções, para além de misturar sons eletrónicos sintetizados.

Radio Silence“, tema que abre “The Colour in Anything”, já nos é bastante familiar, afinal de contas ele já foi tocado em vários espetáculos como, por exemplo, no NOS Alive no ano passo. Este é o primeiro sinal de que este disco é, mais do que ser ouvido, para ser sentido.

Tal como nos dois primeiros discos, este mostra-nos que Blake tem muito para nos dizer mas em “The Colour in Anything” ele abusa das repetições, dos loops, sem que se tornem cansativos para o ouvinte. Portanto pode-se até dizer que é mais do mesmo mas com uma maior abrangência visto que a música parece que nos percorre o corpo.

Timeless“, com melodia mais escura, mais forte, onde as variações dos sons sintetizados, as misturas, os loops, nos fazem antever um aumento de tensão, tornando-se numa canção bastante “pesada” que acaba por nos deixar com a sensação de que estamos a sufocar. Segue-se “F.O.R.E.V.E.R.” e aqui tornamos a ver que James Blake funciona também quando está só acompanhado do piano.

Todo o disco gira em torno do coração partido, do amor não correspondido mas que nos vai falando de uma espécie de evolução, de desprendimento sentimental e acaba de forma exímia com “Meet You in the Maze”, que nos traz logo à memória “Mesurements”, onde os versos estão separados por minúsculos segundos de silêncio que nos fazem mesmo pensar num “adeus”.

De um total de 17 canções, há que dar o devido destaque a “I Need a Forest Fire“, onde a voz de James Blake se funde com a de Justin Vernon dos Bon Iver. Uma brincadeira de abuso de falsetes, misturados com uma batida calma e soberba, que elevam a experiência que é “The Colour in Anything” ao seu expoente máximo.

Neste disco James Blake brinca, tal como nos discos anteriores, com loops, synths, baterias eletrónicas mas introduz o R&B e Soul numa mistura que resulta numa experiência nada descuidada, com escolhas delicadas e inteligentes com aquele toque suave que a sua voz e o piano traz. Um risco experimental muito bem sucedido.

São 80 minutos, 17 canções a contar uma história, envoltas numa melancolia e tristeza que nos fazem entrar numa espécie de estado depressivo mas repleto de sentimento. Este terceiro disco foi feito, sem dúvida, para ser sentido mas não cansativo.