João Arezes apresenta ISAAC GRACIE

A música de Isaac Gracie em ‘lista de espera’ para saltar o muro da pandemia…
João Arezes apresenta ISAAC GRACIE

O perfil pode definir-se como uma mescla de hippie com uma pitada de dandy. Alto, elegante, cabelo louro a descer-lhe até bem abaixo do nível dos ombros, às vezes apanhado, não raras vezes ostenta um crucifixo de dimensão insinuante, a roupa é, as mais das vezes, informal, com túnicas e ganga qb. Uma panóplia de qualificativos para descrever as características de um dos músicos cuja promessa de um estrelato nos palcos iria emergir em breve, afinal para uma concretização plausível de todas as expectativas que nele se depositavam, não fora uma pandemia que lhe cristalizou o reconhecimento do talento inato: tanta coisa para falarmos de Isaac Gracie.

E se o jovem músico britânico é apenas um entre muitos artistas que engrossam as fileiras daqueles que o coronavírus deixou em lista de espera para um (e)iminente despontar, a verdade é que os apreciadores de boa música alternativa também ficaram a perder por este hiato cronológico de desconhecimento do seu valor.

Isaac Joseph Gracie-Burrow, nome completo do cantautor, é um filho de Ealing, na zona Oeste de Londres, onde nasceu há 26 anos. De inspiração precoce, começou a escrever as primeiras letras e a compor canções com apenas 14 anos, a vertente poética é tributária da influência da mãe, Judith, poetisa de créditos firmados. Era ainda criança quando passou a integrar o coro masculino da Paróquia de Ealing, um daqueles agrupamentos vocais que possuem o cunho de uma imagem de marca identitária das abadias britânicas.

Com um devoto e manifesto interesse pelo estudo da Literatura Inglesa e Escrita Criativa, tópicos que aprofundou através da frequência académica da University of East Anglia, Isaac foi ganhando em simultâneo estaleca e maturidade musical. De entre as vozes que se tornaram o seu mote de inspiração contam-se Leonard Cohen, Jeff Bucley, Bob Dylan, Nick Drake ou os Radiohead, uma trupe de respeito, diga-se em abono da verdade.

Em 2015, arrisca a entrega de uma demo artesanal, tão típica das bandas de garagem, à BBC. Estava dada a centelha a “Last Words”, que foi, por paradoxo, a génese do percurso musical de Isaac Gracie. A voz encorpada e a guitarra afirmada colheram os primeiros aplausos de melómanos do meio musical, a sugestiva e reflexiva condição existencial do músico, sem enveredar pelo facilitismo lamechas conquistou os primeiros apaniguados, que chegaram até ele por via das referências elogiosas em publicações e os vídeos de 2016 em que o artista surge no palco da BBC Music Introducing.

No ano seguinte, Gracie assina com a Virgin EMI um contrato para a gravação de um disco sob tutela desta major. O álbum de estreia surgiria em 2018, resultado de muito empenho e labor ao longo de toda a cronologia de 2017. Em “Isaac Gracie” (2018 ) há toda uma entrega dorida matizada nas letras, aquilo que quase se poderia designar via vox populis por ‘dor de corno’, canções muito marcadas pela emoção da perda de um amor, do isolamento e da solidão, mas há nelas um friso para um feixe de luz e esperança, o impulso para o haraquíri está ainda distante.

Em 2018, para além das naturais aparições no Reino Unido, Isaac faz incursões até diversas coordenadas europeias à boleia das conhecidas First Aid Kit, sendo ele o músico suporte da dupla, em França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Suíça. O ano seguinte é o da “Muralha da China”, que ele ‘derruba’ com um bom par de concertos numa digressão que leva às principais cidades como Pequim e Xangai, em dois périplos distintos: um em Abril e o outro em Julho, com direito a salas cheias e a audiências perenes de entusiasmo. O território dos EUA é também por esta altura um alvo atingir, com um espectáculo em Phoenix.

Até poder fazer a travessia das Ilhas Britânicas para mostrar o que faz melhor, oferecer a generosidade do seu CC – leia-se Canto & Cordas – o rapaz louro de ar desalinhado mas estiloso, faz como os outros, vai tocando em directo para os fãs através de concertos através da rede social Instagram, como de resto aconteceu no primeiro dos confinamentos. O sítio na rede do criativo músico é minimalista (https://www.isaacgraciemusic.com/) e as sugestões dos vídeos que aí se encontram equivalem ao percurso que trilhou. Sugerimos “Last Words”, pelo simbolismo, “Terrified”, pela veemência da catarse e “Running on Empty”, filmado numa casa que pertenceu aos Led Zepplin.

Ficamos todos à espera que “Songs in Black and White (live from the waiting room)”, EP gravado ao vivo em 2016, e o álbum em nome próprio “Isaac Gracie” (2018), em conjunto com alguns novos temas do repertório do autor possam ter melhor sorte em tempo pós-Brexit e pós-pandemia, nós merecemos e cantautor por certo concorda.

João Arezes

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