Kamasi Washington entre a terra e o céu

Fez do “Hard Club” a sua casa e deu a provar ao publico o poder do universo em harmonia.
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Kamasi Washington é um compositor, saxofonista e produtor musical de Los Angeles, com raízes profundas na melhor tradição clássica do jazz negro, e influências contemporâneas do rap do gueto. Ao longo do tempo tem tocado com artistas tão influentes quanto diversos, como Herbie Hancock, Snoop Dogg, Flying Lotus, Thundercat e Kendrick Lamar. Em 2015 Lançou o álbum a solo “The Epic”, e em 2018 “Heaven and Earth”, ambos de uma conceptualidade peculiar. Em 2019 foi nomeado para os Brit Awards na categoria de melhor artista individual internacional

© António Cochofel

Na noite de 10 de maio de 2019, faz da sala 1 do “Hard Club” a sua casa. É um homem enorme, de penteado afro hirsuto sem limite fronteiriço com a barba e vestes étnicas aveludadas, paradoxalmente revestido por uma aura de humilde serenidade. Não veio sozinho: trouxe a excelência de Brandon Coleman nos teclados, a dinâmica Ryan Porter no trombone, a perícia de Ronald Bruner e Tony Austin em duas baterias, a mística Miles Mosley no contrabaixo, e a sabedoria do seu pai, Rickey Washington, na flauta transversal.

A introdução fica a cargo de “Journey” uma toada que começa suave como uma almofada de penas de ganso, e vai ganhando sons, asas, e uma vida própria à medida que são adicionados instrumentos, até se derreter na fusão dos metais com a percussão. É uma musica rapioqueira, que palra sem guiões nem pautas, e nos puxa para dentro dela à maneira de uma vizinha afetuosa.

© António Cochofel

Kamasi explica que “Vi Lua, Vi Sol”, se inspira numa brasileira que viu dialogar com a lua num português indecifrável. O tema tem uma entrada atmosférica, mas ganha um ritmo dançável de bossa nova, sublinhado pela vocalização de Brandon Coleman, que se entrega a um solo de teclas e voz que mobiliza toda a audiência. Há um magnetismo inexplicável na forma como o som vibra desde as veias dos artistas até aos ouvidos da assistência. Segue-se “Abraham”, a obra prima de Mosley, em que o conceito de linha de baixo é substituído por um delírio de mãos e cordas que faz o contrabaixo soar como um sintetizador. Todo os músicos se afastam, a criar espaço para que a melodia se espreguice, e aguardam que ela convide a bateria e os teclados. Mosley junta-lhe uma voz de free jazz do Mississípi, os metais não conseguem evitar mitra-se, em modo jam session, que o publico acompanha com oh-oh-oh-ohs libertadores do espirito.

“Truth” é repescado do EP de 2017 “Harmony of Difference” com um prólogo sobre a diferença entre tolerar e celebrar a diferença, entre conformar-nos com a diversidade e amarmos essa diversidade. Para ilustrar a beleza da disparidade, o tema compreende cinco melodias independentes, tocadas ao mesmo tempo por diferentes instrumentos, e unidas nos desacertos dos contratempos. Os artistas dão vida a um arco iris de blues, funk, jazz, hip-hop, e experimentalismo étnico, que termina num caldeirão dourado de groove épico. A cumplicidade entre eles cintila e ilumina a sala, acordando sorrisos.

© António Cochofel

Kamasi passa a palavra a Ronald Bruner e Tony Austin, para o diálogo de baterias “Drums”. São dois atletas olímpicos do instrumento, que tocam à desgarrada alternando sprints à velocidade da luz com maratonas de endurance, antecipando os movimentos recíprocos, sem nunca se pisarem, sem nunca se abafarem, numa peça de imponência assombrosa.

“The Space Travellers Lullaby” é dedicado a todos os que têm a capacidade de sonhar acordados, e a coragem de viajar para dentro desses sonhos. A melodia diáfana, vai subindo degraus translúcidos até ao primeiro patamar de um solo de trompete, onde se detém e ganha fôlego, para continuar até ao pináculo, onde é raptada pelos teclados, que a revolvem e devolvem aos restantes instrumentos, despida, desmaquilhada, e na pureza da sua essência. Comovente.

O fecho fica a cargo de “Fist Of Fury”. A entrada minimalista do saxofone e contrabaixo ganha determinação com a adesão das baterias e teclado, e adquire contornos de musica de intervenção, com uma vocalização poderosa sobre justiça e retribuição. As almas dos artistas a transpiram, transpondo para o universo os alicerces rítmicos e melódicos que suportam a sua existência. O efeito é poderosíssimo, e eleva as consciências até frequências inexploradas, a partir de onde as conduz para o interior de si mesmas. O final é apoteótico e deixa o publico suspenso no teto do recinto, sem saber como regressar com os pés ao chão para se reenraizar.

© António Cochofel

Kamasi Washington confirma-se como um dos músicos de referencia da atualidade, não só pela mestria técnica, mas também pela falta de preconceitos com que absorve e somatiza influencias improváveis, e sobretudo pela fluidez da a seiva musical que lhe escorre por todos os poros.

Kamasi Washingtongaleria completa

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