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Kamasi Washington toca a diversidade que nos une

Kamasi Washington toca a diversidade que nos une

Rita Matias dos Santos
Rita Matias dos Santos
Após 6 anos exilada em Paris, Rita regressa à pátria persistindo contra todas as marés no seu sonho de escrever sobre música. Pelo menos da parte da tarde.
Earth and Heaven é apenas um capitulo da história que Washington conta.

Quando foi anunciado pela primeira vez que Kamasi Washington daria dois concertos em Portugal, esperava-se a apresentação do segundo genial álbum de estúdio do artista norte-americano. Quando finalmente aconteceu no passado dia 11 de maio no Lisboa ao Vivo, chegámos à conclusão que Earth and Heaven é apenas um capitulo da história que Washington conta.

É através dos mitos que se explicava o mundo num tempo onde nada se conhecia. Era brincando com o imaginário que se forjava uma identidade coletiva, um historial que respondem às perguntas básicas com as quais nascemos, seja qual for o nosso tempo. Apesar da sua estrutura estática, todos os mitos requerem a sua própria conclusão, traduzindo de maneira subtil uma moral, uma definição do certo e do errado e seja a grega, romana ou ainda católica, todas as mitologias têm os seus heróis: Hércules, Abel e Caim ou ainda Dionísio. Mas o que define um herói?

© Mia Perrson

Tal como marinheiros e ninfas, a presença de Kamasi Washington em palco é irrefutavelmente cativante. A cada nota soprada o convite torna-se mais intenso e a mensagem mais clara. Não seria apenas um concerto de jazz onde se ansiava um longo e criativo improviso de saxofone, tratou-se certamente, do primeiro momento do concerto à última nota soprada, de uma rebelião de emoções incontrolável numa ode à diversidade, à união e à beleza. Como o próprio afirmou em placo: “Diversity is not something to be tolerated. Is something to be celebrated.”

Apesar de o grande nome da noite ser o saxofonista norte-americano, o próprio partilhou o palco de forma humilde e entusiasmante com os seus colegas e familiares. Inicialmente podia-se achar o palco do Lisboa ao Vivo pequeno para o tamanho da banda que se compõe pelas duas baterias de Ronald Bruner Jr e Tony Austin que providenciaram um dos melhores momentos do concerto com uma clássica drum battle rigorosa e experimental. No contrabaixo, Miles Mosley, fez magia ultrapassando as expectativas, mesmo altas que fossem, para o meu momento a solo. A linha da frente era de peso, tendo Kamasi Washington a seu lado o pai Rickey Washington, a tocar flauta transversal e Ryan Porter no trombone. O teclista Cameron Graves arriscou e navegou por marés mais sintetizadas resultanto num sucesso eclético e inspirador. Nesta amálgama de compassos e descompassos, Amaya Washington, a irmã de Kamasi, ocupou-se de dar voz e vida às letras das canções, ou ainda evocar frases ativistas de arrepiar. Durante todo o concerto fez questão de traduzir corporalmente os efeitos sonoros da pequena orquestra guiada pelo maestro Washington.

© Mia Perrson

Foram muitos os que se deixaram entrar num transe penetrante em canções como “Connections”, ou ainda “The Psalmnist” do trombonista Ryan Porter, em que Washington antecedeu o desafio de descobrir as pequenas particularidades da música. Mas foi com “Street Fighter Maas” que Kamasi e os seus camaradas de viagem cósmica regressaram ao palco para um encore exigente.

Se houvesse uma mitologia universal, Kamasi Washington seria o herói da procura do sentido, as suas músicas ninfas que levam o corpo a estados inconscientes puramente sonoros e os seus concertos cerimónias em que através do jazz se transmitem mensagens de cariz moral, ensinando que “we dont have to be the same to be one” [“não precisamos de ser iguais para sermos um”]. As profecias cumprir-se-ão e Kamasi Washington voltará para elevar as sonoridades do jazz ao mais alto nível da sua genialidade, evoluindo para o estatuto de lenda musical contemporânea.

Kamasi Washington – galeria completa

Rita Matias dos Santos
Rita Matias dos Santos
Após 6 anos exilada em Paris, Rita regressa à pátria persistindo contra todas as marés no seu sonho de escrever sobre música. Pelo menos da parte da tarde.