LOW ROAR SOA A INSTINTO BÁSICO

LOW ROAR SOA A INSTINTO BÁSICO

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
Concerto, monólogo, convívio, discos pedidos, stand up: tudo ao mesmo tempo, a parar o tempo.

A 13 de fevereiro de 2019, Ryan Karazija ocupou a sala 2 do Hard Club do Porto, com o seu exotismo aciganado envolto num conjunto de algodão preto, rematado numa ponta por sapatos de funeral sobre peúgas brancas, e na outra por um chapéu de feltro que completava o percurso oval de um colar dourado. As mãos exibiam uma miscelânea de tatuagens e anéis, e seguravam uma garrafa de vinho tinto e um copo de pé alto. No palco, dois microfones, duas guitarras acústicas e um teclado.

© Teresa Mesquita

O californiano que completa no próximo mês 37 anos, em 2010 trocou Santa Fé por Reiquejavique, abdicando do celibato pelo casamento e investindo no projeto musical “Low Roar”. Gravou os reconhecidos longa duração “Low Roar” (2011) e “0” (2014 ), mas “Nobody Loves Me Like You” assinalou o fim do matrimónio e do sonho islandês. Curou a ressaca amorosa em deambulações pelos países nórdicos e assentou na Polónia, onde editou o terceiro álbum “Once in a Long, Long While…” (2017). Apresenta-se em Portugal desacompanhado dos outros membros da banda, num formato inusual de alguma vulnerabilidade.

© Teresa Mesquita

Chega em passo lento, bebe um lento golo de vinho, veste uma guitarra, e entrega-se a um desempenho assombroso de “Friends Make Garbage (Good Friends Take it Out)”. Vai-se afastando lentamente da captação do som, e a ultima parte é cantada sem microfone e sem instrumento, apenas a projeção natural da voz a paralisar cada átomo do recinto. Terá havido palmas? Ou o efeito da voz transparente e segura tolheu a audiência de qualquer reação? Ryan quebra o gelo com o esboço de um sorriso, e esclarece que a set list será determinada pelos pedidos do publico e pelas suas capacidades limitadas, e a monotonia quebrada por insights sobre cada tema. Lança-se em “Just a Habit” servindo-se da guitarra para, simultaneamente, dedilhar as cordas e marcar a percussão, e explora a dualidade dos microfones: um é neutro, o outro distorcido. Transita para o piano, e explica que vai tocar o tema seguinte tal como foi concebido no sofá, antes de entrar no estúdio levar uma patine de efeitos que tornaram a melodia primitiva irreconhecível. Com as teclas e a garganta desvenda toda a carga emotiva de “I’ll Keep Coming” que, na versão gravada, está escondida por instrumentalizações e samples. A audiência aconchega-se à tranquilidade emanada pelo musico, arrisca a interação, e pede “Easy Way Out”. Ryan elucida que o tema nasceu de uma discussão com a ex-mulher, e interpreta-a em modo trifásico: com guitarra, com piano, e à capella. Revela que está a trabalhar num disco novo tão melancólico como os anteriores porque lhe falta a aptidão para captar a sonoridade alegre do universo e convertê-la em rap, hip-hop, funk, pop ou rock. Apresenta um tema em construção. Faz uma pausa confessional sobre a relação conflituosa com o pai, e desenrola uma valsinha inspirada num diálogo imaginário entre ambos. Recupera a primeira musica do segundo álbum, e expele “Breathe In” bem lá do fundo das entranhas, a modelação do som percorre o recinto e a é inspirada por todos e cada um.

Pergunta se pode tocar “Bones”, e convida quem quiser a juntar-se a ele no dueto. No silencio dos voluntários, Ryan senta-se ao piano e entra num registo teatral, entoando a primeira estrofe num tom superlativamente grave, a segunda num falsete irrepreensível, e a partir daí saltitando entre um e outro ao ritmo da boa disposição, atropelando notas com risos, aqui e ali. O humor derrete a membrana que o separa do publico, “cause you’re a part of me, and i’m a part of you”, instila confiança, e torna claro que todos gostaríamos de nos ter sentado com ele aqueles três minutos. Volta à guitarra, ausculta várias opções e detém-se em “Waiting (10 years)”, antecedida de uma negação do conteúdo sexual de “nine months since I licked you clean”, e seguida de uma nota de rodapé sobre a mãe a propósito de “mamma blessed me with confidence”. Introduz mais dois novos temas, um dos quais batizado com o numero do autocarro “222”, ambos belíssimos, ambos etéreos. Pede permissão para “Gosia”, composta em homenagem a uma paixão que o trocou por um amigo, e faz descer um manto de nostalgia sobre a sala, acentuado de cada vez que abandona a guitarra, e se apoia em exclusivo na vocalização. Recorre ao piano para “Vampires on My Fridge”, título sugerido por um desenho da família colocado pelo enteado no frigorifico em que ele detetava traços vampirescos, e que é a terceira vez na vida que toca sem banda de apoio.

© Teresa Mesquita

Na reta final, homenageia a Taylor que escolheu por se ajustar à sua baixa estatura, e engordou com um encordamento de 13, e a Martin que se mantem de plantão, cujo som é de superior qualidade mas o tamanho obrigá-lo-ia a tocar sentado. A insistência do publico leva-o a despedir-se com “Give Up” e a esperança de que, se um puto inadaptado tem o privilégio de estar aqui hoje e agora, tudo é possível. Para o encore fica a doçura de “St. Eriksplan” e a certeza de que ninguém sai incólume da experiência.

Ryan Karazija tem aquele saber estar americano que elimina o fosso entre o palco e o público, e pratica um minimalismo essencial, canalizando a musica como meio de expressão de emoções que atingem o destinatário no umbigo e o puxam até ele. Nada falta, nada sobra, está perfeito.

Low Roargaleria completa

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.