Márcia: o poder da palavra que vai, vem e fica

O Capitólio esgotou para ouvir Márcia, na apresentação de “Vai e Vem”, o quinto trabalho de estúdio da compositora lisboeta.

As primeiras batidas dos calmos Mil Anos fizeram burburinho no Capitólio e revelaram Márcia ao fundo do palco. Já perto do público, o ritmo começa a surgir mais presente com Manilha, jogada mais que certa. Com o botão do humor ligado (e que ficaria assim toda a noite) interpela o público e anuncia a Tempestade, o primeiro single do novo álbum. A atuação cuidada revela projeções em fundos geométricos intercalados de paisagens naturais, florestas, folhas e a voz límpida de Márcia.

Em 2017, Márcia participara no Festival da Canção RTP. Agora decidira incluir o tema no disco, que diz ter sido uma das músicas que inspirou a sua escrita desde então. E ainda bem que o fez. Continuando no Corredor do alinhamento, dedica o tema à sua sogra, “não pela letra” – afirmação bem vincada para evitar confusões de famílias e matrimónio – mas por ser o seu preferido. Um momento que, com aviso da própria, “aumenta o volume” e faz mexer a sala com acordes de guitarra fortes, marcados pelo brilhante jogo de luzes apenas recuperando o fôlego num Tempo de Aventura.

© Joana Martins

Regressa ao disco anterior para o Lado Oposto, na confissão de ter tido “pena de não ter sido single” mas que sabe que os presentes vão estar do lado certo. Retira-se antes do tema terminar para o momento mágico que se seguia. Ao som do piano surgem duas vozes de duas silhuetas visíveis ao fundo do palco: Márcia e o amigo de longa data, o músico Samuel Úria. O Capitólio calou-se e escutou a beleza singular da união de vozes e o poema marcante de Emudeci. Regressados das sombras, escolhem voltar ao “Casulo” de 2013 e dançam com Menina, livres e metamórficos.

© Joana Martins

Com amigos da indústria na casa, aponta o dedo a Tiago Bettencourt na primeira fila, começando aqui o despique com o músico que nunca mais parou, sendo ele o protagonista de tudo o que Márcia se fora lembrando de imaginar. O público estava nas suas mãos com tamanha boa disposição. Passada a Linha de Ferro, que juntou na versão de estúdio a intérprete e o brasileiro Criolo, agarra a guitarra para as próximas interpretações mais intimistas e a solo. Antes permite que todos filmem e fotografem o concerto e agradece o apoio e mensagens que confirmam a importância das suas músicas nas vidas de outros. Deixa-me ir concentra as atenções na mestria de letrista e na singularidade da voz de Márcia A Pele Que Há Em Mim recorda a plateia da melodia mais intemporal da sua carreira. Ainda em tom acústico, resgata o guitarrista – o marido Filipe Cunha Monteiro, do projeto Tomara – para o Vai e Vem do amor que se fez sentir na atmosfera do Capitólio. Com o público mais que rendido, Márcia consegue silenciar novamente a sala com o inocente e belo Pega em Mim, pérola maior do álbum.

© Joana Martins

No impasse da reta final, alegra a mais que feliz plateia com A Insatisfação e oferece o Bom Destino a todos os presentes – “costumo dedicar esta canção às boas pessoas e hoje dedico-a a vocês”. Após vários despiques ao longo da noite, finalmente convence Tiago Bettencourt a subir a palco, mas sem o brinde de um dueto. Ao invés, o amigo partilha a história “daquele bêbedo que existe sempre nos concertos de terras mais pequenas e que toda a gente olha e brinca ao longo do espetáculo” e agradece por, nesta noite tão especial, ter sido o “bêbedo” escolhido por Márcia.

© Joana Martins

Ao Chegar ao quase final, a cantora estreia-se no solo de guitarra com aplausos do público. Para o encore reserva a sua música preferida do disco, Amor Conforme, e fecha em festa com Samuel Úria e o público de pé para dançar à Cabra Cega.

© Joana Martins

Márcia tem já lugar consolidado no cancioneiro português. As letras levam quem as escuta e as pensa a lugares particulares, muito para lá do mundo da cantora. Essa mestria mais que comprovada pelos seus trabalhos de estúdio, é elevada no álbum “Vai e Vem”, editado em outubro, e no espetáculo que mostra a intérprete segura, solta e de voz marcante. O que se sente vai e vem mas fica sempre no interior de quem ouve Márcia.

Márciagaleria completa

Banda:
Márcia - voz/guitarra
Filipe Cunha Monteiro - guitarra
David Santos - baixo
Manuel Dordio - guitarra/teclados
Rui Freira - bateria
© Joana Martins
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