Miramar não é uma praia: é artesanato de cordas

Miramar não é uma praia: é artesanato de cordas

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
Frankie Chavez e Peixe lançam o álbum Miramar num concerto de referência na Casa da Musica

Joaquim Chaves e Pedro Cardoso, quando pousam os dedos sobre cordas de aço metamorfoseiam-se em Frankie Chavez e Peixe, e quando se juntam numa residência artística fundem-se em Miramar. O primeiro disco homónimo compila arranjos conjuntos para temas da autoria de um e de outro, e esteou-se ao vivo a 14 de março de 2019 na Sala 2 da Casa da Musica. O recinto foi convertido em plateia sentada, porque há sonoridades que precisam de três apoios e suportes de braços para aumentar o caudal que leva as sensações às emoções. Sobre o estrado, duas cadeiras perpendiculares à audiência e com um intervalo de dois metros entre elas, como antigas sacadas namoradeiras, destinadas a facilitar o diálogo entre os ocupantes. Ao redor, guitarras, pedais, monitores, microfones.

© Teresa Mesquita

Os músicos entram na sala cheia, calças aprumadas, pólos relaxados, Peixe de boné e Frankie de chapéu de feltro, ocupam os seus lugares em silencio, e cada um abraça uma guitarra acústica e procura o ajuste certo. O alinhamento vai seguir o guião do álbum, quase à risca, e cada tema será acompanhado por uma projeção vídeo da autoria de Jorge Quintela, e separado do seguinte por um espaço para troca de instrumentos e afinações meticulosas.

© Teresa Mesquita

Frankie dá o mote, e o calor estival “Pine Trees” dá-nos as boas vindas, sobre imagens vintage de famílias rurais. Peixe troca para elétrica, e veste “Guitarras” com uma elegância sublime, que realça as belezas de outrora que ornamentam os cenários citadinos multimédia. Peixe retoma a acústica, e abre as portas de “Canção Muda”, um western melancólico, um espaço amplo e inóspito de humanidade. Os instrumentos estabelecem um diálogo, uma negociação de fronteiras fascinante, em que a intervenção de cada um é sublinhada pelo outro, e catapulta o todo para um plano superior. “I’m Leaving” não deixa cair este ambiente: agarra-o com a guitarra elétrica de Peixe a lap slide de Frankie, e faz a transposição do deserto e para a ondulação marítima. A lap slide é um piano, e a elétrica umas vezes é baixo, outras vezes saltita nas ondas. Um assombro. Peixe regressa ao acústico, e enquanto aperfeiçoa as cordas a cumplicidade silente entre os artistas adquire uma dimensão palpável. Quando a lap slide estende um tapete de girassóis, a acústica conta a estória rapioqueira de “Despassarado”. Segue-se “Nazaré”, o tema que anunciou o álbum, e para o qual Frankie recorre à guitarra portuguesa com uma afinação aberta inovadora. Uma falha de cablagem permite repetir a introdução, pena terem sido apenas duas vezes e não três, ou quatro, ou cinco, tão bonita que ela é. Peixe entra com acordes de elétrica, primeiro minimalistas como as imagens a preto e branco que servem de fundo, e depois a agarrar a harmonia, a acelerá-la e a fazê-la subir, subir, subir, até um clímax final. A descompressão fica a cargo de uma divertida jam entre a lap slide de Frankie, e a elétrica sobrecarregada de efeitos de pedais de Peixe, coreografada pelo paradoxo entre a serenidade facial de um e a expressividade dos esgares de outro. “Unknown Friends” é um duplo registo acústico, uma encantadora valsinha de memórias de festas passadas, dedilhada com perícia exímia, entre sorrisos inadvertidos. Frankie pousa a lap slide no colo e leva-nos até um comboio, numa marcha ritmada em que Peixe faz as notas cantarolarem, entoarem versos e rimas. Frankie troca para acústica, e a dupla desfia “Jarmush”, o tema mais sedutor do álbum. É um convite de neons, uma névoa boémia, um pára recomeça sincopado, de um erotismo irresistível. Uma pausa para os agradecimentos da praxe, e os dois temas que faltavam pela ordem inversa do disco. “Pêndulo” é uma toada romântica, introspetiva e melancólica, em que cada um termina as frases do outro ao longo de um percurso rodoviário por planícies e vales. Sim, Teresa, é muito poético. “Ping-Pong” é alegria e brincadeira, é a felicidade dos olhos de uma criança, é a satisfação de Peixe a descompressão de Frankie a rematarem um concerto magnifico. O publico aplaude de pé, e recebe de bónus “Verdes Anos”, em acústica e lap slide a soar a harpa, um estamos aqui e viemos para ficar.

© Teresa Mesquita

A colaboração entre Frankie Chavez e Peixe congrega dois talentos gigantes, exponenciando o que cada um deles tem de melhor, numa lição de técnica e de arte sem paralelo. Continuem, façam mais, porque é assim que a musica merece ser tocada e sentida.

Miramar – galeria completa

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.