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Moonspell: ‘”Irreligious” foi o disco que se queria ouvir na altura’

Entrevista: Raquel Nunes Silva

Em 2016 comemora-se os 20 anos de Irreligious, o segundo álbum dos Moonspell. Para celebrar, a banda de metal gótico vai estar hoje, dia 2 de Dezembro no Multiusos de Guimarães e no dia 4 Fevereiro no Campo Pequeno em Lisboa.

O álbum Irreligious será tocado na íntegra e por ordem, mas os Moonspell não se ficam por aqui! A Imagem do Som esteve à conversa com o Ricardo Amorim e com o Pedro Paixão que nos desvendaram um pouco mais daqueles que serão os espectáculos comemorativos de um álbum que chegou à Prata e ao Mundo.

1. O álbum Irreligious foi o vosso segundo álbum de estúdio lançado em 1996, e em Portugal atingiu disco de prata. Foi considerado um dos mais importantes álbuns dos anos 90, no panorama discográfico nacional. Se fosse hoje, e dada a mudança da indústria musical nomeadamente com a crescente importância das redes sociais para a divulgação de bandas, acham que o Irreligious teria o mesmo impacto?

Ricardo Amorim – O Irreligious teve o impacto e o sucesso que teve não pela forma como foi divulgado mas pelo disco em si, porque se calhar foi o disco que se queria ouvir na altura. O gótico estava a ganhar muita força na Europa e nós aparecemos com um disco na altura certa.

Pedro Paixão – Havia uma corrente artística que nos facilitou esse sucesso. Eu acho que os álbuns que têm sucesso têm-no sobretudo pelo timing em que são feitos. Todos nós temos relíquias nas nossas prateleiras, excelentes álbuns de bandas que gostamos mas que nem por isso tiveram muito sucesso comercial. O Irreligious até podia ser uma dessas relíquias se fosse lançado hoje, mesmo tendo a mesma promoção. Eu acho que quase sempre os sucessos têm a ver com a qualidade dos álbuns mas sobretudo com o tempo em que são lançados.

2. Em Portugal, e para a maioria das pessoas, a palavra underground é sinónimo de não sucesso. Como é que vocês fizeram para contrariar esse conceito?

Ricardo Amorim – Pessoalmente, acho que nós não quisemos contrariar conceito nenhum (risos), e nem tão pouco nos preocupamos com isso. Acho que se vendem tantos discos no underground como se vendem no mainstream. A diferença tem a ver com a exposição porque se é mainstream está-se exposto a todo o mundo, e o underground é um circuito mais restrito, obviamente. Mas também não acho que nos tenhamos enquadrado de uma forma extrema no underground ou no comercial, nós sempre oscilamos um pouco entre esses dois conceitos que vocês falam. É a nossa forma de estar e é assim que nós procuramos fazer música. Estamos mais preocupados em chegar às pessoas não por serem do underground ou por serem do mainstream. Música é comunicação, e nós queremos comunicar.

3. Acham que as bandas de metal e por não atingirem massas, tem que adoptar uma postura ainda mais profissional para serem levadas mais a sério? Isso aconteceu convosco?

Pedro Paixão – Nunca tivemos outra banda que não a de Metal (risos), portanto dificilmente conseguiria avaliar se as pessoas são mais julgadas ou não. Mas dentro dos nossos contactos e amizades, sinto que a pressão e a obrigatoriedade de uma atitude profissional é transversal a todos os estilos de música. Tem muito a ver com o comprometimento dos elementos da banda e a sua ambição do que propriamente com o estilo. Agora, de facto no Metal nós temos encontrado inúmeros exemplos de bandas que são negadas e que por esforço e dedicação tem conseguido chegar a patamares mais elevados que o próprio estilo nos faria pensar.

4. Alguma vez se sentiram condicionados na maneira de fazer música? Preocuparam-se em fazer singles para rádio?

Ricardo Amorim – Se nos sentimos condicionados é porque somos nós próprios que metemos essa pressão e passa mais pelo tempo em que temos de fazer um álbum ou a direcção em que queremos levar. Essa ideia sai sempre do seio da banda, normalmente. Nunca sentimos muita pressão por parte das editoras, felizmente. Sempre confiaram em nós, e nós assumimos sempre inteira responsabilidade de um álbum ser bom ou não ser bom. Singles… É sempre a cara do álbum mas nós estamos mais preocupados no álbum total, e é isso que nós queremos que as pessoas absorvam. Não sei, é complicado.. Porque por vezes lançamos um single que não agrada muito as pessoas mas depois o resto das pessoas gosta muito do resto do álbum. Enfim, o nosso público é bastante ecléctico e temos pessoas que gostam das diferentes fases dos Moonspell. O single pode ser importante para apresentar um novo disco, mas não achamos que seja um objectivo obrigatório.

Pedro Paixão – O conceito de comercial é muito volátil porque no nosso caso e no do metal em geral, há músicas que nunca nos fariam pensar que tivessem sucesso. Lembro-me por exemplo dos Opeth e dos estilos que não respeitam aquelas chamadas regras do chamado single de música comercial e no entanto têm sucesso. Eu não consigo perceber bem o conceito de comercial porque tal como disse anteriormente acho que tem mais a ver com a tendência do público, ou seja, é a tendência que torna as coisas comerciais ou não, mais do que a música em si.

5. Ao longo destes muitos anos, como consideram ser a vossa relação com a imprensa nacional? Acham que houve algum momento em que passaram despercebidos?

Pedro Paixão – Sim, acho mesmo. Nós já tínhamos feito inúmeros “Feitos”, passo o pleonasmo (risos) e que foram completamente ignorados. Eu lembro-me perfeitamente de uma notícia, há mais de 10 anos atrás, que o David Fonseca tinha ido tocar ao Borderline quando nós já o tínhamos feito há inúmeros anos atrás; ou os Buraka Som Sistema foram tocar ao Roskilde que é um festival de renome na cena internacional mainstream e eles tocaram muitos anos depois de nós tocarmos. Quer dizer, não estou com isto a criticar os artistas, fico contente que eles tenham esse sucesso e que consigam ter a exposição lá fora porque isso melhora a vida de todos nós. No entanto, respondendo directamente à pergunta acho que nós fomos desprezados durante muito tempo por um conceito de nicho de mercado. Por muitas vezes nem sequer verem que Moonspell fez coisas incríveis e que tocamos em inúmeros países (alguns deles improváveis), e a imprensa durante muitos anos não viu isso, nem que nós éramos o elo de ligação de muita gente para com Portugal.

Hoje em dia, não. Nós já temos uma cobertura dos media, apesar de ainda haver muitos preconceitos comerciais, mas a exposição noticiosa já está ao nível que nós merecemos e as pessoas podem não conhecer a música de Moonspell mas sabem que Moonspell são uma referência internacional e que tem público internacional que não se cingem a tocar só para imigrantes mas sim que tem um impacto internacional que deveria ser um orgulho para muita gente. Hoje em dia acho que já há uma exposição proporcional à nossa dimensão.

6. O Irreligious foi o primeiro álbum gravado em estúdio com o Ricardo Amorim na guitarra. Algumas músicas ainda hoje são hinos do metal cantadas ao vivo. Ricardo, ainda te lembras da guitarra histórica usada na gravação do álbum?

Ricardo Amorim – Lembro. Foi uma Gibson Les Paul Studio. Foi a minha primeira guitarra a sério, fiz algumas tournées com ela e gostei muito de a usar no Irreligious. É uma guitarra que estimo muito, foi-me oferecida pelos meus pais. Está lá em casa, já não vai para a estrada (riso).

7. Futuramente, e depois do lançamento de Extinct estão a pensar fazer um EP inteiramente cantado em português, sendo o tema central o sismo de 1755. Acham que o vosso público no estrangeiro vai aderir bem a ideia desta exportação da língua portuguesa?

Pedro Paixão – O EP já está gravado e correu tão bem que foi estendido para um álbum porque achamos que era uma peça preciosa de mais para ser lançada só no formato de EP que não tem a exposição que merece. Em relação à utilização da língua portuguesa no álbum, não acho que seja um entrave mas vamos ver. É um desafio para o público internacional, mas hoje em dia há muitas bandas a cantarem na sua língua nativa. Quer pelo acontecimento que aconteceu aqui em Portugal, quer pelo desafio artístico, decidimos atacar desta forma o novo álbum (e não por pressão exterior mas vontade interior da banda).

8. No próximo mês de Dezembro e Fevereiro, vocês vão tocar na íntegra o álbum Irreligious nos concertos de Guimarães e Lisboa, respectivamente. Vão também tocar músicas do Wolfheart (1995) e Extinct (2015). Querem-nos adiantar um pouco do que vai acontecer nessas noites de celebração?

Ricardo Amorim – Vamos tocar os três álbuns. Vamos ter três Palcos Diferentes, Certo?

Pedro Paixão – Certo. É uma trilogia e como tal, vamos ter diferenças de cenário. Vão ser três capítulos da nossa história expostos ao vivo, e que acabam por ter outro impacto. Nas bandas das quais sou fã, eu gosto de ouvir um álbum completo e na ordem que ele existia como peça ou como obra de arte, e aqui fazemos uma trilogia de álbuns marcantes neste momento. O Wolfheart como um trampolim para o Irreligious; O Irreligious o álbum que nos deu asas e finalmente o presente: Extinct em que podemos ver como se deu o progresso da banda e que acaba por ter uma certa continuidade com os outros dois.

Temos a participação da Crystal Mountain Singers a cantar connosco; uma artista convidada que é a Mariangela Demuntas dos Tristania que se vai juntar a nós no set do Irreligious; vamos ter pirotecnia e vamos esperar sobretudo que haja uma química fantástica com o nosso público porque pelo menos entre nós e, quando tocamos estes álbuns mais antigos completos, nós ficamos totalmente imbuídos com o espírito de cada álbum.

9. Querem deixar uma mensagem ao vosso público de Portugal, e também eles leitores da Imagem do Som? 

Ricardo Amorim – Um grande abraço a todos, se puderem apareçam nos nossos espectáculos, nomeadamente dia 2/12 em Guimarães e dia 4/2 no Campo Pequeno em Lisboa. Vão ser concertos importantes, grandes e se forem esperamos que gostem bastante.

Pedro Paixão – E sobretudo participarem nestes espectáculos porque vão fazer parte de uma futura edição em DVD.

Ricardo Amorim – Muito Obrigado a Todos. Grande Abraço.

Pedro Paixão – Abraço.