Música, Vinho e Amizade

Abram alas, agarrem a prancha, o ukulele e rejubilem pois ele regressou! A notícia da decima-primeira vinda de Eddie Vedder a Portugal não foi recebida com o “morno” tipico
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Abram alas, agarrem a prancha, o ukulele e rejubilem pois ele regressou! A notícia da decima-primeira vinda de Eddie Vedder a Portugal não foi recebida com o “morno” tipico dum público que se habituou a que determinada estrela regresse inevitavelmente a solo português de tanto em tanto tempo e que, até certo ponto, pode quase criar uma sensação de “too much” (os Metallica são outro exemplo – talvez). Bem pelo contrário: concerto esgotado, como se viu, quando muitos pobres diabos que chegaram atrasados tiveram sérios problemas em arranjar lugar sentado.

Tendo marcado a cultura portuguesa com Pearl Jam, a relação de Eddie com o nosso país sempre foi mais de amigo para amigo do que de estrela para público: e esta equação é claramente retribuída em carinho e respeito por parte do nosso simpático povo.

A primeira parte coube a Glen Hansard, nobre desconhecido do público português mas que, depois da sua actuação, talvez tenha conseguido mudar um pouco a sua condição de anonimato. Subindo “de peito aberto”, era curiosa a imagem quase frágil dum homem que sobe, sozinho!, ao palco para fazer a primeira parte duma super-estrela.

Bom, Glen provou-nos que frágil não é claramente um nome que lhe faça juz. Munido duma guitarra e duma pedaleira, pegou na mão de cada um dos presentes e, depois de a apertar delicadamente com uma primeira canção acapella, não teve pejo em partir-nos os dedos – todos, do polegar até ao mindinho.

Com melodias country/blues suaves, irrompia de súbito uma explosão gigantesca, graças a uma pedaleira absolutamente esquizofrénica, com a fúria de todas as chamas do Inferno apontadas a nós. Um turbilhão ruidoso e magnífico que deixou o Altice Arena boquiaberto e que o colocou certamente na lista de “Musicos a descobrir” de muitos dos presentes.

Talvez não se pudesse esperar menos dum homem que começou uma canção ao piano sobre o amor afirmando que este é uma coisa irracional. Mereceu cada aplauso que recebeu com uma prestação que, por vezes, raiou a loucura.

Agora um pequeno aparte e, digo-o com toda a consciência: talvez não fosse mal de todo proibir o uso de telemóveis em espectáculos deste género. Claro que levar tal ideia ao campo da prática é, praticamente, impossível, mas é inegável que os aparelhos se tornaram um verdadeiro inconveniente. Dou o exemplo: ainda a meio do concerto de Glen, muitos dos que chegaram atrasados não tiveram qualquer problema em andar com a lanterna ligada, a fazerem pontaria para todo o par de olhos que encontrassem, em busca dum oásis sentado. Compreendo a questão mas, talvez esperar que os olhos se habituem à escuridão quando entram, resolvesse o problema (ou, eu sei, ideia escandalosa: tentarem chegar a horas – era feriado, amigos).

Glenn Hansard Galeria Completa

O Altice não está absolutamente às escuras durante os concertos e é fácil de se ver que lugares estão livres ou não sem ter que ligar um farol e girá-lo como se quisessem salvar um barco do naufrágio. Feriu a experiência, não só para mim, como para muitos, como se ouvia pelos comentários. Foi, por isso, com certo alívio (mas também com certa dúvida em relação à sua eficácia) que o vosso humilde escriba viu aparecer no ecrã do palco uma mensagem a pedir que não se usasse o telemóvel durante o concerto, devido à “natureza íntima das prestações de Eddie” e por respeito para com as pessoas.

Bom, o público leu a mensagem e, pasmem-se, respeitou! Quando Eddie entrou em palco, depois de ser anunciado pelo conjunto de cordas composto por quatro músicos ao som de “Alive” (e com as palmas e os uivos que o momento exigia e justificava), os mini-écrãs pareciam ter ficado esquecidos (mais à frente, ressuscitaram mas por uma razão especial que, no momento oportuno, explicarei). “Far Behind” e “Just Breath” (numa versão lindíssima como muitas outras que se seguiram), foram o abrir da cortina – do concerto mas também da intimidade.

O concerto de Eddie não foi bem um concerto: é mais como se aquele nosso amigo surfista tivesse vindo ao nosso quarto (vá, neste caso um quarto gigantesco), pegasse na guitarra e começasse a cantar as nossas canções de adolescência (nostalgia tem aqui um papel marcante na atmosfera que se viveu), enquanto partilha um copo de vinho connosco (Eddie, na verdade, partilhou vinho com o público, tendo-o também bebido e acabou depressa. Foi preciso outra: “Oh, it’s a two-bottle night”, como o próprio afirmou). Depois de nos falar num português esforçado e que, tendo noção das suas lacunas, soube usá-las em proveito cómico que derreteu o publico) as pérolas começaram a rolar em direcção a nós.

“I Am Mine”, a cover de Cat Stevens “Trouble” e maravilhosa (e hoje em dia talvez mais actual que nunca) “Whishlist”. Mais à frente, tocou uma das peças mais belas da sua constelação “Long Nights” (lembram-se da banda sonora dum certo filme que fez muito sucesso há uns anos chamado Into The Wild?) – numa versão que os violinos elevaram a um nível metafísico (e, para o vosso escriba, foi o momento favorito da noite).

“Black” fez os estragos que se esperava, com toda a gente a cantar com a obrigatória lágrima a espreitar no canto do olho ou, nalguns casos, a escorrerem livremente pelos rostos (eu falei da nostalgia – quem nunca ouviu esta canção sem pensar na “tal pessoa que ficou para trás”?). “Better Man” brilhou também, obrigatoriamente.

Depois dum “Jeremy” instrumental e sublime, tocado somente pelo quarteto, chegou-nos outro dos grandes momentos. Eu tinha dito que os faróis portateis voltariam à cena mas desta vez com uma boa razão: Eddie pede ao público que liguem as luzinhas para a próxima canção.

O público obedeceu e da noite fez-se dia ao som de “Imagine” cantado em uníssono por todos – momento muito belo, intenso e, sim, malditas lágrimas que não param. Eddie ainda cantou os parabéns a uma pequena no público, tendo-lhe depois oferecido a sua harmónica como prenda.

A elogiada banda-sonora de Into The Wild voltou a marcar presença com “Society” (brilhante) e “Hard Sun” (idem, amigos). Como tudo o que é bom acaba, acabou pelo menos, duma maneira esperançosa, ao som de “Rockin’ In The Free World” de Neil Young.

A minha lista de elogios não chega para fazer juz à experiência de amizade e partilha em que tivemos a honra de participar. Só podemos dizer: obrigado.

Eddie Vedder Galeria Completa

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