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Noname, menina prodígio da lírica no Lux Frágil

Noname, menina prodígio da lírica no Lux Frágil

Rita Matias dos Santos
Rita Matias dos Santos
Após 6 anos exilada em Paris, Rita regressa à pátria persistindo contra todas as marés no seu sonho de escrever sobre música. Pelo menos da parte da tarde.
Na Antiguidade, os saberes passavam de geração em geração através de uma composição lírica em versos.

A poesia era o meio filosófico de explicar o mundo e as suas regras. Mas o tempo passou, e assim como o mundo, a poesia acompanhou a evolução dos Homens numa interdependência artística que se tornou cada vez mais vincada e transformada. Embora tenha a composição lírica como base genética, a música injetou e sofreu mutações com a mesma. Sublinhando a influência da poesia na cultura afro norte-americana, de onde surgem estilos como o soul e o blues, que levaram à emergência de sonoridades mais repetitivas mas igualmente criativas: o hip hop e do rap que rapidamente se propagaram pelas demais culturas urbanas.

Hoje contestamos que o rap não se confina apenas a culturas urbanas, ou a pessoas nelas inseridas e foi possível confirmar tal afirmação pela fila que se acumulou à porta do Lux Frágil, uma das discotecas mais exigentes da cidade de Lisboa. Apesar de o ajuntamento se ter feito horas mais cedo que o habitual, um público de diversas facetas se mesclava, e rapidamente encheu o piso inferior do espaço para receber o último concerto da digressão europeia de apresentação de Room 25, da rapper de Chicago, Fatimah Warner, mais conhecida pelo seu nome de palco, Noname.

Contudo, não veio sozinha para declamar as suas líricas, trouxe consigo o seu conterrâneo, o rapper Zarif Wilder de alter-ego theMIND, nome que surgiu de uma particular ligação com o psíquico, para iniciar a noite. Entre originais, Wilder surpreendeu ao cantar “Self Control”, do cantor e compositor Frank Ocean. Para além de proporcionar momentos melancólicos, theMIND sincronizou o público, fê-lo dançar de forma genuína e solta, apesar de o espaço individual ser limitado.

© Mias Perrson

Satisfatoriamente acabada a primeira parte da noite, o tempo de espera para o concerto da rapper norte-americana, recuou até à lírica de Blonde, passando “Nights” de Ocean, numa nula tentativa de acalmar a expectativa dos demais.

Antes de subir ao palco, Fatimah passou entre o seu público de forma discreta e despercebida, confirmando que apesar da altura do palco que os separava, continua a ser mais uma mortal comum, tal como afirmou a própria num dos demais desabafos ao microfone. Após uma aclamada receção, a poesia de “Self” deu início ao concerto, que para além de músicas do álbum em apresentação, deu espaço a Telefone, primeiro trabalho de estúdio. “Diddy Bop”, “Reality Check” ou ainda “Bye Bye Baby” mesclaram-se a temas do mais recente trabalho de maneira natural e afagada.

Contudo, a familiaridade com que Noname foi recebida, fez-se em grande parte pelo conforto da sua abordagem com os presentes, puxando tanto pela participação e “barulho”, como a partilha de momentos como ter ficado presa no elevador da discoteca e que isso faria o concerto um momento especial, rindo ainda da receção lusitana. Para além de desabafos e histórias pessoais às quais o público recebeu entusiasmantemente, por vezes pisaram a linha do incomum com trocadilhos e piadas. Mas tudo se perdoa à menina.

© Mias Perrson

Embora a primeira parte tenha sido trémula sem deixar a intensidade de fora, a artista compensou com uma atuação mais entusiasmante e mexida, que nem o calor que sentia a impediu de declamar as suas melodias, mesmo que por vezes algumas lhe tenham escapado. A diferença de estúdio para o palco foi por vezes tangível, mas ainda assim a música de Noname, e a sua personalidade carismática, transformaram o imenso espaço prepotente do Lux Frágil num ambiente íntimo, relaxado e confortável.

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Rita Matias dos Santos
Rita Matias dos Santos
Após 6 anos exilada em Paris, Rita regressa à pátria persistindo contra todas as marés no seu sonho de escrever sobre música. Pelo menos da parte da tarde.