NOS Alive 2018 – Dia 1

432

A 12ª edição do NOS Alive consagra-o como vencedor do prémio dos hipermercados nacionais de música.

Texto: Ana Cristina Carqueja | Fotografia: Teresa Mesquita

De ano para ano, o formato clássico apoiado em cabeças de cartaz mainstream, foi-se convolando numa oferta plurifacetada de bandas consagradas em diferentes territórios mais alternativos. A alternância de palcos alastrou-se para uma epidemia de espaços dedicados às tendências mais dispares, como a varanda suspensa de boas vindas da entrada, o coreto encaixado entre diversões de feira, a tenda vocacionada para fado ou o divertido clubbing. Esta segregação deixa às vedetas o campo central batizado pela telecomunicadora, e confia na infraestrutura cervejeira para as pausas de mudança de cenário. Generosidade de oferta ou ilusão de abundância? Cabe a cada um descobrir, em função do percurso traçado e das suas vivências da musicalidade. Uma conclusão resulta evidente: o espaço tornou-se demasiado exíguo para acolher as hordas de adeptos.

O público do primeiro dia era jovem, e assombrosamente bem comportado. Os que foram para ver levavam grande vantagem sobre os que foram para ser vistos. Moderados no consumo de álcool, silenciosos nas fileiras frontais, comedidos na manipulação de telemóveis, conhecedores dos acordes e letras. Talvez nem tudo esteja perdido, talvez haja esperança.

A abertura foi delegada em Miguel Araújo, catapultado do recôndito canto reservado no ano antecedente para o palco principal. Apresentou-se em vestes casuais dominadas pelo azul, com a sua proverbial simplicidade a assegurar uma prestação sem surpresas. Fez-se acompanhar por uma dezena de músicos, que incluíam um quarteto de metais, a guitarra e a voz da Joana Miranda. Desfiou nove temas consagrados e uma estreia. Em Reader’s Digest criou espaços para pequenos solos de apresentação de cada um dos colaboradores, e encerrou com “Os Maridos das Outras”, acapella, acompanhado pelo público.

Miguel Araújo – galeria completa AQUI

Num passeio à cobertura secundária foi possível conhecer a electropop da francesa Geanne Galice, aka Jain. A jovem compositora, encontra-se a promover o segundo álbum, e em dupla com o sintetizador tomou conta da atmosfera com uma energia contagiante, capaz de fazer dançar as pedras da calçada. Alinhou dez temas de uma assentada, sem perder o fôlego. Um registo autobiográfico com pinceladas de raízes africanas rematado pelo consagrado “Makeba”.

Jain – galeria completa AQUI

O regresso apressado à base foi ao encontro da elegância britânica de Brian Ferry, escoltado por uma banda de luxo. O olhar azul não perdeu o brilho e o charme amadureceu com distinção, mas a musicalidade foi-se desvanecendo numa palidez morna. É um mestre de saber estar, tanto ao microfone como ao piano, mas o desempenho distendeu-se do protagonismo para o relato. O rosto dos Roxy Music não arrebatou uma audiência demasiado jovem para saber que a controversa capa de Country Life teve a sua génese em Portugal. O menu foi extenso e revivalista, quinze temas assentes na discografia de sucesso do antigamente. Don’t Stop The Dance”, “Slave to Love”, “Avalon e “Love is The Drug” foram alguns dos êxitos que ecoaram pelos céus e o vento levou.

Brian Ferry – galeria completa AQUI

Mais uma pausa técnica permitiu o encontro com o rock vibrante dos Wolf Alice. A figura frágil de Ellie Rosevelt contrasta com a garra com que ataca a guitarra e, sobretudo, a vocalização. Acompanhada por mais uma guitarra, baixo e bateria, encheu o coberto até ao limite, hipnotizando os adeptos das secções rítmicas vitais. A sua voz aguda emerge em contra-ciclo sobre a percussão, com um resultado potentíssimo. As escolhas destacaram os temas que lhes mereceram a nomeação para os Grammys de 2016, onde não podia faltar o reconhecido “Giant Peach”.

Wolf Alice – galeria completa AQUI

Mas o primeiro dia do festival foi raptado ao lusco fusco pelos Nine Inch Nails. O coletivo de Ohio responsável pela inserção do termo “alternativo” no dicionário musical encaixou-se entre dois muros de luzes com cerca de dois metros de altura e fez levitar todas e cada uma das almas da totalidade do recinto. Trent Raznor é senhor de um carisma icónico, e faz-se acompanhar por músicos de uma qualidade extraterrestre. Abriram no meio de uma nuvem de fumo com “Wish”, seguido de “Less Than” com o refrão entoado em coro por todos os pulmões capazes de respirar. Em “March of The Pigs as bruscas mudanças de andamento sustiveram a rotação do planeta, e o encadear de breaks de bateria com tempos diferentes de “The Piggys” voltou a convocar a audiência. Os sintetizadores, apoiados por um pequeno gravador analógico, foram omnipresentes durante a belíssima balada “The Lovers”, tingida por uma onda de luz vermelha. “Shit Mirror” trouxe ondas de palmas ritmadas e extasiadas e o frenético “God Break Down The Door” foi sequestrado por um público incontinente de ânimo. Não podia faltar a elegia do sexo de “Closer”, envolta numa vermelhidão fumarenta que tocou a mão de Deus com a mestria da pintura renascentista. “Copy of A” foi ilustrada pela projeção dinâmica de sombras da banda sobre um fundo sépia, num efeito visual onomatopeico. Raznor dedicou “Afraid of Americans” ao grande amigo David Bowie, porque a genialidade anda sempre a par, e não se distrai. “Gave Upacelerou o ritmo, criando condições para fazer ascender “The Hand That Feeds” e “Head Like a Hole” a mantras coletivos. O universo respirou, e um registo emocionado e intimista apresentou “Hurt” numa vertigem acapella, quase em lágrimas que deixou os estômagos num nó e encerrou a noite. Depois de Nine Inch Nails não havia mais espaço para ouvir, nem para ver, nem para sentir.

Friendly Fires – galeria completa AQUI

Coube aos Snow Patrol a ingrata tarefa de darem seguimento ao que não tinha seguimento possível. O pop rock ligeiro dos irlandeses conduzido pelo adorável e despretensioso Gary Lightbody teve a arte de criar uma pausa para digerir a prestação anterior. “Chocolate”, “Called Out in The Dark”, “Crack in the Shuters”, “Don’t Give In”, “Open Your Eyes”, “Run”, “Empress”, “Make This Go On”, e “Shut Your Eyes” foram bem recebidos, e “Chasing Cars” suscitou o esperado coro coletivo. Encerraram com “Just Say Yes” e auspícios de um novo álbum, 7 anos depois do último.

Snow Patrol – galeria completa AQUI

Passava da meia noite quando Alex Turner deu um ar da sua graça, acompanhado pelos Arctic Monkeys com dois elementos de reforço. A imagem de fatinho, cabelo embebido em gel e óculos escuros que adotou para promover o mais recente projeto lunar ainda suscita reservas nos fãs mais arreigados da banda de Sheffield, mas ele sabe o que está a fazer, e é um mestre do profissionalismo. A setlist, cirurgicamente escolhida, foi 25% dedicada ao novo álbum. “4 out of 5”, “Tranquility Base Hotel & Casino”,One Point Perspective”, “She Looks Like Fun” e “Star Treatment”, para desconsolo de quem esperava “Batphone”, ou acalentava a esperança da esteia ao vivo de “American Sports”. O easy listening combina com Turner, é um terreno fértil para a sua escrita prolixa, e coloca-o na vanguarda das novas tendências da música. Do antigamente, trouxe “Brianstorm”, “Don’t sit Down ‘Cause I’ve Mooved Your Chair”, “Crying Lightning”, “The View from the Afternoon”, “Teddy Picker”, “505”, “Cornerstone”, “Pretty Visitors” e “I Bet You Look Good On The Dance Floor”. Sempre acompanhado pelo público que conhece todas as letras, todas as melodias, todos os riffs e todas as curvas e contracurvas destes hinos. Do antecedente “AM” trouxe “Why Do You Only Call Me When You’re High?”, “Knee Socks”, “Do I Wanna Know” e o tema de encerramento “R U Mine?”. Como habitualmente, todos os temas com pequenas nuances nos arranjos expressamente feitos para serem tocados ao vivo, maximizando o impacto e a interação. Uma grande banda que tem todas as condições para continuar em ascenção.

Com o encerramento do palco principal, grande parte do recinto escoou-se. Para uns no dia seguinte haverá mais, para outros foi uma incursão isolada. Para todos: o saldo é francamente positivo.