NOS Alive 2019 | 13.07.2019 | 3º dia

“It might be over soon, soon, soon”, mas é para repetir.
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O NOS Alive’19 despediu-se com um dia de sol, uma noite amena, e uma enxurrada de público. O festival parece demasiado grande para a área disponível, como de um dia para o outro se tivesse encolhido na máquina da roupa. A escassez de espaços para descansar o corpo e os ouvidos, o horário frenético de concertos apetecíveis, e a ansiedade da aproximação do fim, espalham alguma ansiedade. Os padrões floridos e frutados apelam às fotografias, e a aposta na extravagância é notória. Ainda assim, é uma jornada em família: os pais do primeiro dia trouxeram os filhos do segundo, e as gerações irão apartar-se na escolha entre Smashing Pumpkins e Thom Yorke. 

Às 17:00 horas os The Gift abrem o palco NOS, num claro contraste com o encerramento do palco Clubbing às 01:00 no ano antecedente. Sónia Tavares, Nuno e John Gonçalves, Miguel Ribeiro e Mário Barreiros são uma banda de exceção no panorama musical português. Através do controlo pessoal da carreira têm trilhado um caminho sólido, que lhes granjeou reconhecimento internacional em meios outrora impensáveis. Começam com uma trilogia do mais recente álbum: Sol, Cabin e Verão. A presença da Sónia é estonteante, e potencia a qualidade da composição instrumental. Aquecem o público com a veterana Driving You Slowly, e transitam para a criatividade rítmica de Malifest. Espraiam Love Without Violins ao longo do palco, com a omipresente inspiração de Brian Eno na tela de fundo. Todos os filamentos da relva artificial entoam o clássico Music e dançam Big Fish. Em Question Of Love mantêm o beat de fundo, mas incorporam-lhe um notório acréscimo de densidade. Encerram com o aroma vintage de The Singles, e a certeza de que o palco principal é deles por mérito próprio. Para o encore, Sónia e Nuno descem com o microfone e um teclado, abrem uma clareira no meio do público, e numa simplicidade desarmante partilharam uma Primavera interativa e pontuada pelo diálogo direto com os participantes.

© Teresa Mesquita

The Gift Galeria Completa

Às 17:45 horas os Rolling Blackouts Coastal Fever aquecem a tenda Sagres com o seu índie rock a roçar a pop, de sotaque australiano. O quinteto alimenta-se das vozes e guitarras de Fran Keaney, Tom Russo e Joe White, do baixo de Joe Russo e da bateria de Marcel Tussie. As composições simples e honestas encaixam em narrativas bem construídas. Pregam num registo clean, sem truques nem malabarismos, com a dose certa de groove e uma sonoridade intemporal. Deteta-se a experiencia de muitas horas de palco. Os 16 temas escolhidos entre o aclamado álbum “Hopes Down” e os EPs que o antecederam são uma agradável banda sonora de fim de tarde. 

© Arlindo Camacho – Foto Oficial

O prime time das 22:00 no palco NOS está reservado para a banda de culto Bon Iver. Justin Vernon não autorizou a captação de imagens, e apresenta-se no desmazelo de quem não tirou o pijama, com uma bandana na testa e os habituais headphones. Resguarda-se atrás de uma mesa de dispositivos eletrónicos, ladeado por Michael Lewis no baixo, teclas e saxofone, e por Andrew Fitzpatrick na guitarra e teclados. Na retaguarda, Sean Carey e Matthew McCaughan defrontam-se munidos de dois sets complexos de bateria, complementados por um piano. Os Bon Iver vão percorrer o arco iris que liga a folk de “For Ema, Forever Ago” ao experimentalismo de “22, A Million”, com arranjos e interpretações inovadores, porque a musica reinventa-se a cada toque. A partida é dada por Perth, com as baterias a serem protagonistas, absurdamente sincronizadas no rufar que marca o tema, e que vai abrindo um círculo no céu para armazenar a imaginação. Minesota é despoletado por sons inexistentes na versão original, e a manipulação da voz alternada com o falsete é de uma genialidade que silencia o pensamento. A debulhadora de 10 d E A T h b R E a s T entra de rompante, um portento de suor e sensualidade, com McCaughan a segurar a percussão e Carey a investir no piano …fuckified. Em 715 Creeks a versatilidade vocal e a manipulação eletrónica de Vernon completam-se numa declaração feroz de amor: “God damn, turn around now, you’re my A-Team”. O flash backs de Towers convida à descompressão, que Blood Bank poderia prolongar, não fosse o demolidor jogo de espelhos das tarolas, timbalões e pratos, que absorve os sentidos. “If you have any hax or weed, this is the moment my friends” dá o mote para a magia com que 29 Stafford APTS nos reboca pela escada do parque de estacionamento, ao longo das quatro estações de Eaux Claires, numa névoa onírica de memórias emprestadas. Ainda intoxicada, 666 chega em modo freestyle que convida a jogar à carica com as estrelas. A filosofia de 8 (circle) é explicada sem eufemismos – “all of you who might be falling in love with each other, don’t try too hard” – mas a paixão espera, caminha, corre e rasteja pela melodia. O dueto de 45 entre Vernon e o saxofone de Lewis é de uma elegância quase intimidatória. Heavenly Father desanuvia, e Skinny Love alinha os chakras num uníssono coletivo. Creature Fear espreita por entre uma ondulação suave, aproxima-se com a cautela de um felino, e vai crescendo, crescendo, até ao rugir predador das guitarras. O luto fica a cargo de Holocene, com a angustia da guitarra acústica a gemer “for miles, miles, miles”, e a purgar inquietudes subcutâneas. Calgary reconcilia emoções e pensamentos, para logo em seguida 33 GOD os desfragmentar com loops, distorções e percussão em contratempo. The Wolves (Act I e II) rodeia a noite, farejando em busca de what might have been lost, fecha o cerco numa progressão instrumental, e desaba num ataque apocalíptico. Como é que as vozes conseguem erguer-se, límpidas, sobre a dupla percussão? A despedida é acenada por 22 (OVER Soo ooN), com o falsete de Vernon a abraçar o saxofone, sob o manto do canto de Carey. Fica a pairar um rasto de pó de fada, que perdurará na alma por várias eternidades.

© Arlindo Camacho – Foto Oficial

Podia ser o momento de partir, mas a tentação é maior do que a tenda Sagres reservada por Thom Yorke para a 01:00 hora. O líder dos Radiohead camuflou-se de escuro na escuridão, e muniu-se de três sets eletrónicos, reservando um para si e confiando os outros dois a mãos habilidosas. Aproxima-se da beira do palco, sorri, e lança-se numa diatribe experimental inquieta e perturbante. Todos os detalhes minuciosamente encaixados como um puzzle 5D que liga a sonoridade das máquinas à doçura da voz, passando pela libertação da dança e pelo psicadelismo das luzes. À medida que Thom vai desatando Impossible Knots o ambiente ganha espessura. Pega num baixo, e empresta a sua mestria instrumental a Black Swan e Harrowdown Hill. The Clock instala uma esquizofrenia irrespirável, que se prolonga por (ladies & gentlemen thank you for coming). Has Ended empareda-nos dentro de um pesadelo, para o qual o tecno-beat de Amok abre um corredor de escape. Os blips de Not The News são recebidos com o alívio do reconhecimento, ao longo do qual Thom vai manipulando as emoções num jogo de toca e foge. Truth Ray rasga mais um portal de introspeção, e Traffic e Twist são distopias techo que oscilam entre o trance e a assombração. A expiação fica a cargo do intimismo aconchegante do piano de Down Chorus, e dos clássicos Atoms for Peace e Default. Thom Yorke continua a surpreender na habilidade com que imprime ao talento uma imprevisibilidade irreverente.

© Arlindo Camacho – Foto Oficial

Tal como consta dos copos reutilizáveis, o NOS Alive é para repetir.

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