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NOS Primavera Sound 2019 | 06.06.2019 | 1º dia

NOS Primavera Sound 2019 | 06.06.2019 | 1º dia

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
This is Primavera: follow me to further complications

A 07 de junho 2012 uma ramificação do Primavera Sound Barcelona foi plantada nos 83 hectares do maior parque urbano de Portugal. O solo era fértil, agradou ao público indie-trendy, seduziu a multidão hippie-chic, e o NOS Primavera Sound transformou-se numa referência da rota internacional da música alternative-fashion. A marca foi trabalhada com mestria, e o pôr do sol na relva, as coroas de flores, as mantas de quadrados amarelos, e os copos de pé alto de vinho do douro tornaram-se ícones de qualidade. Ano a pós ano o festival cresceu, até a ameaça de se tornar maior do que ele próprio desencadear uma reação auto-imune. Para a combater, o cartaz foi-se descolando do primogénito, investindo numa biodiversidade que afastou mais gente do que aquela que angariou, e devolveu ao recinto áreas para respirar. O consumo apático foi defletido, e no NOS de hoje cada um tem que escolher o som da sua primavera.

O primeiro dia da edição de 2019 sofreu de meteorologia instável, que arredou quem quis ser visto sem demover quem quis ver. Enquanto se faziam reparações no palco Seat e nas infraestruturas de apoio, o palco Super Bock foi inaugurado pelo Dino D’ Santiago, e o Nos pela Christina Rosenvinge. Aos poucos, o declive preencheu-se para dar as boas vindas aos canadianos “Men I Trust”. Uma guitarra, um baixo, uma bateria depilada, e o timbre sussurrado da Emma Proulx asseguram a drempop minimalista deste projeto. Tudo é simples e intuitivo, quase num registo chill out. Os sorrisos doces dos músicos rimam com serenidade acolhedora das melodias que se vão sucedendo, sem sobressaltos, baixando o frenesim das ondas cerebrais até ao bem-estar que permite distinguir mais do que um tom de azul no céu. A nova interprete está em sintonia com os membros residentes, e o coletivo exala os efeitos positivos dessa cumplicidade.

© Teresa Mesquita

Men I TrustGaleria Completa

Um passeio até à entrada permite visitar “Mai Kino” aka Catarina Moreno, portuguesa radicada em Inglaterra a desenvolver um projeto experimental na área da eletrónica ambiental. A figura envolta em tule vermelho assemelha-se a uma personagem do Aladino, e exprime-se corporalmente com desenvoltura. Está acompanhada por teclista e percussionista eletrónica reforçada por tarola, pratos de choque e um crash. A sonoridade está entre o mântrico e o etéreo, a que a voz de ninfa confere um toque de sensualidade. Vai dançando, envolvida no som, sem descurar a eficiência de lustro britânico. Destaque para uma versão etérea de “Eyes Without a Face”.

 

© Teresa Mesquita

Mai KinoGaleria Completa

Nova subida e descida do morro para receber os americanos de Idaho “Built to Spill”, que vêm homenagear os vinte anos de “Keep It Like a Secret”. O entardecer assenta-lhes bem, abrilhanta as barbas brancas, ilumina as progressões calcificadas das guitarras, e afina as letras entoadas pelos fãs. O álbum é tocado na integra, com pausas para mudar as afinações entre cada tema, e sem grande interatividade entre os músicos. É uma aposta segura no índie-rock-retro da praxe.

© Teresa Mesquita

Built to SpillGaleria Completa

Segue-se o cabeça de cartaz que, apesar de não ter as honras de o ser, verdadeiramente o é: Jarvis Cocker, não com os “Pulp”, mas com os “Jarv Is”: uma harpa, um set completo de bateria, um baixo, um set de dispositivos eletrónicos e uma multi-instrumentalista que assegura o violino/saxofone/guitarra. O britânico de Sheffield é uma combinação sublime de talento, carisma, irreverencia, eloquência e elegância. Veste um fato castanho de bombazine, exibe na mão um pequeno espelho, e entrega-se a uma performance que radica na melhor tradição conceptual bowieana. Abre com “Sometimes I Am Pharaoh”, épicamente ilustrado pela sua mimica articulada, e acompanhado pelo publico. Saúda em português e dá o mote “I am Jarvis, you are Primavera: are you ready for some further complications?” A ascendência de Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane e The Thin White Duke está tão presente que é quase palpável. Extrai do bolso um objeto que faz clic e estabelece uma divertida conversa com a assistência em código morse, seguida de uma diatribe existencialista e do soberbo “Children of The Echo”. Retoma o discurso, agora evolucionista, e interpreta a novíssima “Must I Evolve” em formato pergunta-resposta com a audiência. A noite desce, e com ela uma bola espelhada de discoteca para acompanhar as mudanças sincopadas de ritmo de “House Music”. Relata como uma insónia pode descambar na destruição de uma casa, e entrega-se ao soul do saxofone de “Homewrecker”. Atordoado, perde-se numa crise de auto ajuda que serve de ponte para a balada “Am I Missing Something?”. Recorda a passagem por Paredes do Coura em 2011, ainda com os “Pulp”, recupera a bola de discoteca, e  “In My Eyes” tem o poder de elevar a imaginação para além do horizonte e conjurar um aguaceiro torrencial. Desce do palco, conversa com o público, faz de curandeiro, e recupera “Him n’Hers”. Pede desculpa pelo temporal terrível e pelo comportamento dos hooligans, assegurando que embora não pareça, na Grã-Bretanha também há gente boa. Distribui chocolates e pins que pede para serem solidariamente repartidos e meneia-se em “Swanky Modes”. Antes de terminar entrega a set list, e remata com o acintoso “Cunts are Still Running The World”. Extraordinário.

© Teresa Mesquita

Jarvis CockerGaleria Completa

O asfalto escoa-se, e volta a encher-se para os “Stereolab”, a banda franco-britanica de culto que criou um post rock próprio e impossível de qualificar, por combinar elementos de uma multiplicidade de estilos. “Emperor Tomato Ketchup” e “Dots and Loops” são dois álbuns que não falham em nenhuma discografia que se preze. Desfeita há uma década, a banda voltou a reunir-se em torno dos teclados vintage, sintetizadores, guitarra elétrica, baixo, bateria acústica e com a voz e respiração inconfundíveis de Laetitia Sadier. A elegância e bom gosto não têm data nem prazo de validade, e o coletivo está encharcado em ambos. Trazem o alinhamento de Barcelona – “Come and Play in the Milky Night”, “Brakhage”, “French Disko”, “Baby Lulu”, “Miss Modular”, “Metronomic Underground”, “Need to Be”, “Ping Pong”, “Percolator”, “John Cage Bubblegum” e “Lo Boob Oscillator”. O publico é conhecedor e sustem a respiração ao longo de todo o concerto, porque o que está a ouvir não é musica: é artesanato. Os elementos de eletrónica que se entrelaçam são tocados com todos os requisitos da era pré digital, como uma relíquia preciosa. A perícia de cada instrumentista é perturbadora, e a coesão entre eles comovente. A bateria dá o mote, o baixo aguenta tudo, os teclados saltitam, a guitarra é extravagante, os loops preenchem os silêncios, é as vozes também são notas e harmonias e sons, alinhando um puzzle complexo e deslumbrante. O tema final é repescado não uma, não duas, mas três vezes, antes que alguém se convença de que chegou ao fim.

© Teresa Mesquita

StereolabGaleria Completa

Nos outros palcos o festival continua, mas para os que escolheram este roteiro, o primeiro dia termina aqui.

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.