NOS Primavera Sound 2019 | 08.06.2019 | 3º dia

No Comprende
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Sábado é sinónimo de corpos cansados a dormitarem pelas encostas, passeios distraídos pelo mercado de primavera, rejeição de brindes duplicados, participação em inquéritos, prova daquele sabor que ficou para o ultimo dia, e compra de memorabilia. Ouvidos saturados deambulam por entre os palcos, à procura de um som que os desperte do torpor. Olhares filtrados pela privação de sono fazem zappings preguiçosos pela programação, em busca de uma epifania. A mistura de exaustão e languidez refugiam-se no conforto das reminiscências de ano passado é que foi, nada superou 2014, a primeira edição foi a melhor. Mas aqui e agora há que ajustar os óculos escuros e desfrutar do último dia do NOS Primavera Sound 2019, escolhendo trincheiras estratégicas para combater a artilharia latina.

Os palcos Super Bock, Seat e NOS são inaugurados pela Lena D’Água, por O Terno e pelos Hop Along. Segue-se, no alcatrão, um pontapé no politicamente correto, dado pela extravagancia do punk rock sueco dos Viagra Boys, que vêm estrear o primeiro álbum. Sebastian Murphy é um mural de tatuagens sobre curvas delineadas por álcool e sedentarismo, e intercala cada tema com interjeições provocatórias, trocando a geografia com o festival congénere, comparando a esparsa audiência com Woodstock 1972, fazendo flexões hollywoodianas, dormitando, e esgrimindo garrafas de vodka e cerveja. Está acompanhado por guitarra, baixo, bateria, teclados e … saxofone. Tocam um rock esgalhado, no limiar entre o punk e o pós, com muitas referencias clássicas e outros tantos elementos diferenciadores. O baixo tem um protagonismo fortíssimo, e o saxofone confere-lhe uma sonoridade inesperada e inovadora. A atitude é desafiadora mas a musica é desafiante, e entre uma e outra a segunda sai a ganhar.

© Teresa Mesquita

Viagra BoysGaleria Completa

Os “Big Thief” trazem ao mesmo espaço o folk rock de Brooklyn assinado por Adrianne Lenker. É uma banda madura, que acabou de editar um terceiro álbum fortemente aplaudido pela crítica. Duas guitarras, baixo e bateria, com destaque para o cabelo rapado e roupas desmazeladas de Adrianne. A sonoridade é marcada por uma contenção que pretende que o que está à vista não desvende o que está oculto. As guitarras são esticadas, sem perderem a linha do baixo, nem o alicerce da bateria. A voz cristalina de Adrianne e instala-se num recanto de tranquilidade reconfortante, entre o apêndice e o pâncreas. Simpática e afável, lidera a banda por entre temas mais negros e outos mais leves, todos eles unidos por uma lírica prolixa.

 

© Teresa Mesquita
Big ThiefGaleria Completa
 

Um pouco mais tarde, os Snail Mail mostram ao circulo Pull & Bear, como é que em 2019, aos 19 anos, se faz índice rock dos anos 90. Autêntico. Puro. De qualidade. Lindsay Jordan trouxe de Baltimore a sua Fender, baixista, baterista, teclista/ guitarrista, e composições de temas presentes, em sonoridades slow-mid-tempo passadas, para memória futura. Metro e meio de altura, vestuário de andar por casa, cabelo indomado, maquilhagem a preceito, e uma insegurança inicial que se desmorona ao primeiro solo de guitarra, executado de olhos fechados e com o corpo e o instrumento fundidos como veículo único de escape para a alma. Canta com toda a sensibilidade que tem alojada na laringe, sem filtros, sem artifícios, com uma honestidade tão comovente que dá vontade de abraçá-la e levá-la para casa. A técnica instrumental do coletivo é irrepreensível, mas o catalisador vem da transparência emocional de Lindsay. Depois de uma visita ao álbum de estreia, dispensa a banda, sela um pacto de confidencialidade com o público e apresenta duas musicas novas em que está a trabalhar. Já não é parte do espetáculo, é a arte da criação na sala de nossa casa.

 

© Teresa Mesquita

Snail MailGaleria Completa

A noite é raptada pelos Low, aninhados entre as muralhas de árvores do palco Buper Bock. O trio de Minnesota deu vida ao conceito slowcore com “I Could Live in Hope”, mas distanciou-se várias galáxias desse ano de 1994 com o mais recente “Double Negative”. A escuridão é absoluta, à exceção de três coluna com barras horizontais luminosas que exibem o nome da banda. Alan Sparhawk posiciona-se junto ao “L” com a guitarra a tiracolo e os pedais e loop station no chão, Mimi Parker agacha-se sob o “O” com o seu set de bateria diminuto e rasteiro, e Steve Garrington ergue-se em frente ao “I” encaixado no baixo e também com pedais e loop station na base. O que está para acontecer ultrapassa o domínio da musica, é uma expedição sensorial de luz e som.

 

© Teresa Mesquita

LowGaleria Completa

Começam com “Quorum”, a alternância das vozes de Alan e Mimi a contribuírem para a musicalidade, e a distorção a marcar presença. Em “Dancing and Blood” a mestria das cordas iguala a dos pedais, e a musica esgueira-se para espaços ocultos, jogando às escondidas. “Always Up” alimenta a textura, e o som adquire tridimensionalidade, com os dois timbres de vozes colados em live stereo. Segue-se o comovente single “No Comprende”: “You know you didn’t understand me / I didn’t say it was a problema / Before you start to make assumtions / Let’s try to cut to the solution”. Em “Lies” a dinâmica da iluminação realça o ritmo da bateria, e a multidão está rendida à lentidão do tempo, ao minimalismo dos arranjos, mas impreparada para o que se segue. “Do You Know How To Waltz?” em extended play é um exercício de artesanato sonoro na arte da distorção e da manipulação de loops. Guitarra, baixo e bateria num crescendo de ruido circular e ascendente, que até uma intensidade que derrota as possibilidades, milimetricamente controlado, sugando todo o oxigénio dos pulmões e deixando um vazio imenso. O enraizamento é assegurado pela doçura de “Lazy”, talvez uma das melhores baladas de todos os tempos. “Always Trying to Work it Out” mantém a respiração suspensa na linha de baixo, e “Especially me” põe cada um à procura do seu centro de equilíbrio. “Fly” é recebido de coração aberto, e o ponto final fica a cargo de “Disarrey”, acompanhado da recomendação “peace be with everyone you touch”.

Para o ano haverá mais primavera, e outros sons virão a NOS.

 

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