Nova Batida 2019 – Nem tudo o que soa bem sabe bem

Pelo segundo ano, o festival traz até Lisboa nomes influentes da cena eletrónica mundial
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Os ponteiros rondam as quinze horas quando se dá por inaugurada a segunda edição do festival Nova Batida, que decorreu de 13 a 15 de setembro de 2019, fruto de uma fusão do Village Underground com a LxFactory.

Pelo segundo ano, o festival traz até Lisboa nomes influentes da cena eletrónica mundial, como Jon Hopkins, Friendly Fires, FourTet, Floating Points ou ainda Ben UFO. Ainda que cartaz se manifeste principalmente para os sons mais mecânicos e sedimentados, aparecem ainda traços de outros mundos musicais, como o de Nubya Garcia, KOKOKO, ou como a órbita trip-hop, a pender para a soul, como as sonoridades de Jordan Rakei.

Durante os três dias, o festival foi pensado no aproveitamento de espaços que tanto a LxFactory como o Village Underground oferecem. Um cartaz que, pela aparência, promovia tanto a música como a proliferação de tendências lifestyle desde aulas de yoga a talks temáticas. Mas não faltaram as carrinhas de comida com pouca oferta, tendas de merchandising e de tabaco. Contudo, a desorganização e o fazer onde der, como der, pareceu uma escolha bastante óbvia devido à fraca logística durante todo o primeiro dia.

 

© Gary Brown

 

Onra e J Felix, cada um do seu lado, iniciaram o relógio do primeiro dia do festival. Antoine Bernard, ou Onra, é um beatmaker francês, reconhecido pela sua mistura própria de vibes RnB e uma subtil eletrónica característica do trip hop. Quanto a J Felix, o britânico faz-se da mistura de um jazz electrificado com instrumentais vibrantes.

Apesar de o cartaz se dividir em palcos, a maior aposta foi no indoor da LxFactory. Após a passagem pelas margens do rio Taboão este verão, os KOKOKO! passaram por Lisboa para fazer o que fazem de melhor: espalhar charme. Ainda assim, todo o encanto foi de Nubya Garcia, a saxofonista britânica que encantou o relvado do NOS Primavera Sound, e com os pulmões vinca a sua posição na história do jazz contemporâneo.

 

© Gary Brown

 

Contudo, não faltaram momentos de discrepância entre expectativas caseiras e realidades musicais, fala-se de Floating Points. Sam Shepard pode ser um génio da neurociência, mas os lives do co-fundador da Eglo Records acabam por ficar aquém das expectativas que cria em formato digital. Pode-se pelo menos sublinhar uma ligeira melhoria relativa à sua última apresentação em solo nacional, no NOS Primavera Sound do ano anterior.

Mas foi a partir das mãos de DJ Seinfeld que a noite se prolongou. O produtor sueco apresentou-se em Alcântara com um DJ set rigoroso e exímio de cerca de uma hora e meia. Apesar de todo o festival ser extremamente pontual, a verdadeira pontualidade britânica foi concedida a Jon Hopkins, exatamente às doze badaladas, um dos produtores britânicos mais ilustres da atualidade subiu modestamente ao palco da LxFactory. Durante duas horas, o produtor que assina vários e distintos projetos, como álbuns de Coldplay ou Brian Eno, surgiu como o ponto alto da noite infernalmente abafada de sexta-feira 13. Prevalecendo as superstições do dia, o pior dos males foi o público, que ora perguntava quem estava a “tocar”, ora subtilmente recorria a tecnologias: melhor dizer “Shazamavam” aquela melodia que soava bem e fazia com que o corpo respondesse mais facilmente ao efeito da abundância de substâncias. Excluindo todos os infortúnios da modernidade do século XXI, Hopkins terminou em grande o seu serviço, sabendo que medidas colocar no momento certo. Resta esperar por uma apresentação pública em solo nacional focada apenas nos seus originais. 

 

© Gary Brown

 

O fecho da noite foi encargo de John Talabot, e fez-se com ritmos graves e consistentes, no limbo do sombrio e da melancolia da madrugada.

No segundo dia, as temperaturas não baixaram, e o problema de ventilação dos espaços interiores também não foi resolvido, mas o line-up manteve-se, tirando a ausência desinformada de Friendly Fires. 

É sobretudo fundamental realçar a presença de Sandunes, a artista indiana que tem vindo a emancipar-se de um estereótipo cultural e a destacar a pegada artística indiana. Reconhecida pelas surpreendentes aberturas para Bonobo ou George Fitzgerald, a beatmaker apresentou-se a poucas caras ao início da tarde, aquecendo o enorme espaço para Jordan Rakei. O artista neozelandês-australiano sediado em Londres, foi uma das mais importantes lufadas de ar fresco em três dias de clima tropical, mesmo tendo apenas gingado para uma pequena massa dançante que não enchia mais de um terço do espaço, que aos poucos se foi preenchendo para Talib Kweli. 

Já num ambiente abafado, o rapper americano declamou importantes mensagens de união, respeito e justiça, sem deixar escapar “Black Star”, a faixa de colaboração com Mos Def, que suscitou reações por parte de um público maioritariamente estrangeiro. 

Estrangeirismos foi algo que não se esqueceu durante um único segundo de festival: de sexta a domingo, o recinto transformou-se num campo de férias para o verdadeiro público alvo, que não era, de certeza, centrado nos possuidores de bilhetes de residente, mas sim nos mates que, entre festas em barcos, aulas de surf, e cervejas a um preço relativamente barato para as suas carteiras, se deixavam electrificar por uma cidade fachada.

 

© Matt Eachus

 

Devido à ausência inesperada de Jack Savidge e de Edd Gibson, que compõem os Friendly Fires, Tom McFarland, um dos elementos de Jungle, subia ao palco meia hora mais cedo para um enérgico DJ set, rico em ritmos e sonoridades, que pecou apenas pela fraca qualidade sonora do palco indoor, que perseguiu os três dias de festividades elétricas. 

O percurso de Daniel Avery nem sempre foi linear, tendo passado por diversos projetos, o produtor inglês traçou igualmente caminho no palco principal do festival no segundo dia. Como cabeça de cartaz, Daniel escureceu a noite com um set sombrio e ritmado, partilhando um frenesim que se soltava em elementos chave da sua apresentação. Mesmo com um bloco de duas horas, o alinhamento de Avery conseguiu ser mais rápido do que a fila para um reabastecimento num dos bares do recinto. Por vezes, nem o caminho até ao interior do Village Underground valia a pena. Para fechar a noite, Special Request não foi o que se esperava devido ao nome de palco, mas apenas um fecho de um sábado à noite banal. 

 

© Matt Eachus

 

Ainda que as cerca de treze horas de música diária fossem poucas para os mais elétricos, a ausência de espaço de repouso foi remarcável e repreensível, o chão foi deveras vezes a solução, e os espaços circundantes eram inevitáveis. O terceiro dia do festival chegou mais como um frete que um entusiasmo, sendo apenas salvo pela consistência das suas confirmações.

Inserindo um festival dentro de outro festival, Fiesta Bombarda iniciou o último dia no espaço mais colorido do recinto, fazendo do Village Underground, o espaço mais trendy, um misto de Boiler Room escaldante com uma festa privada num iate. Saltando do hot latino, passando para o clima árido africano, os Awesome Tapes From Africa regressam após uma passagem em 2014 no caça-talentos Milhões de Festa. Os ritmos exóticos não desapontaram ninguém, fazendo jus ao calor que se fazia sentir. Dando seguimento às caras conhecidas, Hunee, regressou também a Lisboa, desta vez mais abaixo do rio, no sentido oposto de Santa Apolónia.

Porém, as discrepâncias iniciais mantiveram-se até ao último minuto. No último dia, o contraste mais acentuado ficou na transição do beat frenético de Ben UFO para os firmes botões de Four Tet, que depois da passagem pelo NOS Alive em 2016, regressa a Lisboa como um dos mais fortes nomes do cartaz. Kieran Hebdan fez do barracão principal da LxFactory uma estufa promissora da sua cultura musical e expertise técnica que, tal como esperado, fê-lo ser digno de se juntar a Jon Hopkins e Daniel Avery para os pontos altos e paradoxalmente colete salva-vidas.

 

© Matt Eachus

 

Ainda antes da última frequência dada por Midland, o último nome a passar durante estes três dias de intensa desorganização, o festival já anunciava o seu regresso no próximo ano. Resta apenas saber se a próxima edição do festival pseudo-underground luso-inglês ficará melhor que um sushi na zona alta da cidade.

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