O músico mais alto e mais triste deixa Guimarães com um sorriso rasgado

O músico mais alto e mais triste deixa Guimarães com um sorriso rasgado

Hélio Carvalho
Hélio Carvalho
Nascido a 30/06/1995. Licenciado em Ciências da Comunicação na UMinho e a frequentar o mestrado no mesmo curso e mesma universidade. Um homem do Minho, bem influenciado pelo rock que se anda a mexer por cá. Os pais queriam que seguisse a música clássica, mas achei também vale a pena escrever e fotografar sobre moshes. No fim de contas, Beethoven e SHAME são igualmente bonitos.
Guimarães foi o sítio mais alto do mundo e The Tallest Man On Earth encheu sozinho no passado domingo o palco do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) com soberba suavidade e à vontade.

Com cada concerto, nasce mais um trocadilho com o nome e a música de Kristian Mattson. Mas é inevitável.

O músico já tinha passado por Lisboa e Aveiro antes de chegar a Guimarães e, em 2016, passou pelo festival Paredes de Coura. As cadeiras do CCVF substituíram desta vez a relva de Coura, mas o silêncio que se instalou em 2016 para ouvir Mattson manteve-se durante todo este concerto.

O homem mais alto da terra entrou ao som de uma gravação, pulando para o foque de luz e para onde todos o pudessem ver. Começa com “Like The Wheel”, uma música mais antiga do seu EP de 2010, “Sometimes The Blues Is Just A Passing Bird”. De imediato se cria o mote para o serão: Mattson, a suplicar por paisagens e amores passados, de guitarra na mão, debaixo do silêncio do público.

Cumprimenta o público, aventura-se a dizer “obrigado”, mas será a única palavra em português durante todo o concerto. O próprio admite que não conhece ninguém em Guimarães, tirando a pessoa no shopping que lhe disse que vinha ver o concerto.

The Tallest Man On Earth insiste no repertório mais antigo, passando por “I Won’t Be Found” e “The Gardener”, do álbum “Shallow Grave”, de 2008, um dos mais conhecidos do artista de folk.

Se o folk suave e as luzes LED ténues preenchem a sala durante as músicas tristes, a boa disposição de Mattson desanuvia o ambiente nos intervalos. O sueco mostra-se mesmo surpreendido com o silêncio da plateia. “Vocês são super educados, é estranho para mim. Pergunto-me para onde estarão a olhar, o que estarão a pensar. Mas vocês não pagaram para as minhas experiências esquisitas, portanto vou tentar fazer-vos sentir bem com umas músicas tristes”, brinca.

Os risos da plateia são raros sons vindos da penumbra do auditório. Mas finalmente ouvem-se assobios de regozijo quando Mattson interrompe a música para contar que o que está a cantar será a nona faixa do seu próximo álbum, que sairá durante o mês de março.

Na sua solidão no palco, Kristian Mattson goza com Ana, a pessoa que lhe vai passando as diferentes guitarras. Mattson aproveita uma ligeira demora, de mãos a abanar e sem guitarra nos braços, para “confessar” que nunca compôs música nenhuma, que é apenas um ator ao serviço de Ana, a verdadeira compositora.

Sem guitarra, desloca-se para um teclado para interpretar “Little Nowhere Towns”, do último LP do músico, “Dark Bird Is Home”, de 2015. A música é mais uma história do sueco, perdido algures numa pequena cidade com uma rapariga. Vai cantando e remexendo no piano, esfrega a cara, quase como se estivesse a lembrar dos tempos passados.

Já de guitarra na mão, The Tallest Man On Earth confessa que fazer uma tour é uma “seca”, mas estar em palco é “a melhor parte do dia”. Soam assobios e palmas e o silêncio sepulcral finalmente quebra-se com “Love Is All”, um dos temas mais conhecidos do músico. O público bate palmas mas Mattson chama a atenção: “eu tenho um baterista na cabeça que é mais lento que vocês”. Ninguém se importa com o regresso ao silêncio. A voz de Mattson rasga o CCVF e a guitarra calma de “Love Is All” é ténue o suficiente para se ouvir alguns a conter uma ou duas lágrimas.

As luzes durante o concerto pouco se alteram, exceto nas cores. As barras LED sobem e descem. The Tallest Man On Earth senta-se para interpretar “I Say A Little Prayer For You”, de Aretha Franklin, e as luzes reduzem-se a um foco leve. No público, só alguns telemóveis se distinguem.

Com o concerto perto do fim, o público finalmente arrisca e tenta cantar com Mattson a sua música mais conhecida, “King Of Spain”. A reta final chama pelos maiores êxitos de The Tallest Man On Earth e Mattson deixa o encore em suspense.

Com todos de pé e inquietos, o sueco volta com uma guitarra portuguesa na mão. “Deram-me isto ontem e ainda estou a aprender a afinação”. Para deleite de todos, Mattson toca a música “Sagres”, do álbum “Dark Bird Is Home”. Seria impensável uma passagem por Guimarães sem um tema com um toque tão português.

The Tallest Man On Earth ainda volta ao piano para tocar “Kids On The Run” e acaba assim o concerto na cidade berço. Faz um par de vénias ao público, à direita e à esquerda e sai. As nuvens no CCVF finalmente abrem-se com um público bem mais feliz depois de um concerto repleto de músicas tristes.

Hélio Carvalho
Hélio Carvalho
Nascido a 30/06/1995. Licenciado em Ciências da Comunicação na UMinho e a frequentar o mestrado no mesmo curso e mesma universidade. Um homem do Minho, bem influenciado pelo rock que se anda a mexer por cá. Os pais queriam que seguisse a música clássica, mas achei também vale a pena escrever e fotografar sobre moshes. No fim de contas, Beethoven e SHAME são igualmente bonitos.