O pop de Joana Espadinha tem muita razão

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© Teresa Lopes da Silva

A horas de lançar o novo disco “O material tem sempre razão” e depois do concerto de apresentação no Porto, Joana Espadinha iluminou o Teatro do Bairro, em Lisboa, com muito pop dançante.

“A cadeira é para sentar”. A canção “Jogo de cadeiras”, que deu início ao concerto de Joana Espadinha e que abre também o novo álbum da artista lisboeta, trouxe uma mentira visível durante toda a noite. Este não era um serão para ficar parado. Os primeiros ritmos mostravam uma Joana ainda em fase de calma jazzística, do “Avesso”, o seu disco de estreia. Como que falando consigo própria, “parou de mentir” e pôs o Teatro do Bairro a mexer com o single “Leva-me a dançar”.

Numa noite quente e que prometia aquecer ainda mais, o concerto primou por tempos de grande energia seguidos de lugares mais calmos, como quem pede para recuperar o fôlego. “Jogo de azar” (tema antigo que não faz parte do novo trabalho) e “Contramão” foram exemplos disso mesmo.

© Teresa Lopes da Silva

Sempre numa conversa “entre linhas” com o público, Joana prometeu que “Vai ser melhor”, canção que voltou a lançar o ritmo pela sala, ainda que em tom bastante melancólico. O público, fiel ao material que escutava, tentou recriar a coreografia do tema que se seguia, “Pensa bem”. Tal como no vídeo deste segundo single (de onde surgiu o casaco para o concerto desta noite), o carrossel retro-pop de Joana Espadinha puxava todos para a pista de dança. E, como a ficha do carrinho de choque não dura para sempre, aproximava-se o tempo de abrandar com “Mais uma estrada”.

Seguiu-se o momento mais intimista mas também de maior interação. Em jeito de professora de música, algo a que Joana está habituada com os seus alunos da escola do Hot Clube de Portugal e da Universidade de Évora, a cantora tomou a plateia como coro presente no tema “Voo raso” e juntos voaram bem alto.

Espadinha cumpriu o prometido e esclareceu o público sobre o significado da frase “estranha” e peculiar que agora a definia. A fórmula não parecia ser a melhor: “queria agradar e vender discos” até que se deu um “curto-circuito”. A frase do seu pai ajudou-a a ponderar e refletir sobre o seu percurso e no que queria ser. Ela própria e nada mais. Desse choque surgiu o tema que acabaria por dar nome ao seu novo álbum. Com a presença forte da bateria é, segundo a própria, a tentativa de ser fiel a si mesma: “o material tem sempre razão, tu tens de ser sincero”.

© Teresa Lopes da Silva

A aproximar-se do fim, a confidência de que o parceiro deste disco, o músico e produtor Benjamim, fazia falta nesta noite tão importante. “Zero a Zero”, composta pelo próprio e a única música do espetáculo fora das mãos de compositora de Joana, recordou o público da sua participação no “Festival da Canção” mas, agora sem competições, solta e livre de nervosismos. Antes do encore – com a balada a voz e teclas “Por um fio” e os singles repetentes – chegou a frontal e atrevida “Qualquer coisa”, opinando que “mais coisa menos coisa podes ser quem és”.

Com mais de uma hora de temas efervescentes, que entram hoje para o catálogo musical português, o público sai com sorriso na cara e ainda a mexer o corpo. As canções orelhudas e de refrão mais fácil podem iludir os mais inexperientes para uma “lengalenga” de quem quer seguir tendências mas, neste disco e em especial neste espetáculo, Joana prova que, de facto, só quando nos aceitamos podemos regressar ao que realmente somos. Espadinha é qualidade. Joana é pop. E disso estamos certos.

© Teresa Lopes da Silva

Joana Espadinha galeria completa

Banda: 
Nuno Sarafa - bateria
João Firmino - guitarra
Francisco Brito - baixo
Margarida Campelo - teclados/coros
Joana Espadinha - voz/teclados