Poliça invadem Casa da Música

Os Poliça criaram um conceito de eletro-pop muito interessante, e que, ao vivo tem um encanto que o minucioso trabalho de produção não consegue captar nos registos gravados.
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Minneapolis gerou um dos maiores génios da música, suscitando uma curiosidade natural sobre os projetos artísticos que partilham a mesma denominação de origem. Claro que nem tudo o que nasce nos socalcos vinhateiros é porto, e as semelhanças entre Prince o os Poliça esgotam-se no berço e na colagem onomástica. A banda do quarteto visível formado por Channy Leaneagh (voz), Chris Bierden (baixo), Drew Christopherson (bateria) e Ben Ivascu (bateria) e pelo quinto membro oculto, o produtor Ryan Olson, cultiva um dark electro-pop com assinatura autógrafa. Em oito anos lançou quatro álbuns de originais e um colaborativo com os s t a r g a z e, e passou de banda de aperitivo a prato principal. A digressão europeia When We Stay Alive, destinada a promover o mais recente álbum, terminou na sala 2 da Casa da Música do Porto na noite de 05 de março de 2020.

© Nuno Machado

A abertura foi delegada no DJ Dustin Zahn, que recheou o recinto de beats eletrónicos propícios à interação e convívio entre o público. Quando os Poliça subem ao palco, a sala está cheia e a postos para os receber. A figura franzina de Channy é um hino à delicadeza, com o cabelo curto e cuidado, sem maquilhagem visível, calças largas confortáveis, sapatos anónimos, e t-shirt justa a realçar a feminilidade. Ao seu lado, Chis toma conta do baixo. E atrás de ambos dois sets completos e complexos de baterias eletrónicas entregues à mestria de Drew e Ben.

© Nuno Machado

Abrem com “Sea Without Blue”, o desalento pungente da voz cristalina encharcada em reverb sobre uma sonoridade eletrónica de fundo. O upbeat de “Lime Habit” repesca o brilho cintilante do disco antecedente, com uma notável ondulação hipnótica. Segue-se o imediatismo, quase a roçar o trip-hop, de “I Need $”, com destaque para a excelente voz de apoio de Chris. “Driving” vem acompanhado por um jogo de luzes estreladas e por reminiscências dos EBTG.

© Nuno Machado

Channy cumprimenta o público, agradece a possibilidade de estar pela primeira vez em Portugal, e entrega-se ao enternecedor “Steady”, a voz liberta de distorção a ecoar em toda a sua limpidez. É disparado um loop, a manipulação vocal quase samplada de “Be Again” ergue-se sobre ele, e é vedada pelo bombo, movendo-se num espaço fechado e claustrofóbico de percussão milimetricamente sincronizada, como uma bola de snooker de encontro às tabelas. A sensualidade de “Blue Moon” revela o magnetismo de Channy. O ritmo acelera para o remix de “Dark Star”, um house dançável e algo desinteressante. Dá lugar à envolvência ambiental de “Warrior Lord”, um nicho de intimidade numa tarde de chuva à lareira. “Smug” arranca-nos da letargia e impele-nos para dentro de um labirinto de colagens e espelhos. À saída está “Fold Up”, uma inquietação de ruídos samplados e percussões desencontradas. “Feel Life” é um chá de tília minimalista, uma melodia vocal dilacerante que acalma a mente enquanto a percussão lateja no estômago. “Forget Me Now” tem a patine de um hit oitenteiro reciclado em formato eletrónico, e aproveita a projeção vocal de Channy em toda a sua amplitude, em vez de a camuflar. “Lay Your Cards Out” inverte a equação: a voz cria a ressonância de fundo e percussão é a grande protagonista. O fecho é entregue à exuberante “Trash in Bed”.

© Nuno Machado

Para o encore ficam “Little Treads”, com o reforço de Dustin Zahn, e a nostalgia de “Wondering Star”.

Os Poliça criaram um conceito de eletro-pop muito interessante, e que, ao vivo tem um encanto que o minucioso trabalho de produção não consegue captar nos registos gravados. Deve-se inequivocamente ao carisma de Channy Leaneagh que, sem qualquer esforço, se sobrepõe à eficiência dos músicos, quase obliterando o seu contributo. A dissociação entre a voz e a instrumentalização é tridimensional e cria um efeito distópico intrigante.

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