Rui Brito Jorge aprecia “The Deep End” dos The Lucid Dream

Este novo álbum irá, certamente, decepcionar grande parte dos fiéis seguidores ávidos de viajar com as suas trips psicadélicas, mas irá conquistar muitos outros em áreas nunca antes imaginadas, como a das pistas de dança e da música electrónica.

No passado dia 2 de abril, os The Lucid Dream apresentaram à imprensa britânica, o seu quinto álbum, “The Deep End”. Se tivesse sido no dia anterior, muito provavelmente iria parecer mentira, tal foi a ruptura com o caminho percorrido nos álbuns anteriores.

The Lucid Dream - The Deep End / Holy Are You Recordings HAY014LP - Vinyl
The Lucid Dream | “The Deep End” | 2021

A banda de Carlisle, cidade fronteira do Reino Unido com a Escócia, tinha sido até então fiel aos seus princípios, nunca se desviando da atmosfera “psicadélica”, desde a sua formação em 2008, enquanto banda de garagem. O carisma do vocalista Mark Emmerson (muito ao estilo de Ian Brown), o virtuosismo de Wayne Jefferson (guitarra e teclas), o baixo bizarro de Mike Denton e a percussão desgrenhada de Luke Anderson, formam este quarteto fantástico.

A energia contagiante das suas actuações ao vivo foi conquistando fãs e as atenções de promotores de concertos e festivais, que em pouco tempo os convidaram a partilhar palcos com bandas como Clinic, Death In Vegas, Spectrum ou A Place To Bury Strangers.

De forma assumida pela banda, este novo álbum irá, certamente, decepcionar grande parte dos fiéis seguidores ávidos de viajar com as suas trips psicadélicas, mas irá conquistar muitos outros em áreas nunca antes imaginadas, como a das pistas de dança e da música electrónica. Prova disso é a inscrição da pertinente expressão “Psych Traitors” nas T-Shirts da banda, disponíveis no seu merchandising.

Há sinais de que esta viragem abrupta se tenha iniciado e sido influenciada na digressão do album “Actualisation”, em 2018, quando acompanharam como banda suporte os Wooden Shjips de Erik Ripley Johnson, de quem são assumidos fãs, e cujo projecto paralelo, Moon Duo, é bastante inspirador para o caminho que os TLD decidiram agora seguir. As conversas em backstage com Ripley poderão ter sido um bom catalisador.

Descartadas as guitarras, dedicaram-se exclusivamente ao uso de sintetizadores e samplers,

Numa primeira audição do album, parece que estamos perante uma produção do saudoso Andrew Weatherall, com laivos de Shamen, New Order ou Underworld.

Aqueles para quem as trips psicadélicas eram entediantes, têm agora agora o dever de experimentar os exercícios algorítmicos para ravers em êxtase, como a nova cara dos TLD assim o apela. Ross Halden, co-produtor da banda, com precedentes na tentativa de fusão de géneros musicais e com boas conexões nesse mundo, poderá ter sido um dos culpados, quem sabe, do sucesso desta fórmula. Do patrão da DFA Records, James Murphy (LCD Soundsystem), recebeu a mensagem subliminar: “Ouvi dizer que tu e tua banda venderam as guitarras e compraram gira-discos”.

O benefício da dúvida para bandas que se decidem reinventar, é o mínimo que estas podem merecer.

E respeito.

É o caso dos The Lucid Dream.

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