© Joana Martins

Salvador Sobral: o futuro agora de “Paris, Lisboa”

Salvador Sobral: o futuro agora de “Paris, Lisboa”

Diogo Fernandes
Diogo Fernandes
Produtor de televisão com um grande fraquinho por discos em vinil e nova música portuguesa.
Dois anos depois de ter vencido o Festival Eurovisão da Canção, em Kiev, Salvador Sobral apresenta o segundo álbum de estúdio, “Paris, Lisboa”, no Coliseu dos Recreios.

Enquanto a sala se preenchia num Coliseu ainda de cortina fechada, ouvia-se a bateria num rufar suave, a criar expectativa e ansia para o momento inesperado que daria início à noite de Salvador Sobral. Após uma eficaz escuridão, o músico surge na tribuna da sala vestido de negro – gorro incluído – com a sua “catarse”. O tema “180 181”, que dá também começo ao seu novo disco lançado no final do mês de março, retrata o período (e talvez o lado) mais sombrio de Salvador, aquando do seu tão falado problema de saúde. O grito de revolta e dor continua junto do público, por onde irrompe a meia sala gritando e exteriorizando o passado até chegar ao palco. Segue-se “Change”, a mudança tão necessária, já com ambiente e músicos em cena revelados.

Em troca de idioma, apresenta “Cerca Del Mar” um dos primeiros temas a surgir antes do lançamento do novo trabalho e apresenta os habituais Júlio Resende, ao piano, André Rosinha, no contrabaixo e Bruno Pedroso, na bateria. “Presságio”, ou não, chegou o poema de Fernando Pessoa musicado por Júlio, onde Salvador comanda o público num coro uníssono “para saber que estão a amar”. Afasta-se do centro de palco e deixa a atenção no solo de piano, que inicia o seguinte “Ela disse-me assim”. A acapela final deixa o Coliseu em silêncio absoluto para escutar tudo à mais ínfima respiração.

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A primeira surpresa da noite aparece com (e sem) “Grandes ilusiones”, na visível mudança de palco reforçada pelas palavras de Salvador. Um quarteto de cordas aprimora os momentos que se seguiam: “Estrada Dividida”, tema inédito que foi pedido à irmã Luísa Sobral – como se de uma Telepizza se tratasse, num “50 minutos e ‘tá aí” –  e também a valsa “La Soufflouse”, com letra da esposa, a arrancar longos aplausos.

O humor característico de Salvador tem papel bem presente nos temas “Paris Tokyo II”, com literais guinchos animalescos e vocalizos vários (a lembrar a cantora de jazz Maria João), e no animado “Benjamim”, que viu a sua história ser introduzida em modo de sketch cómico, com direito a “música de fundo de casino, ladies and gentlemen”.

Anunciada nova surpresa, o mistério reina durante os primeiros segundos do tema “Mano a Mano”, que já roubava vários aplausos do público, mas viria a ser algo bem maior assim que António Zambujo pisasse o palco. “Se este tema corresse bem tocávamos outro, portanto vamos lá”. O tema de Luísa Sobral, “Só Um Beijo”, foi o escolhido para satisfação e aplauso de pé no Coliseu, um dueto inesperado que deixou a plateia enfeitiçada.

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Para tentar acelerar o tempo de espera nas trocas de elementos em palco, Salvador ajuda a equipa a retirar cadeiras e tripés antes de explorar em “Playing With The Wind” um ritmo mais “sujo” e negro, com traços particulares e minuciosos de rock e hip-hop – um género de rapper jazzístico. “Ay Amor” chega como um bolero de encerramento do concerto, mas que não enganou a sala, que esperava ainda pela canção que marcou e deixará para sempre marca em Portugal (e não só).

O encore traz de volta Salvador para “Amar Pelos Dois”, na primeira vez que seria tocada ao vivo com cordas (presentes na gravação de estúdio) e a segunda vez que seria ouvida no Coliseu – a primeira, em 2017, deu a vitória a Salvador na final do Festival da Canção. O público rendeu-se, repetiu a canção e amou por muito mais que dois, com Salvador a deixar o Coliseu sentir cada palavra num gigante e irrepreensível coro. Quase a terminar, brinda a plateia com um tema inédito, apenas acompanhado por Júlio Resende, e pede para “não filmarem” e simplesmente “sentir e ouvir com a alma” – a canção “A Casa Dela”, composta pelo pianista e com letra de João Monge. O final festivo chega junto do público, que se levantava e aproximava do palco, para a rebelião de “Anda estragar-me os planos”, com o músico e colega de escrita Leo Aldrey, e dedicada a um futuro melhor na Venezuela.

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Depois de inúmeros concertos pelo mundo fora, e como o próprio Salvador afirma, é tempo de celebrar o novo disco – que o carimba como nome a respeitar no jazz português – e sentir o privilégio de voltar a Lisboa e ter casa cheia. “Esta não é mais uma noite. Andei sempre a pensar isso mas desde há duas horas que estou nervoso.” E é caso para isso. Salvador carregou até hoje o peso e responsabilidade da vitória portuguesa na Eurovisão e, desde aí, muito se falava do que se seguiria na carreira do músico. Agora, começou a nova vida de Salvador Sobral.

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Produtor de televisão com um grande fraquinho por discos em vinil e nova música portuguesa.