Segundo dia de Semibreve eleva o experimental a outro nível

O festival de música eletrónica continuou este sábado, com concertos muito densos e experiências sensoriais.
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Se o primeiro dia de Semibreve nos espantou com o que se pode fazer com sintetizadores modulares, o segundo dia ofereceu-nos uma panóplia de novas experiências irrepetíveis. Os concertos no Theatro Circo foram novamente o destaque da noite de sábado do festival de música eletrónica.

O dia abriu com um concerto de Deaf Center na Capela Imaculada do Seminário Menor. Um local improvável para um concerto de música eletrónica, mas todos os anos o público é surpreendido pela relação criativa e funcional entre a música e as paredes da moderna capela.

Já à noite, de volta às paredes douradas do Theatro Circo, aconteceu a estreia absoluta deste festival. O australiano Oren Ambarchi juntou-se ao americano Robert Aiki Aubrey Lowe para uma colaboração que fez o público bracarense entrar em estado zen. Tocaram sem qualquer projeção atrás – algo incomum para um festival que aposta na relação entre imagem e som. Iluminados apenas por uma ténue luz, Ambarchi e Aubrey Lowe foram criando sons completamente de raiz, pegando num cabo aqui e ali e fazendo dos sintetizadores modulares caixas de sons inesperados. Ambarchi, de guitarra no colo, ia criando sons com a ajuda das cordas do instrumento, enquanto o seu parceiro em palco criava feedbacks propositados, aproximando os cabos dos monitores, e controlando assim os sons que dai fluíam. O concerto foi um jogo de xadrez entre os dois e o um público silencioso, mantendo-se em paz com a música e os músicos, e deixando a arte ecoar pelo Theatro sem distúrbios.

Com o final a aproximar-se, ouvimos finalmente uma espécie de batida, grave e ritmada, a reverberar pelo auditório. O som foi-se evaporando lentamente até finalmente se desvanecer. Foi a deixa para muitas palmas e um forte abraço entre os dois artistas, que prolongaram a estadia em palco durante mais um minuto até a abandonarem.

A exploração da repetição

Depois da pausa, foi a vez de Drew McDowall apresentar o seu trabalho “Time Machines”, acompanhado por Florence To. Enquanto Drew se desdobrava pelos aparelhos na mesa, Florence assumiu as responsabilidades visuais. O som inicial é tenso, muito tenso. De cortar com uma faca. Na tela eram pintados curtos riscos brancos, como uma estrada a ser desenhada. À medida que o som, sempre dentro das mesmas frequências sonoras, se ia intensificando, a estrada ia perdendo forma e dando lugar a riscos horizontais dispersos. É um ambiente de paz e acalmia simultâneas, com as formas e o som a criarem uma aura densa e complexa. A meio da performance, os riscos subitamente transformam-se numa imensidão de pontos brancos, como estrelas numa enorme constelação, que ora se mexe aleatoriamente, ora balanceia como um tapete sacudido ao vento. Um grave gutural e um ténue agudo cortam o ar, enquanto o mesmo som se mantém, como uma sombra gigante abatida sobre Braga.

Também nós nos mantemos até ao final do concerto, em que a constelação e o som vão morrendo aos poucos, até o Theatro Circo ficar em silêncio. Florence e Drew abandonam o palco com um leve aceno debaixo da salva de palmas do público internacional.

O transe da nova geração

Depois de um início de noite nas mudanças mais baixas, foi a vez do transe chegar em fúria ao gnration. Rian Treanor abriu as hostes na Blackbox da sala principal do gnration, onde apresentou o seu primeiro álbum, “Ataxia”. Sons fortes, pujantes e de estremecer a terra foram a base desta performance. Quem passava pela rua atrás do espaço sentia as vibrações no chão e nas janelas, pelo que se pode deixar à imaginação o que rodava nas mentes de quem assistia.

A fechar a noite, Kode9 trouxe o dubstep ao Semibreve. O britânico, um nome incontornável do dubstep, com três álbuns e a sua própria editora, Hyperdub, prosseguiu com a sustentável dissecação do gnration, graças à forte vibração e aos muitos saltos a compasso.

Além dos dois concertos no gnration, o Pequeno Auditório do Theatro Circo recebeu também Clothilde, um dos nomes portugueses emergentes no mundo dos sintetizadores modulares.

A nona edição do Semibreve termina este domingo com concertos durante a tarde. Félicia Atkinson vai brindar o Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho com a sua música e o Theatro Circo vai receber a dupla do veterano Scanner e do cineasta Miguel C. Tavares, além de Suzanne Ciani e a sua música feita com a máquina Buchia 200.

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