Semibreve: a invasão transcendente de Braga

Arrancou a nona edição do Semibreve. O festival internacional de música eletrónica amplamente elogiado pela imprensa internacional ao longo dos anos volta a Braga para dois dias de muitas experiências musicais e trabalhos multidisciplinares.
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Raramente vemos concertos sem instrumentos “clássicos” em palco. Mas foi assim que sexta feira 25/10/2019 começou o Semibreve, o festival de música eletrónica e experimental que desde há nove anos invade Braga. Muitos sintetizadores e computadores foram a norma no primeiro dia do festival, que teve como pontos altos os concertos do veterano Morton Subotnick e do transcendente de Alessandro Cortini.

Entrar no Theatro Circo é entrar numa sala clássica de séculos passados: cadeiras vermelhas, colunas brancas e traços e grades douradas a ornamentar as paredes. No topo, um enorme candelabro vigia os espetáculos. Foi, assim, estranho ver apenas dois computadores em cima do palco sobre uma tela gigante a servir de fundo. É a norma do Semibreve. Concertos à base da junção entre música e imagem, umas vezes mais harmoniosas que outras, mas sempre experiências extremamente sensíveis e delicadas, que puxam pelos nossos sentidos mais primitivos e ocultos.

O festival abriu com um clássico da música eletrónica: Morton Subotnick, um veterano de 86 anos, subiu a palco com Lillevan e trouxe ao Semibreve o seu trabalho mais famoso, “Silver Apples of the Moon”, a icónica composição eletrónica de 1967.

Sentados em sintetizadores modulares, Subotnick e Lillevan estavam escondidos no escuro, à medida que imagens disformes e irregulares iam cobrindo a tela. O concerto começou com sons soltos a dispersarem e a ecoarem pelas paredes do Theatro, um dominó de sons a cair progressivamente. Atrás, as imagens iam de rabiscos indescritíveis a imagens mais nítidas, para depois se derreteram em formas líquidas.

A ligação entre som e imagem é difícil de explicar: sempre que os sons, apoiados pela amplificação surrond do Theatro, iam crescendo e ofuscando cada vez mais qualquer barulho exterior, as imagens iam acelerando, como uma cacofonia organizada.

O concerto não teve qualquer interrupção, fora algumas frases de um espetador menos satisfeito com o experimentalismo eletrónico de Subotnick. Enquanto Subotnick usava o microfone para produzir sons mais complexos, o espetador continuou a falar, e o público no Theatro Circo prontamente cuidou de o calar. Já a terminar, surgiram sons mais profundos e graves, ressoando pela cidade de Braga. Na tela, uma lua nasceu com sons mais harmoniosos, as cores fixavam-se num verde agradável, e a experiência sensorial conduzida pela música chegou finalmente a uma fase etérea. A miríade de sons ia acalmando, a tela ficou preta e os computadores desligaram-se.

Morton e Lillevan foram abraçados com uma enorme salva de palmas pelo público, que fez questão de mostrar muito respeito pelo artista veterano, que está longe de deixar de ter cartas para dar na música eletrónica.

Um cinema levado ao espaço interior

Os concertos na sala principal do Theatro Circo não acabaram por aqui. Depois de um curto intervalo, foi a vez do multi-instrumentalista Alessandro Cortini mostrar o seu trabalho. O músico, que trabalha com os lendários Nine Inch Nails, apresentou uma música mais sequencial e menos disforme. Sons graves, profundos e guturais são a base do concerto. A influência inicial de Nine Inch Nails na música de Cortini é notória pela sombra espalhada na sala. Atrás, na tela, um filme: corpos a dançarem pelas paredes, de forma abstrata, enquanto Cortini continua com a sua viagem musical. A exploração das harmonias é muito interessante e complexa, tornada transcendente quando se olha para a dança cada vez mais desinibida dos filmes. A repetição de melodias e sequências musicais é feita de forma meticulosa e delicada, sendo que a receita é constante: Cortini apresenta a melodia, apoia-a com o grave e começa a desenrolar o tapete por baixo da dela, cada vez mais forte e complexa, atinge o clímax juntamente com o vídeo, e depois desvanece lentamente. É uma experiência poética e penosa de verbalizar, especialmente quando temos em conta a complexidade social dos vídeos.

Há tempo para algumas palmas a meio do concerto, mas a maior parte do público reserva-as para o final. Ao acabar, Alessandro Cortini despede-se muito discretamente, deixa a música a tocar e faz passar os créditos. O público espera, bate palmas a todos os atores e vai-se embora, com o “uau” a ser a palavra de ordem para quem saía da sala.

Além de Morton Subotnick + Lillevan e Alessandro Cortini, houve ainda concertos de Ipek Gorgun no pequeno auditório do Theatro Circo, e de Nik Void e Avalon Emerson no gnration. Destes, destaca-se o concerto de Emerson, uma DJ que fez explodir o gnration. Foram várias as vozes de apreço pela produtora, que deixou a Blackbox do gnration aos saltos com a sua dança cativante.

O Semibreve continua sábado 26/10/2019, a partir das 18h na Capela Imaculada do Seminário Menor, onde se dará o concerto de Deaf Center. Depois, a música eletrónica volta ao Theatro Circo, com o destaque a ir para a estreia mundial de Oren Ambarchi & Robert Aiki Aubrey Lowe.

E como um festival não é só feito de música, quem for ao Semibreve pode também encontrar várias instalações artísticas espalhadas pelo piso superior do Theatro Circo e pelas multiplas salas pequenas do gnration.

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