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Sting e Seu Jorge encerram MEO Marés Vivas

Texto: Pedro Beires
Fotografia: Mário Monteiro

 

Chave dourada para fechar as portas do MEO Marés Vivas. Sting e Seu Jorge foram as duas últimas atuações do festival.

O tempo não pára de correr e termina mais uma edição do MEO Marés Vivas. Pouco mudou este ano, não nos parece que a qualidade tenha subido ou descido. A confirmar-se a mudança de recinto, tal poderá ser o passo decisivo para o festival subir a fasquia. Esperamos para ver. Para já, aqui fica um apanhado do que nos trouxe este último dia de festival, num domingo bem solarengo.

Depois de os Átoa e Caelum animarem o Palco Santa Casa, coube a Joe Sumner arrancar com o Palco MEO. O leitor eventualmente estará a perguntar-se: mas quem é este Joe Sumner? Uma passagem pelo Facebook mostra-nos uma página com modestos 3 mil “gostos”… Gordon Sumner, pai de Joe, iria actuar mais tarde neste mesmo palco do MEO Marés Vivas. Confuso? Pois bem: Gordon Sumner é o nome que consta no documento de identificação de Sting, o cabeça de cartaz deste dia, que tem levado consigo o seu filho Joe na sua tour. Mas se ao ler isto está a pensar que foi “metida uma cunha”, uma coisa podemos garantir: Joe Sumner deu um belo espectáculo, a solo, acompanhado apenas de uma guitarra. Um homem bem-disposto, com alegria genuína, dotado de uma excelente voz e um conjunto de canções sentidas, tocadas com o por-do-sol como pano de fundo. Não é isto que um festival também é?
Diga-se que quem chegou ao Cabedelo sem conhecer Joe Sumner certamente reconheceu grandes semelhanças na sua voz com a de Sting. Sem receio em arranhar o português, o cantor foi fortemente aplaudido ao longo da sua actuação.

Com a fome já saciada é altura do primeiro grande concerto da noite. Miguel Araújo, a tocar bem perto de casa, chega ao Marés Vivas com mais um álbum lançado recentemente – “Giesta” – e mais do que isso, com uma enorme rodagem de um ano carregadíssimo de concertos. Por exemplo, este foi o sexto concerto em seis dias, desabafa Araújo enquanto saúda a sua equipa técnica. Além de temas novos como “1987” e “Axl Rose”, ouviu-se também “Será Amor”, tema cantado em dueto e que fez parte da banda sonora do filme “A Canção de Lisboa”. E claro, não faltaram temas para todos cantarem como “Dona Laura” e “Os Maridos das Outras” – estes da carreira a solo de Miguel Araújo – mas também “Anda Comigo Ver Os Aviões”, tema lançado pel’Os Azeitonas, e ainda “Pica do 7”, música que Araújo escreveu para António Zambujo. Abrilhantado por um magnífico cenário – feito à medida dos grafismos de “Giesta” – e por um vastíssimo conjunto de músicos, Araújo deixou a sua assinatura nesta edição do MEO Marés Vivas (festival ao qual jurou publicamente não mais voltar, depois de problemas ocorridos em 2012 com a actuação d’Os Azeitonas).

Altura para a conferência de imprensa de balanço destes três dias de festival, com presença da PEV Entertainment (organização), do presidente da Câmara Municipal de V. N. Gaia e dos parceiros MEO e Santa Casa. O resultado é -evidentemente – positivo, com o mesmo recinto e a mesma fórmula seria difícil esperar outra coisa. Mas este recinto é um rochedo que está a bloquear o crescimento deste festival. A Câmara Municipal, na voz do seu presidente, afirma que a construção da urbanização a situar nos terrenos deste recinto tem que avançar e que estão a ser estudaras alternativas que supostamente “não faltam”, com a costa marítima e a orla ribeirinha que Gaia tem. Em termos de datas para a confirmada edição de 2018, confirma-se que o festival irá ocorrer no fim-de-semana de 20 de Julho, embora fique em aberto se será adoptado o formato sexta/sábado/domingo ou quinta/sexta/sábado.
Já que estamos a traçar balanços, fica uma sugestão para melhorar na próxima edição: a decoração exterior do palco. Claramente algo falhou no planeamento este ano, pois estavam colunas de som à frente dos logotipos do festival, de tal forma que quem olhasse para o palco não conseguia ver “Marés Vivas” de forma clara em local algum.

A noite há muito que já se havia instalado sobre o Cabedelo, sempre com o magnífico contraste da outra margem do rio, onde as luzes se dispersam sobre a paisagem portuense. Uma paisagem que Sting, o artista que se segue, terá procurado conhecer, pois chegou a Portugal com um dia de antecedência para esse propósito. Bem, avancemos para o que realmente interessa: ENORME CONCERTO! Sting brindou a imensa multidão nortenha com uma actuação absolutamente brilhante, de uma genialidade sempre tão sóbria. Sting está em excelente forma, dando um concerto irrepreensível, a sua voz está (ainda) em “ponto de rebuçado”. Trouxe-nos aquilo que realmente importa: música. Não houve espectáculos de iluminação, grafismo e pirotecnia, nada disso! Só música e mais música, a transbordar por todos os cantos. Todos os grandes sucessos da sua carreira com mais de 40 anos estiveram lá, tocados em versões renovadas. “Englishman in New York”, “Every Breath You Take”, “Desert Rose” e especial destaque para a magnífica “Shape of My Heart”, num momento de uma beleza intimista sublime e deliciosa, tão adequada à paisagem do rio Douro. Claro, não faltaram as duas mais famosas canções dos The Police: “Message In The Bottle” e “Roxanne”.
Sting até se exprimiu em português, quando chamou Joe Sumner (seu filho que faz “backing vocals” e que actuou no mesmo palco horas antes) para cantar um tema com os holofotes centrado nele, dizendo: “Joe, vem. O teu pai está um pouco cansado.”. Um momento que quem assistiu não irá esquecer.
O artista britânico regressou duas vezes ao palco, terminando com a classe e magnificência de “Fragile”, eventualmente querendo deixar-nos com a mensagem “how fragile we are” (o quão frágeis somos). O MEO Marés Vivas foi levado para outro patamar com a actuação de Sting, que deixou bem claro que a sua excelente forma fará com que tenhamos a honra de continuar a ter este enorme músico a correr mundo fora com a sua arte.

Mas se havia um público mais maduro que veio principalmente para ver a actuação de Sting – público esse que desfalcou o recinto no final da sua actuação – os mais jovens não arredaram pé para mais um concerto que se aguardava com expectativa, nomeadamente o regresso de Seu Jorge a Portugal. O quarentão de Belford Roxo (Rio de Janeiro) prometia fechar em grande o festival e não iria ser o nevoeiro que pairava nas margens do Rio Douro a impedi-lo. E arrancou logo com dois temas de sucesso: “Burguesinha” e “Carolina” abriram o concerto. Logo a seguir, “Tive Razão” com um momento de pura magia de Paulinho Viveiro no “flugelhorn”. Seu Jorge e “Sua Banda” foram espalhando os sons tão cariocas do conjunto de canções que trouxeram ao MEO Marés Vivas, com variadíssimos momentos: de virtuosos solos de cada músico a um recital de poesia, de dois temas só à guitarra e voz a outros onde a explosão de sons se alastrava pelo Cabedelo. Já perto do fim da sua tardia actuação chega “Amiga da Minha Mulher”, uma das mais famosas músicas de Seu Jorge, que serviu de pretexto para muitos dançarem, procurando afastar o frio da noite à beira-rio. Em suma, foi um concerto muito agradável, com muitos rasgos de excelente música, sublinhados continuamente com as sonoridades brasileiras dos instrumentais que dão a base para Seu Jorge, com a sua única e tão grave voz, colorir ainda mais uma inesquecível noite do MEO Marés Vivas.