“The National” projetam Portugal para a órbita da Estação Espacial Internacional

“Hanging from chandeliers, same small world at your heels“ (“Vanderlyle Crybaby Cry“ by The National)
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Fotografias recolhidas da página de facebook oficial da Everything Is New.
Créditos: Victor Schwantz Barros

A última lua cheia de 2019 foi a 12/12, astrologicamente situada em gémeos, e associada ao portal de evolução 12-12-12. As condições atmosféricas contribuíram para um cenário propenso à mitologia e, entre a bruma, a iluminação exterior do Campo Pequeno de Lisboa criava um efeito feérico. A lua não era visível, mas os gémeos estiveram duplamente presentes nas 24 musicas do ultimo concerto da digressão europeia “Easy To Find” dos “The National”.

O projeto de Scott e Brian Davendorf, Bryce e Aaron Dessner e Matt Berninger tem 18 anos de existência, e é a 17ª vez que visita Portugal. Este ano, a “Imagem do Som” acompanhou-os a Paris no “A Special Evening With The National” de 16/04/2019, ao “Vodafone Paredes de Coura” de 14/08/2019, e à praça de touros de Lisboa nesta noite holisticamente aluada.

Créditos: Victor Schwantz Barros

O Campo Pequeno tem uma morfologia cuja beleza é inversamente proporcional à acústica. A primitiva vocação do espaço subjuga a atual, e o som esconde-se nos recantos e derrapa nas curvas, a limpidez evapora-se na cúpula, os graves encavalitam-se, os agudos estrebucham, e a dicção saltita em compassos inexistentes. Mas entre a terra e o céu há forças mais poderosas do que a ciência dos decibéis: os “The National” a entrarem no Campo Pequeno como se entra em casa depois de umas férias. Trazem uma bateria adicional, dois reforços de teclados e metais, a voz emprestada por Kate Stables ao mais recente disco, e o sentimento de libertação do ultimo espetáculo de uma longa tournée. Matt Berninger silencia a ovação de boas vindas para partilhar, emocionado, que acabara de falar com os astronautas da Estação Espacial Internacional. “Eles estão 400 km acima de nós, vamos faze-los ouvir-nos”.

As baterias e guitarras pegam na deixa, e disputam a cadência entrecortada de “You Have Your Soul With You”, com Kate a entrar com alguma timidez e a ser amparada por Matt, que a conduz com a segurança na travessia da canção. As luzes tornaram-se violeta, a sensualidade de “Quiet Light” espalha-se por todos os átomos do universo, e Matt desce do palco e entrega-se à plateia com um lancinante “but, sometimes, there is nothing I can do”. Regressa à formação levando um pedacinho de cada espectador, e magnetiza-o com “The Pull Of You”, envolvendo o recinto numa bolha de cumplicidade interpessoal com o intimismo da spoken word. “I Should Live In Salt” dissolve a ultima membrana entre os artistas e público com um plug in de metais estonteante, e “Don’t Swallow The Cup” arrasta para a mesma mesa anfitriões e visitantes de além mar. As luzes tornam-se vermelhas, e o tornado de “Bloodbuzz Ohio” cria uma espiral de vozes a cantarem em uníssono, impulsionada acima do solo por um solo de guitarras avassalador dos irmãos Dessner.

Créditos: Victor Schwantz Barros

O ritmo cardíaco coletivo vai abrandando com o ronronar de “Hey Rosey”, a exaustão da voz de barítono, que falha aqui e além, a acrescentar doçura à declaração de amor alongada em extended play. “Oblivion” reclina-se no conforto que se vai instalando, ao mesmo tempo que serve de mote a uma crítica ostensiva à presidência americana. Kate sobe a meia ponta e disputa a liderança com a percussão persistente de “Where is Her Head”, até ser resgatada por um Berninger atormentado, “I think I’m hittin’ a wall, I think I’m hittin’ a wall”. Dois passos atrás para “I Need My Girl” e “This Is The Last Time”, que termina com Matt pendurado nas grades da plateia. Berninger restabelece o canal de comunicação com o espaço dedicando “Looking For Astronauts” a Jessica Meir: “ela pode ver-nos e ouvir-nos, por isso cantem bem alto”.

A percussão e riffs de abertura de “Day I Die” rasgam a película de calma, e uma descarga de alta tensão percorre todos os presentes. Matt mergulha na plateia, caminha até à bancada por entre abraços, e canta sobre ao balcão do bar lateral, perante um roadie hipercativo que lhe vai estendendo mais e mais metros de cabo do microfone. Aproveita o poderoso instrumental de fecho para regressar com todos os cartazes que consegue recolher pelo caminho, e que se dedica a ler e a dispor sobre o palco. Kate retira-se, Bryce ataca o piano, e “The System Only Dreams in Total Darkness adquire um carisma de música de intervenção acentuado pela rouquidão esfalfada de desespero. Kate regressa para acompanhar “Rylan”, que faz a ponte para um dos momentos mais comoventes da noite: “Light Years”, dedicado às famílias com que os músicos irão reunir-se no dia seguinte, depois de um mês em digressão. Todos os telemóveis se acendem, criando um círculo de pirilampos, e no fim há uma pausa de silêncio absoluto. Os artistas estão rendidos: “Isto nunca aconteceu num espetáculo nosso… nunca ninguém nos fez isto … é tão bonito…” “I Am Easy to Find” é um caldeirão de emoções a borbulhar entre os teclados de Aaron e os metais, e a salpicar olhos mais sensíveis, rematado com uma homenagem de despedida a Kate Stables “um espírito de natal todos os dias”. O fecho fica a cargo da interpretação apoteótica dos clássicos “Graceless” e “Fake Empire”. Guitarras em riste, piano em primeiro plano, baixo a segurar o ritmo, baterias em stereo, metais em fuga, uma banda com sonoridade de orquestra, que absorve todas as palpitações e as devolve amplificadas.

Créditos: Victor Schwantz Barros

O regresso não se faz esperar: “Muito obrigada pelo melhor ultimo espetáculo do ano”, e a belíssima “Pink Rabbits” é cantada fora de tom e com a voz a falhar, confirmando que o carisma de Matt está muito para além da afinação, e que a magnificência dos The National não se esgota em notas, harmonias ou tempos. “Mr. November” e “Terrible Love” são duas exibições de puro talento de uma banda em que cada um faz tanto e tão bem, que todos fazem a diferença. “About Today” finaliza num flashback saudosista, rematado com todos os músicos alinhados na beira do palco, e dois microfones virados para a audiência. Diante de uma muralha de palmas, os gémeos Dessner vestem as guitarras acústicas, Berninger pede silêncio, e aos primeiros acordes adopta uma linguagem corporal entre o maestro e o mímico, enquanto milhares de vozes cantam “Vanderlyle Crybaby Geeks” do fundo da alma, sem hesitar, sem vacilar, sem perder o fôlego, sem esquecer os versos, e sem trocar o tom. Ouviu-se na Estação Espacial Internacional, viu-se da lua cheia, e abriu um portal de sensações mais místico do que qualquer filosofia existencial.

Neste 12-12-12 lunar, o campo foi demasiado pequeno para a excelência dos The National e para a torrente emocional do público.

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