Um Homem Tigre foi deixado à solta numa Jungle em festa – Vodafone Paredes de Coura – Dia 2

909

Os Fleet Foxes eram o nome mais forte do dia mas acabou por ser o português e os britânicos a deixar os festivaleiros mais desconcertantes.

O segundo dia de Paredes de Coura tinha expetativas muito altas. Além de sábado, que conta com Arcade Fire (cabeça-de-cartaz do festival), este dia 16 de Agosto era o que reunia os nomes mais vistosos, com os americanos Fleet Foxes e os ingleses Jungle como os grandes nomes da própria edição do festival deste ano.

A tarde começou com um concerto dos portugueses X-Wife. Já com muitos anos de atividade, não estranharam a já boa moldura humana que se encontrava apesar do sol lá bem alto que pedia intrínsecamente a uns banhos de sol ali ao lado, na Praia Fluvial do Taboão. Em vez disso, muitos festivaleiros estavam na frontline a curtir os novos sons de rock, eletrónica e um cheirinho de funk do novo álbum “This Game”. Aliás, neste álbum que até tem algumas letras na vertente espanhol, a banda aproveitou antes para perguntar quem estava ali oriundo da Galiza. Poucas pessoas se manifestaram mas muitas dançaram no final ao som de “Movin Up”, o grande hit, editado há mais de uma década. E no fim, João Vieira relembrou a todos que foi precisamente ali, há 15 anos, que começaram tudo isto. Foi um momento nostálgico e bonito.

A seguir, naquele mesmo palco principal, atuaram os Shame. A banda inglesa que está entre o estilo de garage rock e o punk rock, muitas vezes nos lembraram os nossos conterrâneos The Parkinsons, eles também influenciados por aquele estilo nas ruas de Londres. Foram cativando o público à medida que o sol ia caindo entre as árvores e ficou na retina os últimos momentos em palco, com um crowdsurfing de Charlie Steen, o vocalista da banda. Ao mesmo tempo a banda, em palco, ia carregando ao máximo os instrumentos e acabando o concerto com um sentimento que não ficou nada por fazer. Excelente momento para introduzir o rock n’roll de Tigerman naquele mesmo palco.

Entre estes dois concertos tivemos, no palco secundário, a estreia dos Japanese Breakfast em Portugal. Michelle Zauner, a vocalista, fez questão de dizer que apesar dos vários concertos que tinha dado nos últimos tempos era “um privilégio atuar num festival em Portugal”. O público foi enchendo o palco, entrou no mood lo-fi e experimental pop e isso serviu de motivação para a banda de Philadelphia ir em crescendo pelo concerto dentro.

The Legendary Tigerman gosta de blues, rock e de grandes festivais. Mal chegou ao palco principal já as encostas estavam cheias e a plateia praticamente esgotada. Fez questão de agradecer por poder estar ali, mais uma vez, no Vodafone Paredes de Coura, um festival que tanto preza. Começou mais na vertente blues, sempre bem acompanhado pela sua banda (em especial pelo saxofonista João Cabrita que teima em dar sempre um show único) e foi aumentado progressivamente para o seu rock mais genuíno. A meio ainda teve tempo para se enervar com problemas na produção: “o homem já esteve na lua mas hoje ainda não consegue meter dois microfones direitos”. Depois de tratado o problema técnico, tocou todos os grandes temas como a novata “Motorcycle Boy” ou a já veterana “Hey Sister Ray”. O Homem Tigre nunca precisou de ser lançado às feras porque era o próprio a domar o palco. O concerto ia à sua medida e no fim deu a última reserva com uma interação com o público onde se desenhou uma entoante troca de “Rock N’ Rolls” entre ele e a plateia. Para acabar em grande, como só uma estrela do rock sabe fazer, colocou-se junto à grade da divisória, continuou a dar o litro por “rock n’ roll” e no fim atirou a sua guitarra (sim, leu bem!) para o meio do público. Foi um concerto com um Tigre de garras afiadas.

© Joana Pereira

The Legendary Tigerman – galeria completa AQUI

Mais um concerto, mais uma volta. Desta vez foi Surma, no palco da Vodafone FM. Para uma artista que atuava antes de Fleet Foxes (e noutro palco), a artista de Leiria até teve uma recepção bastante calorosa, com praticamente todos os lugares preenchidos. Nomeada o ano passado para o Melhor Álbum Europeu Independente, Surma contagiou primeiro com restante banda e, já mais confortável, assumiu as batutas, teclas e guitarra numa harmonia ancestral, viajando muitos festivaleiros para mundos pararelos em danças desconexadas. “Vocês são incríveis”, ouviu-se várias vezes da voz de Surma, agradecendo o caloroso feedback que ia recebendo. Adorou e foi adorada. E certo é que Surma (Débora Umbelino) voltará breve a Coura, muito breve.

© Joana Pereira

Surma – galeria completa AQUI

Os Fleet Foxes eram a banda que mais fãs diários tinha trazido nesta quinta-feira ao festival. A banda do vocalista Mal Robin Pecknold assumiu desde cedo a sua postura folk-rock, começando com “White Winter Hymnal”. Nos vales do recinto começavam-se a entoar esta e outros hits como o caso de “He doesn’t know why” ou “Blue Ridge Mountain”. “Helplessness Blues” terminou em chave de ouro com o momento mais cativante da banda de Seattle. A noite já ia alta, os Fleet Foxes criaram a melodia certa e não decepcionou quem for fã dos discos editados.

© Joana Pereira

Fleet Foxes – galeria completa AQUI

A noite fria de Coura chegava depois da meia noite, mesmo a tempo para bater o pé ao som de Jungle, a banda britânica com ritmos dançáveis desconcertantes. O público de Fleet Foxes praticamente não saiu e ainda mais alguns se juntaram, ou seja, espaço era coisa que não havia em abundância naquele palco principal. Com o novo álbum “For Ever” a sair do forno, estava tudo entrelaçado para uma excelente hora e meia de concerto. Novas músicas desse álbum, e já sucessos no YouTube, levaram ao rubro milhares de fãs. Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland cantavam e puxavam pelo público com sucessivos “make some noise“, acompanhados pelas duas segundas vozes que os faziam acompanhar. O groove e o soul deram as mãos e Paredes de Coura rendeu-se por completo aos anos 70. Ainda houve espaço para uma homenagem à recém falecida Aretha Franklin, que resultou num bonito e simples “we miss you. Para terminar, os últimos 20 minutos viraram por completo um club a céu aberto, com “Busy Earnin” e “Time”. O público ficou em êxtase e a banda saiu dali com o sentimento de dever cumprido. O soul venceu e a própria Aretha, caso estivesse a assistir, deve ter ficado orgulhosa… e dado ao pé.

© Joana Pereira

Jungle – galeria completa AQUI

Por fim, assistimos ao concertos dos electrizantes Confidence Man. Uma banda de quatro, virado para a dança e eletrónica mas com uma vertente humorística associada. Um concerto de uma hora random mas muito divertida, que entreteu por completo os pós-Jungle. Excelente escolha.

Para hoje temos outro dia também muito eclético com os nomes de Kevin Morby, Slowdive e Pussy Riot à cabeça. Vamos a meio e muito satisfeitos com esta edição de Coura.

© Joana Pereira