Unknown Mortal Orchestra: um assunto de família

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© Rita Cipreste

Poderia ter sido apenas “Sex, Food & Unknown Mortal Orchestra” mas foi um espetáculo muito mais complexo e completo.

A 8 de junho de 2018 os Unknown Mortal Orchestra foram recebidos por uma legião de fãs no Palco Pichfork do Primavera Sound 2018, apesar das condições atmosféricas adversas. Seis meses depois, a “Sex & Food Tour” trouxe de volta à cidade o coletivo australiano, radicado em Portland, e a 29 de outubro o Hard Club abrigou-o da intempérie.

O compositor, vocalista e guitarrista Ruban Nielsen e o baixista Jake Portrait lançaram os Unknown Mortal Orchestra em 2011, com um álbum homónimo que rapidamente ascendeu ao estrelato. Seguiu-se “II”, e três anos depois o aclamado “Multi-Love”. Em 2018 regressam com dois trabalhos: “Sex & Food”, um registo introspetivo de fusão entre ambientes e emoções, e “Hanoi”, uma compilação de jam sessions instrumentais de libertação psicadélica com intrusões jazzísticas.

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O palco engalanou-se de elementos eco sustentáveis para receber a família Nielsen: 5 estantes verticais translucidas repletas de pequenos vasos de plantas verdes ao fundo, e uma franja de fetos a escorrer suspensa das luzes da frente. Os teclados de Chris e a bateria de Kody aconchegaram-se em dois estrados forrados a carpélio branco, Ruban colocou-se entre eles, e Jake Portarit postou-se com o baixo e a loop station na lateral direita. Foram unânimes no vestuário escuro e quente, mas dir-se-ia que Ruban estaria de pijama, com a barba da véspera por fazer, e um boné a obstruir os folículos capilares.

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Os primeiros acordes de “From the Sun” e os versos de abertura enrolam-se num acordar renitente, “isolation can put a gun in your hand, it can put a gun in your hand, it can put a gun in your hand”, e vão-se rebolando até arrastarem consigo o resto da música, conjurando uma energia que começa nos guizos das baquetas de Kody e termina na guitarra de Ruban, empurrando-o para fora do palco para dar uma volta à sala, sem parar de tocar, sem falhar uma corda, uma nota, por entre um público apinhado de espanto, para regressar à base e se entregar a uma explosão instrumental. A audiência ainda está sem fôlego quando recebe “Funny Friends”. Segue-se o quase pueril “Swim & Sleep (like sharks)”, com Ruban e Jake a marcarem o ritmo em subidas e descidas a meia ponta, como crianças que se esticam para modelar o timbre de voz. Esta dinâmica corporal prolonga-se por “Necessary Evil”, uma reminiscência vintage com aroma a barco do amor, acentuada pelos teclados de Chris.

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Ministry of Alienation” estreia-se como um exercício de rock psicadélico lo-fi, que progride em círculos concêntricos cada vez mais estreitos, até sufocar num um solo de distorção. A leveza é restaurada com “So Good at Being In Trouble”, sublime na arte de destilar frustrações até as tornar abstratas. O patriarca rasga essa névoa com o trompete, e convola-a no genial “Hanoi”, um devaneio desenfreado, ao longo do qual as cordas se esforçam por aguentar o tempo e o tom até ao limite, troca para o saxofone e enlouquece, contagia a bateria, e esta toma de assalto todos os espaços até rebentar a barreira das possibilidades. Para o rescaldo “Majour League Chemicals”, que transita sem pausas para o hino muito próximo do punk rock, “American Guilt”. Uma respiração, o teclado torna-se num órgão clerical, Ruban troca a guitarra pelas palmas sincopadas do gospel, transpõe o palco equilibra-se sobre a grade de proteção e entoa ”Not In Love, We’re Just High”, com o microfone numa mão e a outra apoiada num elemento do publico. Regressa ao palco para uma exibição de piruetas, recompõe-se, e recupera a guitarra a tempo de encerrar com “Multi-Love”, a valsinha de desafio entre teclas e as cordas que todos cantarolam.

© Rita Cipreste

O encore não se faz esperar, e começa com o dançável “Everyone acts Crazy Nowadays”. A transição para “Honnybee” é intuitiva: o baixo é irresistível, o groove é poderoso, e o solo de guitarra uma delícia roubada a outros tempos. A despedida a cargo de “Can’t Keep Checking my Phone”, é uma aposta segura no otimismo e boa disposição.

Os Unknown Mortal Orchestra são uma família de músicos exímios que arrisca, sem medo, invadir sonoridades diferentes, e que, ao vivo é muito poderosa a criar atmosferas e insuflar emoções.

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Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.