Já se ouvia “alguém cantando longe” na Sala Suggia da Casa da Música, nada mais nada menos que duas das grandes vozes do panorama musical brasileiro – Zélia Duncan e Simone.

Um espetáculo que se debruçou sobre a amizade onde se recordaram algumas das canções do álbum Amigo é Casa, repescando alguns temas do trabalho a solo de cada uma das artistas. Numa cumplicidade onde o tom se enroscava com o sorriso estampado no rosto característico destas duas almas com uma musicalidade sobrenatural. Presenciava-se duas gerações que passados oito anos voltaram-se a encontrar em palco para presentear o público com os temas mais icónicos. Numa visão luminosa o início do concerto fez-se pronunciar através de “Alguém Cantando” e “A Palo Seco” seguindo-se dos agradecimentos iniciados por Zélia Duncan – “Obrigada, muito boa noite. Felizes demais de podermos mais uma vez cantar juntas aqui em Portugal, e nessa terra de céu aberto, azul como a gente viu hoje, uma terra harmoniosa, com uma sensação boa de andar aqui, de estar aqui nesse lugar, onde a gente sua e a música soa.” – Enquanto Simone referia-se à sala do espetáculo como um “templo”, Zélia continuava “Então a ideia é que a gente se emocione juntos, cantem se tiverem vontade, se não tiverem a amizade continua, estamos aqui para isso.” A baiana e carioca mostraram uma afinidade que só elas conseguem transmitir em temas como “Idade do Céu”, “Mar e Lua”, “Gatas Extraordinárias” e o “Tempo Não Para”. “Amigo é Casa” foi a canção que deu todo o mote para o encontro entre estas duas cantoras, traçado por ser um choro belíssimo de Capiba com a letra do poeta Hermínio Bello de Carvalho que retrata como as amizades verdadeiras deveriam de ser construídas, o “primeiro tijolinho da primeira construção”. Simone começou por contar uma pequena história – “Uma vez ela chegou na minha casa, a gente já se conhecia assim, só de palco, e ela chegou em casa, foi levar uma música do Hermínio e do Martinho da Vila do disco que ela estava produzindo, junto com Bia Paes Leme e levou uma música chamada “Ouro, Mirra e Incenso”, que é bem sugestiva, né. E esse dia em diante a gente nunca mais se largou.” Quando se transformaram em parceiras musicais decidiram gerar a primeira composição através de um Bolero, que segundo Simone – “O Bolero tem que ser de amor, se não for de amor fica meio capenga, fica meio estranho.” – seguindo-se da melodia “O Tom de Amor”. Apelos em prol do seu país, de um Brasil que deveria de carregar uma estabilidade lógica para a sociedade foram tecidos por Zélia Duncan – “Que bom cantar coisas de amor, nesse momento faz muita diferença para a gente lá no Brasil. O Brasil vive um momento sombrio, estranho, difícil, onde a ignorância está saindo do armário muito orgulhosa de si mesma, cheia de violência, agressão e repressão. Mas como diz uma poeta brasileira chamada Hilda Hilst “Ainda que se feche a janela meu pai, é certo que amanhece!Simone acompanhava os refrões de “Vida da Minha Vida” e “Estação Derradeira” e numa sincronização profunda fizeram a transição entre duas “Almas”, deixando espaço para “Diga lá, Coração”, “Candeeiro” e “Canteiros”. É com “Iolanda” que Simone resgata a presença de Zélia para o palco, continuando com o alinhamento do espetáculo entre “O Ralador” e “Embarcação”. Acompanhadas pelos músicos – Léo Brandão (teclado e acordeão), Cristiano Galvão (bateria), José Leal (percussão), Webster Santos (bandolim, guitarra e violão) e Ézio Filho (contrabaixo e direção musical) – deixavam o palco agarradas e com samba no pé ao som de um dos temas de Gonzaguinha – “”. O público inquieto, aplaudindo de pé as duas divãs deixavam antever um encore que ficou registado através do tema “Tô Voltando”. Espera-se o regresso de Zélia Duncan e Simone, quem sabe em outros palcos e até mesmo a solo para encantar uma nova plateia com as suas melodias de outrora, de hoje e de um futuro que se avizinha com um esplendor de felicidade. Fotografia:Carina Guilherme Texto: Camila Câmara Galeria: